
2 de abril de 2005
Painel etnográfico
As irmãs Makioka, o mais célebre romance de Junichiro
Tanizaki, mostra mudanças no Japão
por Cléber Eduardo
Há quem considere As Irmãs Makioka, de Junichiro Tanizaki (1886-1965), o maior dos romances japoneses (lançado pela primeira vez no Brasil em tradução do japonês). O autor escreveu o livro durante a Segunda Guerra Mundial, teve a publicação de uma primeira parte abortada pela censura em 1943, sofreu outro boicote oficial em 1944 e só viu o texto ser liberado em 1948. O conflito bélico internacional é uma sombra na história narrada e só importa quando contamina a vida dos personagens. O universo das Makiokas é o de uma família burguesa de Kansai, oeste do Japão, que teve melhores dias no passado e tenta manter a dignidade. As condutoras do relato são quatro irmãs. Embora uma delas tenha mais espaço nas 744 páginas, sempre empenhada em resolver os conflitos da família, a problemática central se concentra em outras duas: a caçula e uma solteirona.
São elas que encarnam, nem sempre com sutileza, a fusão de passado e presente. A primeira é moderna, com dotes artísticos e vocação para a transgressão. Não segue as determinações da tradição familiar, mas estuda uma dança regional, de Osaka, que corre risco de desaparecer. A outra é mulher à moda antiga, tímida no limite da patologia, mas só faz o que deseja. Olha-se para trás e para a frente, tendo a mulher como corpo de mudanças e preservações, como fonte de conflitos.
Não há a sexualidade explosiva de outros títulos do autor
(Naomi, Voragem). Desta vez, Tanizaki é mais sutil.
Faz questão de estender o tempo dramático e de descrever ambientes,
pessoas e situações com detalhes pouco apressados. Esse quase
naturalismo etnográfico, que instala o leitor nos lugares descritos e
no momento histórico do enredo, é capaz de proezas — como
dedicar dezenas de páginas aos efeitos de uma tempestade.
O mais forte é a minuciosa revelação
do sistema de controle pelas famílias. Nenhum pretendente da solteirona
pode ser aprovado antes de ter tudo investigado. Vetam-se as uniões com
homens pobres, velhos, com doença mental na família. Tanizaki
faz documentários com palavras.