Prosa & Verso, 8 de outubro de 2005

Desconstruir é democratizar

Carla Rodrigues

A desconstrução, termo mais popular da filosofia de Jacques Derrida, é o tema em questão no livro “Jacques Derrida: Pensar a desconstrução”, que a editora Estação Liberdade lança na próxima segunda-feira, 10, em São Paulo , no Rio e em Juiz de Fora, como parte das homenagens por um ano da morte do filósofo. Organizado pelo professor de Teoria da Literatura da Universidade Federal de Juiz de Fora Evando Nascimento, o livro traz ensaio inédito do filósofo (“O perdão, a verdade, a reconciliação: qual gênero?”) e reúne outros 20 textos apresentados ano passado no Colóquio Internacional Jacques Derrida: Pensar a Desconstrução, última aparição pública do pensador antes de sua morte, em 9 de outubro de 2004.
Ultrapassar o sentido mais comum para “desconstrução”, freqüentemente associado a destruição, desmonte ou desmantelamento, é um desafio para os estudiosos da obra do filósofo. Numa entrevista entre Derrida e a psicanalista Elisabeth Roudinesco, publicada no livro “De que amanhã” (Jorge Zahar, 2004), ela diz ter a impressão de que o mundo atual está desconstruído e, por isso, se parece com os conceitos de Derrida. O que Evando Nascimento faz é olhar para essa desconstrução de forma positiva.
— Por um lado, podemos pensar que o mundo teria sido desconstruído de fato por todo o processo que consiste em não ser mais possível acreditar que um único centro, como ponto situável no tempo e no espaço, organize a realidade das coisas — diz Evando. — Esse processo de descentramento foi algo inerente ao século XX e ocorreu nos diversos planos da cultura, sobretudo na cultura ocidental, que tinha sido construída sobre sólidos centramentos.
Por sinais de descentramento entenda-se o enfraquecimento do conceito teológico-político de soberania, o surgimento de um novo saber em rede, sem um centro fixo de organização (como a web), e o aperfeiçoamento dos direitos humanos. Por outro lado, Evando também lembra que existem sinais de recentramento no atual processo de globalização (que Derrida chamava de “mundialização”):
— É fato evidente que a bipolaridade da Guerra Fria foi substituída por uma única potência hegemônica. Nesse sentido, não há desconstrução alguma, mas um recentramento atroz, rigorosamente imperialista, embora com recursos de inteligência e sofisticação de que o colonialismo clássico não dispunha.
Para Evando, essas duas hipóteses da desconstrução não se anulam:
— Creio que há uma convivência dos dois processos: em parte, os centramentos tradicionais foram desconstruídos, mas em parte também alguns aspectos neocoloniais retornaram com força redobrada. Essa duplicidade cria múltiplas combinações, e cabe a cada sociedade ou comunidade encontrar o modo de afirmar aquilo que potencializa mais a vida, ou seja, o que evita o esmagamento das diferenças, através do recurso às estratégias de desconstrução.
Tudo isso aponta para Derrida como um pensador interessado em questões éticas e políticas como violência, democracia e o apartheid na África do Sul, tema da sua conferência sobre perdão realizada no Brasil e agora lançada em livro.
Evando explica as conexões entre a situação sul-africana e a brasileira:
— Creio que a questão da África do Sul pós-apartheid é extremamente importante para o Brasil por se tratar de um passado de discriminação racial nos dois países, com configurações específicas, é claro, mas com efeitos semelhantes em termos de miséria na maior parte da população e por permitir pensar como a questão do perdão não é a mesma da anistia. Pode-se perdoar sem esquecer o mal feito, ao contrário, trazendo-o vivo na memória para que não se repita. No Brasil, os militares se auto-concederam uma anistia que evidentemente visava a que fossem esquecidos todos os crimes cometidos em nome da segurança nacional, durante o período da ditadura.
Na conferência, Derrida faz reflexões sobre o processo da África do Sul, onde foi instaurada a Comissão Verdade e Reconciliação, com objetivo primeiro de trazer a verdade à tona e depois promover a reconciliação.
— O fato de falar sobre o acontecido é uma maneira mais justa de lidar com a História, ainda que a reconciliação seja um processo sem fim. Nós por enquanto optamos por anistiar para esquecer, daí que os fantasmas a todo momento retornam, pois a dívida com o passado está longe de ser solvida. E o problema diz respeito a outros países da América Latina — diz Evando.
Para ele, ocultar, sufocar ou recalcar crimes do passado permite que eles sempre retornem, como fantasmas. Por isso, defende a abertura total dos arquivos da ditadura.
— Em vez de um esquecimento que nos deixa na eterna ignorância, melhor seria uma memória capaz de elucidar questões, evitando males futuro e até permitindo corrigir erros do próprio presente.
Esse processo era o que Derrida chamava de “democracia por vir”, algo que já existe mas também está sempre sendo aperfeiçoado, possibilitando “dizer tudo” o tempo todo.
— A democracia continua sendo o único regime satisfatório, embora em cada país ela assuma uma feição diferente. O valor da democracia é antes de mais nada o da transparência, que significa a possibilidade de circulação de idéias, sobretudo porque não há praticamente nenhum país isento de corrupção — lembra Evando.

Michel Misse falará sobre Derrida no Brasil

Para ele, a crise atual indica que a democracia no Brasil, embora exista, está longe de ter um bom funcionamento.
— As instituições e seus agentes não são controlados efetivamente pela sociedade. A sensação que se tem é a de um Estado superpoderoso e altamente corrompido contraposto a uma sociedade impotente e majoritariamente empobrecida. O pior é que a tomada do poder central por um grande partido de esquerda em nada mudou essa situação, somente a corroborou — conclui Evando.
As homenagens a Derrida no Brasil incluem três conferências de Michel Lisse, professor da Universidade Católica de Louvain, que falará em São Paulo , dia 10, no Rio de Janeiro, dia 11, e em Juiz de Fora, dia 13. No Rio o evento acontece na Maison de France a partir das 17h, e a conferência será seguida de mesa-redonda com Lena Bergstein, Luiz Fernando Medeiros de Carvalho e Evando Nascimento, além do lançamento do livro “Jacques Derrida: Pensar a desconstrução”.