
18 de junho de 2005
O pop como totem
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Saem no Brasil os romances que comoveram o Japão e
tornaram famoso Haruki Murakami
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por Luís Antônio Giron
Haruki Murakami, o escritor atual mais famoso do Japão,
demorou para ser traduzido no Brasil. Entre 2001 e 2003, saíram o romance
policial Caçando Carneiros, de 1982, e a novela sarcástica Minha Querida
Sputnik, de safra recente, 2001. Nesta semana, chegam às livrarias dois romances
representativos do estilo pop do autor: Norwegian Wood (1987) e Dance Dance
Dance (1988), continuação de Caçando Carneiros.
As traduções diretas do japonês buscam recuperar o frescor do original, embora
resulte impossível passar ao vernáculo certas características da escritura de
Murakami, como o uso dos quatro alfabetos correntes no Japão e a exploração de
sonoridades estranhas ocasionadas pelo choque entre vocábulos de hemisférios
culturais opostos. Palavras com sons ocidentais, por exemplo, emergem na página
original com caracteres diferenciados, criando intraduzíveis combinações. Ainda
assim, os romances chegam em essência ao leitor brasileiro.
Herdeiro de uma genealogia de autores que abordaram o impacto do Ocidente sobre o arquipélago, Murakami exibe transparência narrativa e enredos bem estruturados. Seu traço distintivo, no entanto, repousa na assumida superficialidade e nos temas favoritos da turma que cresceu durante o boom econômico da década de 60 à de 80. Já não existe, da parte de sua galeria de personagens, a devoção à história do país nem a atitude de horror aos bens culturais europeus e americanos. Bem ao contrário.
Norwegian Wood elevou o escritor a herói das subculturas urbanas do Japão. Trata-se de um romance de formação, com pitadas autobiográficas. O jovem Toru - como Murakami - vai estudar teatro em Tóquio no fim dos anos 60. Ali se envolve com o ambiente político, amigos desajustados e colegas sensuais. Mas a morte se instala e acaba por acorrentar a história, contada em primeira pessoa. Os planos de tempo avançam ou retardam, para valorizar os efeitos e as reviravoltas.
Dance Dance Dance observa idêntico método. Narra trapalhadas de um jovem jornalista freelancer que se embrenha pelas ruas da capital japonesa à cata de um amor perdido, a garota de programa Kiki. Na procura, o herói topa com morte, sexo, ambição e diálogos secos e quase sem sentido.
Em ambos os enredos, sensualidade, transgressão e drama se dissipam no mar de citações de músicas, filmes, notícias de TV. É como se o pop se convertesse no totem capaz de resolver ou diluir todo e qualquer conflito e dilema. O ser humano e suas limitações se precipitam no fundo do tubo de ensaio do consumismo, como um sal do acaso. Os estudantes, as prostitutas, os andarilhos e os malandros que povoam essas histórias são estimulados por padrões, venerando produtos e valores alienígenas. Sexo, drogas, música, política e cinema compõem uma atitude de rompimento total com o passado. Murakami dá uma lição aos aspirantes brasileiros à ficção urbana pós-moderna. Enquanto ele quase conclui a obra, os autores daqui mal começaram as suas.