Prosa & Verso, 14 de agosto de 2004


O pensador sem fronteiras

Luciano Trigo

Jacques Derrida é um pensador que não respeita convenções temáticas ou formais, nem pretende construir métodos, doutrinas ou grandes sistemas. Em “Papel-máquina”, ele aproxima a filosofia da literatura, da crítica e até mesmo da autobiografia, ignorando (mais do que destruindo) as fronteiras entre os gêneros. Geralmente partindo de problemas ligados ao texto, ou ao que ele chama de “experiência da escrita”, a sua reflexão, sempre altamente pessoal, incorpora questões éticas, políticas e estéticas. Ele próprio de origem argelina, Derrida atualiza, por exemplo, o debate sobre a explosiva questão dos imigrantes ilegais na Europa e das identidades culturais em conflito em tempos de globalização.

“Papel-máquina” se divide em duas partes. A primeira — intitulada “Matéria e memória”, evocando Bergson — reúne duas conferências feitas por Derrida na Biblioteca Nacional da França, em 1997 e 2001. A segunda reúne entrevistas, artigos e ensaios “reativos”, isto é, provocados por convites, perguntas, provocações, e publicados em jornais e revistas como “Les Temps Modernes” e “La Quinzaine Littéraire”. Neles Derrida explica tanto a sua relação com a tecnologia, marcadamente influenciada por Heidegger, quanto a sua maneira de conceber a tarefa do intelectual no mundo hoje — que inclui a missão de se associar aos que se vêem privados do direito à fala e à escrita, aos sem voz e aos sem documento (“sans-papiers”).

Derrida começa o livro refletindo sobre “o” livro, seu conceito e seu futuro diante da quase-imaterialidade dos novos suportes do texto, e ainda suas relações com a produção e a reprodução da escrita, com a idéia de obra e com sua inserção na economia do mercado. Ele questiona o sentido e o papel das bibliotecas num cenário em que os textos correspondem cada vez menos à “forma livro” — não somente porque os textos eletrônicos dispensam o papel, mas também porque a própria idéia de obra finita e delimitável começa a ser corroída pela abertura interativa radical das redes virtuais de difusão e troca de informações e opiniões.

Essa discussão, tão atual, Derrida a associa a um texto de 1959, escrito por Maurice Blanchot a propósito de Mallarmé e intitulado, justamente, “O livro por vir”. Mallarmé escreveu que tudo existe para terminar num livro, e talvez isso nunca tenha sido tão verdadeiro quanto hoje, quando a realidade é embrulhada e fabricada continuamente por um fluxo de textos sem fim e sem começo. Em outras palavras, uma nova compreensão do espaço literário se faz necessária, e o próprio Derrida já a tinha anunciado há quase 40 anos num de seus livros mais famosos, “Gramatologia”, que incluía um capítulo chamado “O fim do livro”.

O tema do arquivo e da memória é desenvolvido no ensaio seguinte, que articula Santo Agostinho, Rousseau e Paul de Man, autor de “Alegorias da leitura”. Contrapondo os conceitos de “máquina” e “acontecimento”, necessidade e acaso, Derrida faz uma interpretação algo psicanalítica das duas “Confissões”, textos fundadores da “escrita do eu”, mostrando ao mesmo tempo como uma e outra são produtos de sistemas particulares de significação: “As confissões de Agostinho foram feitas para pedir perdão para uma falta confessada — Deus sabe que sou pecador — enquanto Rousseau (protestante convertido ao catolicismo) não confessa nada a não ser para desculpar a si mesmo, clamando sua inocência radical”.

Uma das linhas-mestras do pensamento de Derrida é a desconstrução, que implica a crença de que tudo, no fim das contas, é uma construção ideológica, que tenta fazer passar por natural e inevitável o que é na verdade o produto de uma cultura ou de um sistema de pensamento particular. Neste sentido, a desconstrução é uma resistência a toda espécie de hegemonia. Se o estruturalismo já tinha relativizado os conceitos de verdade e conhecimento, transformados em aspectos internos e arbitrários da linguagem, o pós-estruturalismo a que se filia Derrida foi ainda mais longe, ao sugerir que não criamos a linguagem a partir da nossa experiência do mundo: é esta experiência que nos cria, nos precede e nos determina, já que só podemos existir e pensar dentro de um universo complexo de símbolos, códigos e convenções.

Carta aberta a Bill Clinton

Isso não impede, paradoxalmente, que Derrida seja um pensador engajado, muito atento às questões mais concretas da realidade que nos cerca. “Papel-máquina” inclui, por exemplo, uma carta aberta a Bill Clinton, pedindo que ele evite a execução de Mumia Abu-Jamal, condenado à morte na Pensilvânia pelo assassinato de um policial, num processo altamente irregular. Outra carta aberta é endereçada ao então presidente Fernando Henrique Cardoso, esta para apoiar José Rainha e o Movimento dos Sem-Terra brasileiro, por representarem uma luta contra a submissão aos imperativos da globalização.

No sentido do engajamento, são particularmente interessantes as referências a um filósofo que saiu da moda — em parte por culpa dos diversos “ismos” a que Derrida se vincula. Estou falando de Jean-Paul Sartre, a quem o autor dedica um longo ensaio. Derrida sublinha uma contradição do filósofo existencialista: a de se apresentar ora como quem denuncia os mitos da fraternidade e da caridade burguesas, ora como quem ainda quer salvar, redimir ou libertar os homens. De qualquer forma existe uma missão emancipatória da filosofia, e Derrida a assume numa bela passagem do ensaio: “Continuo achando engajamento uma palavra muito bonita, justa e ainda nova, se se quiser bem compreendê-la, para falar da intimação a que e pela qual atendem ainda escritores ou intelectuais”.