Ilustrada, 12 de janeiro de 2008


Livro clássico de Flaubert faz rir com nó na garganta

Adriano Schwartz

Quem tiver preparado aquela famigerada listinha de resoluções de Ano Novo ainda tem chance de nela acrescentar um item mais "realizável" do que os habituais "vou emagrecer", "vou fazer ginástica", "vou me estressar menos". Seria ele (e o crítico literário é, por dever de ofício, sempre otimista em suas expectativas): "vou ler o livro "Bouvard e Pécuchet'".
Comédia da imbecilidade (e da fragilidade) humana, o romance de Gustave Flaubert, como escreveu Juan José Saer, vai fazer seu leitor rir bastante, mas muitas risadas serão acompanhadas de um "nó na garganta".
Produto de um trabalho insano, para o qual centenas de livros dos assuntos mais diversos tiveram de ser consultados, o texto conta o encontro de dois copistas que se conhecem por acaso e, percebendo inúmeras afinidades, resolvem depois de um tempo juntar as economias e uma herança que em boa hora chegara e se mudar para o campo, onde poderiam estudar e fazer experiências a respeito de tudo que existe.
É assim que, capítulo após capítulo, a partir de um esquema narrativo absolutamente estruturado, acompanhamos os personagens mergulhando no mundo da agricultura, da química, da medicina, da história, da literatura, da filosofia, da religião etc. Romance inacabado Como afirma Guy de Maupassant em artigo (reproduzido em apêndice nesta nova edição) de 1881, publicado quando o livro é lançado (um ano após a morte de Gustave Flaubert, que não consegue terminá-lo), o texto faz "um exame de todas as ciências, da forma como elas se manifestam a dois espíritos bastante lúcidos, medíocres e simples". Possivelmente, uma das questões centrais da obra seja que, ainda que a mediocridade e a simplicidade dos dois amigos se mantenham inalteradas, os instantes de lucidez parecem se ampliar na mesma medida em que a variedade de temas se multiplica (e o capítulo sobre religião, nesse sentido, é devastador). Daí um pessimismo que o final nunca escrito, mas do qual são conhecidos os planos, só consegue exacerbar.
Este inacabamento, aliás, pode ser visto como uma das marcas de distinção da obra, uma qualidade especial de textos que talvez tenham chegado perto demais de um lugar que não poderia ser alcançado -textos como "O Processo", de Franz Kafka, ou "O Homem Sem Qualidades", de Robert Musil (se você quiser aumentar aquela listinha de resoluções de final de ano...).

ADRIANO SCHWARTZ é professor de literatura da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP