Fiz o Clássico no Centro Educacional de Niterói. Ganhei um concurso promovido pelo O GLOBO/AIR FRANCE. O prêmio era uma viagem a Paris. Fui lá no inverno de 1968. Amei Paris. Descobri o Brasil.
Entrei para o Curso de Comunicação da UFF. A idéia era fazer jornalismo. Saltei fora. Eu era livresco, acreditava que vivia um mundo de segunda mão. Tinha que aprender sobrevivência na selva. Viajei, bati, apanhei, mundo cruel, vasto mundo, horror. Andei pela América Latina (a dedo, mochila nas costas, on the road, pé na estrada, Bolívia, Peru, Chile, Argentina, saudades do Brasil).
Não fui à guerra. Escrevia sempre, e não gostava do que escrevia. Achava que um dia alcançaria algum tipo de maturidade, uma voz própria, um estilo, um truque. Rascunhos secretos. Projetos de mudez: gaveta. Silêncio, exílio, periferia.
Em 1990, ganhei o concurso Carlos Drummond de Andrade promovido pela Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro com o livro Beirute e outros poemas capitais. O prêmio era grana e publicação do livro. A grana só recebi três anos depois. O livro nunca foi publicado. Em 1995, ganhei o prêmio da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, categoria novela, com o texto Na Beira do Rio. Recebi a grana e o texto foi publicado.
Em 1997, participei do projeto Fábrica de Dramaturgia, de Domingos de Oliveira, no Planetário da Gávea. Foi lá que tive o prazer e a agonia de ver um texto representado. E a certeza desconfiada de que todo mundo é um Hamlet à procura de Shakespeare, mas entrar no cânone ocidental do Harold Bloom é um Oriente ao Oriente do Oriente.
Neste mesmo ano, participei do Prêmio Julia Mann, promovido pelo Instituto Goethe de São Paulo, junto com a Editora Estação Liberdade. Meu prêmio foi uma viagem à Alemanha. Wunderbar.
Ainda em 1997, ano mágico, conheci Clarisse Fukelman, da Vereda Produções Culturais, que arrancou de mim um pesquisador. Com ela, fiz pesquisas para a Rede Globo (novelas Força de um desejo, de Gilberto Braga; Porto dos milagres, de Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares), além da exposição em homenagem a Antonio Callado na Academia Brasileira de Letras, entre outros projetos.
Sempre batalhei free-lancer. Frila. Trabalhar para comer, beber, sobreviver. E escrever. Há 12 anos trabalho no Sindicato dos Armadores de Pesca do Estado do Rio de Janeiro como redator da revista Pesca & Mar, tendo sempre a ilusão de que um dia o Brasil vai descobrir que seu mar é tão importante quanto a Amazônia. (do pâncreas do peixe-sapo se extrai a insulina; a Aplysia brasiliana, conhecida como lebre-do-mar, contém um composto, o trimetilsulfônio, que age como relaxante muscular; o Conus regius, espécie de molusco abundante no arquipélago de Fernando de Noronha e no litoral capixaba, mostrou-se eficiente no alívio da dor. Finlandeses desenvolveram um analgésico a partir de substâncias extraídas do molusco; o AZT é feito à base da azidotimidifina, substância isolada de uma esponja marinha. Thalassa! Thalassa!)
Há seis anos trabalho no jornal A Voz do Escriba e no A Gazeta do Maçom, da Grande Loja Maçônica do Estado do Rio de Janeiro. Não sou maçom. Se um dia tive um ser alguma coisa, não foi ser pedreiro livre, mas iconoclasta. Não cheguei nem mesmo a me revolucionar.
Leio francês, inglês, espanhol, italiano, e gaguejo todas essas línguas (não é modéstia, é verdade) com sotaque de periferia. Ainda estou me dizendo.

FRANCISCO MACIEL
Nasci em São Gonçalo, na periferia do Rio de Janeiro, no século passado, 1950. Trabalhei em bar e feira livre desde os seis anos, enquanto estudava. Acho que comecei a escrever para tentar interpretar metamorfoses: um homem pede uma bebida e três doses, depois vira bicho. Ou as sessões de umbanda: ver minha mãe e minhas tias pegando santo.
No último ano do ginásio, ganhei um prêmio do Lions Club sobre a paz.
O PRIMEIRO DIA DO ANO DA PESTE
ENTRE DOIS MUNDOS