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Ilustrada, 2 de abril de 2005
Obra proibida constrói crítica velada ao
militarismo japonês
Estação Liberdade
lança "As irmãs Makioka", de Junichiro Tanizaki
MARCELO PEN
CRÍTICO DA FOLHA
Que o leitor não se engane com o tamanho alentado de As Irmãs Makioka, romance que Junichiro Tanizaki levou seis anos para escrever, em meio à onda de militarização japonesa, que culminou com a entrada do país na Segunda Guerra. Em primeiro lugar, trata-se de obra de leitura agradabilíssima e fluente. Segundo, a despeito do tamanho, não se trata de uma dessas sagas que atravessam séculos. A história transcorre em poucos anos e, o que é mais notável, na superfície trata tão-somente de um assunto ordinário — ainda que consagrado: a busca de um marido.
Das quatro irmãs Makioka, duas já estão casadas quando o romance se inicia. A solteira Yukiko perdeu várias oportunidades de matrimônio, pois a família tradicional, outrora influente, não acreditava que os candidatos estavam à sua altura.
O processo de escolha dos candidatos é complicado e só vai adiante após a aprovação dos mais velhos. No caso de Yukiko, isso implica o consentimento da irmã primogênita e, sobretudo, do chefe da família, o marido desta última. Por causa das exigências familiares, a perda do prestígio dos Makioka e certa atitude intempestiva por parte da irmã caçula, o casamento de Yukiko corre o perigo de ficar para o dia de são Nunca. Com isso, o matrimônio da caçula rebelde também se complica, pois, pela tradição, ela só pode casar-se por último.
Já se vê por esse esboço que, muito além da descrição de qüiproquós amorosos, Tanizaki põe a nu o modelo antigo da sociedade japonesa, em choque com a crescente modernização do país. Nesse sentido, a liberada caçula, que sonha em ganhar o próprio sustento, é a antítese de Yukiko.
Estranha hoje que o romance tenha sido proibido após a publicação de dois pequenos excertos, em 1936. Para uma das tradutoras brasileiras da obra, Leiko Gotoda (que também verteu outros títulos do romancista, de quem é sobrinha), a razão está no "nacionalismo exacerbado e na censura do regime militar", que não via com bons olhos o caráter independente do autor de obras polêmicas como Há Quem Prefira Urtigas.
Gotoda conta que o tio continuou a escrever o romance, embora tenha prometido aos militares que o interromperia, e, algum tempo depois, publicou o primeiro volume em edição particular, que distribuiu entre amigos. Tanizaki concluiu os três livros que constituem o romance (hoje reunidos numa só obra) em 1942.
O modo como o autor introduz o militarismo nipônico é significativo, se não profético (e, portanto, genial). Numa dada cena, a pequena sobrinha de Yukiko brinca de guerra com seus vizinhos, não por acaso alemães.
A cena vem inserida entre outras duas. A primeira é uma grande seqüência em que uma inesperada enchente (descrita como "tsunami de montanha") atinge a região onde residem os Makioka. A segunda é outra cena de aparência inocente, em que uma abelha atormenta as irmãs. O episódio remete à figura mitológica de Io, donzela perseguida pelos quatro cantos do mundo por um moscardo enviado por Hera, como punição pela moça ter sido alvo da lascívia de Zeus.
Tanizaki, portanto, está falando do destino de um povo cujas rígidas tradições ocultam uma natureza capaz de eclodir com força destruidora (a enchente) e cujas manobras de guerra lhe imporiam um castigo descomedido. Assim, as palavras de uma das irmãs, em relação ao inseto —"Está vindo! Está vindo!" —, tingem-se das cores de um horizonte então trágico e apocalíptico.