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Março de 2005
Beleza que se dissipa
Em As Irmãs Makioka, Jun'ichiro Tanizaki usa uma tradicional família japonesa para retratar uma sociedade de valores em crise
BERNARDO CARVALHO
Jun'ichiro Tanizaki (1886-1965) passou a Segunda Guerra levando a família de um lado para o outro, para evitar os bombardeios, e escrevendo um longo romance (considerado por muitos a sua obra-prima e também o mais importante da literatura japonesa do século 20) que não tinha, em princípio, nada a ver nem com a guerra nem com os bombardeios. A crise por que passava o Japão e a situação política internacional aparecem muito eventualmente ao longo do texto, e só de maneira alusiva (uma ou outra referência ao “incidente chinês”, uma ou outra carta que os protagonistas recebem de uma simpática ex-vizinha alemã, que voltou para Hamburgo e se tornou simpatizante de Hitler), mas nem por isso deixam de provocar uma profunda sensação de estranhamento e mal-estar no leitor, pela ausência.
As Irmãs Makioka (Sasameyuki) conta a história de uma família tradicional da alta burguesia do Kansai (região do oeste do Japão: Kyoto-Osaka-Kobe), às vésperas da guerra, à procura de um bom partido para uma das irmãs que, aos 30 e poucos anos, corre o risco de ficar encalhada, estragando também, por tabela, os prospectos matrimoniais da caçula (pela tradição, devem-se casar as irmãs por ordem de idade). Os personagens não pensam em outra coisa. À primeira vista, tudo é de um classicismo absoluto. Enquanto o Japão invade a China e a guerra eclode na Europa, as Makioka continuam fazendo suas visitas anuais a Kyoto, para ver as cerejeiras em flor. Até parece um romance para moças.
Por que, então, os primeiros capítulos teriam sido censurados pelas autoridades militares japonesas quando o autor tentou publicá-los numa revista, em 1943? A publicação foi interrompida diante da “iminência do combate final e do temor de que o romance pudesse exercer uma influência nefasta” sobre o público japonês. Tanizaki chegou a imprimir por conta própria 200 exemplares desse primeiro volume, para distribuí-los entre os amigos, em 1944, mas alguns meses depois a polícia proibia também a publicação do segundo volume. A primeira parte de As Irmãs Makioka acabaria saindo somente em 1946, depois da rendição do Japão. E Tanizaki só terminaria o terceiro volume em 1948, sete anos depois de ter começado a escrever o romance.
O que as autoridades viram nesse livro aparentemente inofensivo foram as personagens frágeis, delicadas e individualistas de uma burguesia inconsciente, decadente e estéril (há mais de um aborto involuntário entre as quatro irmãs ao longo do período narrado) à beira do caos. Ao contrário das outras obras do autor, não há no romance nenhuma perversão sexual, nada do voyeurismo ou do masoquismo que marcam textos como Voragem (1928), A Chave (1956) e Diário de um Velho Louco (1963), todos publicados no Brasil (os dois primeiros pela Companhia das Letras, o último pela Estação Liberdade). Tudo parece ligado a um ideal da beleza que se esvai, à perda da juventude e das tradições. A única obsessão dos personagens se resume em tentar casar a irmã encalhada.
Quando jovem, Tanizaki sofreu forte influência do Ocidente, de Baudelaire e de Oscar Wilde, mas também do cinema. Seus primeiros escritos inauguraram uma via muito pessoal e idiossincrática, escapando simultaneamente ao Naturalismo e ao Romantismo, tendências opostas em que se polarizavam os escritores japoneses no início do século. Foi acusado de diabolismo e decadentismo, o que não lhe desagradou de todo. Depois do grande terremoto de Tóquio, em 1923, mudou-se para a região de Kyoto-Osaka. E, com a mudança, passou a se interessar também por um retorno às origens e às tradições do Japão. Começou a traduzir para o japonês moderno o clássico medieval O Conto de Genji , de Murasaki Shikibu, escrito por volta do ano 1000, e redigiu um belo ensaio, Elogio da Sombra , em que exalta as particularidades culturais e estéticas do país.
Em 1936, Tanizaki se instala em Ashiya, entre Kobe e Osaka, numa casa que vai servir de inspiração para o cenário principal de As Irmãs Makioka e que hoje está aberta à visitação do público. Sua terceira mulher e as irmãs dela, filhas de uma família culta da alta burguesia local, serviram de inspiração para as quatro protagonistas. Yukiko, a terceira, a que precisa encontrar um marido, é uma personagem opaca por excelência, de quem nunca se conhecerá ao certo os sentimentos e os pensamentos (“ yuki ” quer dizer neve; o título original do romance, “ sasameyuki ”, quer dizer neve fina ou ligeira e incorpora o radical do nome da protagonista). Ela se deixa levar passivamente pelas obrigações e convenções. Deixa que lhe procurem um marido sem nunca manifestar a própria vontade.
Não é por acaso que o casamento esteja no centro do romance. Tudo gira em torno dele. Cada nova proposta é uma história de suspense em si. O lugar do casamento é central na tradição japonesa. É a questão do sangue. Ainda hoje (e não apenas no romance), as famílias mais tradicionais e ricas investigam os (as) pretendentes a maridos e mulheres de seus filhos e filhas. A simples suspeita de sangue coreano entre os antepassados, por exemplo, pode ser razão para uma recusa, assim como os casos de distúrbios psíquicos ou de doenças hereditárias na família, e Tanizaki aproveita essas obsessões para dar vazão à sua hipocondria na própria escrita.
O corpo está presente o tempo todo, e de modo ostensivo, menos em sua dimensão sexual (evidente em outros romances do autor) do que numa espécie de degradação lenta e discreta. O romance é pontuado por descrições de doenças, sintomas e medicamentos. Começa com o ligeiro mal-estar de uma das irmãs (as quatro são assombradas pela constante suspeita de beribéri e recorrem às injeções de vitamina B como a uma solução para tudo, ao primeiro sinal de desconforto físico ou psíquico), e termina, mais de 500 páginas depois, com a crise de diarréia de Yukiko, no trem a caminho de Tóquio e de sua cerimônia de casamento.
O que parecia um romance para moças encobre contradições profundas do autor e questões delicadas da sociedade japonesa, sua fragilidade, seus preconceitos, seu racismo, etc. Numa carta de 1916 ao irmão mais moço, Tanizaki manifestava não ter nenhuma inclinação para a vida familiar. É interessante que sua obra-prima, escrita algumas décadas depois, gire em torno da instituição do casamento como um dos principais pilares da sociedade japonesa, se não o principal. São essas tensões submersas que fazem de As Irmãs Makioka um livro incrível, em que o subtexto é tão importante quanto a aparência tranqüila de um mundo da beleza, que se dissipa.