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setembro de 2006
ESCRITA QUE VEM LÁ DO JAPÃO
Mercado brasileiro se abre para a literatura produzida no Japão. Até 2007, editoras preparam lançamentos de autores contemporâneos - entre eles dois Prêmios Nobel -, em traduções diretas do original
POR PAULO CUNHA
Nos últimos anos, o mercado editorial brasileiro descobriu um novo filão: a literatura japonesa contemporânea, isto é, a produzida a partir do século XIX. Nessa leva, acaba de chegar às livrarias um pacote de peso. Nele se incluem dois romances do Prêmio Nobel Yasunari Kawabata, outro do também premiado Kenzaburo Oe, e a segunda edição de Hagoromo de Zeami, uma “transcriação” de Haroldo de Campos sobre uma peça tradicional do teatro nô. Os lançamentos não devem parar por aí. Empenhada em publicar toda a obra de Kawabata, a editora Estação Liberdade anuncia mais dois livros para 2007: A dançarina de Izu e Contos da palma da mão. Também em 2007, a Ateliê Editorial lançará Trajetória em noite escura, de Naoya Shiga, com tradução de Neide Nagae. A Objetiva, que já publicou dois livros de Haruki Murakami (Minha querida Sputnik e Norwegian wood), prepara mais um para o ano que vem – comprou os direitos de Umibe no Kafka, que será lançado no Brasil com o título provisório Kafka à beira-mar. Detalhe importante entre os lançamentos é o fato de todos terem tradução direta do japonês, fato raro até então no mercado editorial brasileiro.
Depois de publicar, em 2004, O país das neves e A casa das belas adormecidas – inspiração confessa de Gabriel García Márquez para seu Memórias de minhas putas tristes –, a Estação Liberdade lança mais duas obras fundamentais de Yasunari Kawabata (1899-1972), Prêmio Nobel de literatura de 1968. Kyoto é talvez seu trabalho mais importante, que deu reconhecimento internacional ao escritor. Lançado originalmente em 1962, foi uma das últimas obras de Kawabata antes de sua morte, por suicídio, dez anos mais tarde. Chega agora com tradução do japonês de Meiko Shimon. Ambientado em Kyoto, no período pós-Segunda Guerra, narra a trajetória da jovem Chieko, filha adotiva de Takichiro, um comerciante de quimonos, e de sua esposa, Shige. Chieko trabalha na loja do pai e assiste à sua falência, como à de várias outras lojas tradicionais de Kyoto, em razão da mudança dos valores culturais, então influenciados pelo Ocidente. Para descrever a cidade que foi capital do Japão por mais de mil anos (entre 794 e 1868), Kawabata desenvolveu uma profunda pesquisa, que revela na obra aspectos culturais e costumes da região, até então desconhecidos até mesmo por japoneses. A descrição de Kawabata sobre a cidade, sua mistura de estilos, sua beleza natural e datas festivas, é pura poesia.
A tradutora, Meiko Shimon, destaca as dificuldades de passar o texto do japonês para o português. “Trazer seu mundo imaginário, escrito de uma forma um tanto vaga, muitas vezes ambígua, mas com uma linguagem bela e fluente é o mais difícil”, diz ela. Além disso, Meiko conta que Kyoto traz termos e situações tipicamente japoneses. “Não só os aspectos da cultura tradicional, quimonos, festivais, templos e santuários, habitações, costumes, como também o modo de falar, pensar e se comportar dos personagens”, diz. “Tudo isso é muito diferente para os leitores brasileiros.”
O outro título, Mil tsurus, publicado originalmente em capítulos por revistas japonesas, foi escrito entre 1949 e 1951, período marcado pela reconstrução de um Japão devastado pela guerra. Saiu pela primeira vez no Brasil em 1956, pela Nova Fronteira, sob o título Nuvens de pássaros brancos. A edição que chega agora tem tradução do japonês de Drik Sada. Fazendo da cerimônia do chá o pano de fundo da obra, Kawabata resgata valores tradicionais, justamente no momento em que o país se defrontava com valores culturais vindos do Ocidente. O livro narra a vida de Kikuji Mitani, um jovem que reencontra duas amantes de seu falecido pai, durante uma cerimônia do chá, e acaba profundamente envolvido com elas. Nessa história em que o passado, representado pela figura do pai do protagonista, desperta sentimentos em conflito, Kawabata demostra novamente seu profundo conhecimento da antiga cultura do Japão e enaltece a importância da arte oriental, por meio das cerâmicas seculares do ritual do chá.
Também lançado inicialmente em periódicos japoneses, entre 1982 e 1983, Jovens de um novo tempo, despertai!, de Kenzaburo Oe, é uma coletânea de sete histórias de ficção curtas. O autor se inspirou em versos do poeta inglês William Blake para descrever o cotidiano de um escritor de meia-idade com seu filho excepcional. Os versos servem de contraponto à trama e ecoam ao longo de todo o livro. Kenzaburo Oe, nascido em 1935, é um dos romancistas mais populares do Japão. Sua obra compreende inúmeros contos, escritos políticos e um famoso ensaio sobre Hiroshima. Em 1967, recebeu o prêmio Tanizaki e, em 1994, o Prêmio Nobel de Literatura.
A literatura de hoje tem influências da China antiga, do pensamento ocidental e dos valores da tradição
A tradução desse livro, formado por períodos longos e frases interferentes, tomou um ano de trabalho de Leiko Godota. “Oe diz que tentou, em suas obras de início de carreira, desconstruir a língua e recriá-la. No meu entender, isso é uma manifestação vigorosa da sua imaginação, que extrapolou, por assim dizer, o âmbito do tema. Essa rebeldia, bem atenuada agora, ainda é aparente em suas obras atuais e um elemento complicador para a tradução”, avalia a tradutora.
Hagoromo de Zeami: o charme sutil é uma “transcriação” de Haroldo de Campos (1929-2003) para um clássico do teatro japonês, que ganha agora nova edição, bilíngüe (japonês-português), pela Estação Liberdade. Foi traduzida e minuciosamente trabalhada pelo poeta, morto há três anos. O livro traz a versão integral da peça Hagoromo [O manto de plumas], do dramaturgo Motokiyo Zeami (1363-1443), principal nome do teatro nô e considerado o maior artista do período Muromachi (1333-1573).
Numa época em que o Japão era assolado por calamidades naturais e infindáveis guerras civis, o talento de Zeami, de apenas 12 anos, chamou a atenção do jovem xogum Yoshimitsu Ashikaga, cinco anos mais velho. Interessado pelas artes, Yoshimitsu patrocinou a obra de Zeami durante 34 anos. Isso permitiu o desenvolvimento de um novo gênero cênico, o teatro de máscaras nô. Como dramaturgo, ele escreveu mais de cem peças. A edição é caprichadíssima. Vem acompanhada do texto original, com os ideogramas (kanji), transcrição fonética e os significados literais de cada verso.
O interesse de Haroldo de Campos pela peça vem dos anos 1950, quando iniciou seus estudos da língua japonesa. Em 1960, o poeta escreveu um ensaio sobre a obra, que foi publicado só em 1976, no livro A operação do texto. A primeira edição do Hagoromo, de 1993, ganhou o Prêmio Jabuti de tradução.
É significativo o fato de esses lançamentos serem traduções diretas do japonês. “Traduzir diretamente do texto-fonte é o ideal, pois as perdas que estão implícitas em qualquer trabalho de tradução podem ser minimizadas, e as marcas da cultura que o trabalho literário apresenta podem ficar preservadas”, afirma Neide Nagae, que já traduziu obras de Kawabata, Murakami e Jun’ichiro Tanizaki, entre outros. Leiko Godota, tradutora de diversos autores japoneses, concorda. “Por mais que o tradutor se empenhe, uma tradução é apenas uma cópia pálida do original e, portanto, cópias dessas cópias tendem a ser cada vez mais esmaecidas”, diz.
Para a tradutora Meiko Simon, “a maior dificuldade é a enorme distância que existe entre as duas línguas e culturas. Isso exige um trabalho intenso na transposição cultural ou recriação textual para poder adaptar à língua portuguesa”. Leiko Gotoda identifica as dificuldades de cada autor: “Eiji Yoshikawa é um escritor poético, emotivo, capaz de agarrar o leitor e prendê-lo com firmeza. Haruki Murakami tem uma linguagem moderna, sui generis. Seu texto transcorre numa sucessão de frases curtas, como num fraseado de jazz, ritmo musical que o autor aprecia muito. Seus personagens, assim como seus temas, são modernos e globalizados, mas o autor nunca perde de vista o cerne, a verve poética da alma japonesa. Jun’ichiro Tanizaki é o escritor da linguagem e do tema clássicos, tradicionais. Seu texto é claro, desprovido de ambigüidades, mas exatamente pelo fato de ser genuinamente japonês se torna difícil traduzi-lo. Ele adora falar das manifestações culturais japonesas mais tradicionais (religiosas, teatrais, festivas, musicais, artesanais, gastronômicas, arquitetônicas etc.), que levam o tradutor a gemer no momento de transpor seus detalhes para outra língua”.
O vigor da literatura japonesa contemporânea inspira-se em uma rica variedade de fontes, desde as influências clássicas da China antiga, passando pela diversidade do pensamento ocidental, até os valores duradouros de suas próprias tradições. Musashi, o calhamaço de Eiji Yoshikawa (1892-1962) lançado no Brasil pela Estação Liberdade em dois volumes em 1999, é o responsável por todo esse interesse pelos escritores japoneses. Com tiragem inicial de 4 mil exemplares, o livro surpreendeu a própria editora e ultrapassou os 60 mil volumes vendidos. “A demanda visível pela literatura japonesa verificou-se a partir do lançamento de Musashi, um best-seller apesar de seus dois volumes de quase 2 mil páginas”, diz Jo Takahashi, da Fundação Japão, uma organização vinculada ao Ministério das Relações Exteriores do Japão. Depois dessa publicação, cresceu sensivelmente o interesse das grandes editoras por obras de escritores japoneses, principalmente os contemporâneos. “Há um componente essencial no interesse por Musashi, que são as artes marciais e a filosofia zen, e não necessariamente o valor literário das obras, mas é inegável que ele foi uma porta de entrada para o universo japonês”, completa. A literatura contemporânea japonesa é muito apreciada na Europa e nos Estados Unidos. “No Brasil, temos um atraso no mercado editorial, que precisa ser corrigido, pois há aqui o culto aos best-sellers. A carência de bons tradutores do japonês para o português é outro problema que ainda não está resolvido”, adverte Jo.
Tradição secular
As obras literárias mais antigas do Japão exercem influência até hoje. Uma delas é o Kojiki [Registro de casos antigos], texto em prosa que se acredita ser do ano 712. Outra é o Manyoshu, uma antologia em 20 volumes de poemas compilada por volta de 770. Contém cerca de 4.500 poemas de homens e mulheres de todas as profissões e idades, muitos anônimos. Os poemas são conhecidos por sua franqueza e simplicidade.
O século IX foi um período em que os clássicos chineses foram a principal influên-cia. Depois, seguiu-se um período no qual os japoneses desenvolveram uma literatura própria. Taketori monogatari [A história do cortador de bambu], escrito por volta de 811, é considerado o primeiro romance japonês. Foi seguido por outras obras, como o Genji monogatari [A história de Genji], escrita por Murasaki Shikibu, por volta de 1010, romance em 54 volumes que descreve o amor e o sofrimento de nobres e suas damas, bem como a aristocracia japonesa nos séculos X e XI.
A ascensão dos guerreiros aristocratas à classe dominante, a partir do final do século XII, fez popularizar os contos de guerra. Duas das obras mais famosas são Heike monogatari [A história de Heike], escrito por volta de 1223, e o Taiheiki [Registro da grande paz], de meados de 1300.
Um grande renascimento literário começou na segunda metade do século XVII, primeiros anos do período Edo, marcados pela paz e pelo desenvolvimento de uma nova cultura plebéia. Os romances de Ihara Saikaku (1642-1693), conhecidos por seu realismo vivo e estilo incisivo, e as peças de Chikamatsu Monzaemon (1653-1724), com sua composição dramática, foram escritos para um público amplo, e tinham mérito literário bem elevado. Nessas obras, pessoas comuns da sociedade ocuparam o lugar dos heróis, e às vezes seu fim trágico vinha na forma do suicídio. Por essa época, apareceu como nova forma de poesia o haiku, poema de três versos e cinco, sete e cinco sílabas – conhecido como haicai no Ocidente –, que teve Matsuo Basho (1644-1694) como maior expoente.
A literatura ocidental varreu o Japão durante o século XIX. A literatura japonesa foi enriquecida por diferentes correntes do pensamento ocidental, como liberalismo, idealismo e romantismo. Um sem-número de obras foi traduzido para o japonês, e nomes como Shakespeare, Goethe e Tolstói passaram a fazer parte do dia-a-dia do país.
Desde a guerra, um número cada vez maior de obras de autores japoneses tem sido publicado no exterior. Um dos mais importantes é Yukio Mishima (1925-1970), nascido em Tóquio, filho de um oficial do governo. Seu primeiro romance, Confissões de uma máscara (1948) – publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2004 –, foi bem recebido e permitiu-lhe dedicar-se integralmente à literatura. Em 1970, assistido por uma multidão, o escritor praticou haraquiri em protesto contra a fraqueza do povo japonês. Pretendia, enquanto agonizava, escrever com seu sangue um manifesto, o que não conseguiu fazer. Em 1968, Yasunari Kawabata tornou-se o primeiro japonês a receber o Prêmio Nobel de Literatura – e também suicidou-se quatro anos depois.