
O livro que Henry Beyle publicou em 1830, assinado pelo mais célebre de seus mais de 100 pseudônimos - Stendhal -, foi pouco lido e menos ainda compreendido por seus contemporâneos, com a enorme exceção de outro realista: Honoré de Balzac. No século 20, o livro adquiriu tamanha expressão que ganhou de alguns o apelido de Le Rouge. O Vermelho, simplesmente, fato que exprime a sensação de intimidade e a simpatia que essa obra não cessou de inspirar em seus leitores, desde que nela se reconheceu uma das maiores da literatura. Fortuna semelhante teve Stendhal: o culto entusiasmado pelo viajante, pelo amante da pintura, da música e pelo mestre dos sentimentos levou Valéry a imaginar um leitor que, farto de tanta adoração, diria, imbuído do espírito do próprio Henry Beyle: Ao diabo esse Stendhal!
O fato de não ter sido lido em sua época deve intrigar o leitor que hoje abre o volume - nesta bela edição com excelente tradução de Raquel Prado - e depara com o seu subtítulo: "Crônica de 1830". O vermelho e o negro é uma crônica no sentido mais profundo da palavra, e também no mais corriqueiro. Para o entrecho do romance, Stendhal se baseou inteiramente num caso real publicado em 1827 na Gazeta dos Tribunais: o processo de condenação de Antoine Berthet. No livro, Berthet se torna Julien Sorel, o protagonista do romance que, num dos capítulos finais do livro, imagina uma notícia de jornal na qual a Sra. de Rênal, uma das duas amantes que teve, tomaria conhecimento do destino que caberia a ele: a punição imposta por uma época mesquinha e vil (a França pós-napoleônica) a um jovem provinciano, pobre, orgulhoso e cheio de ambições que, admirador de Napoleão, se comporta na sociedade como alguém que se move o tempo todo sozinho, num campo de batalha, em terreno inimigo. Mas sabe escolher suas armas: a hipocrisia e a batina ("o uniforme de seu século"), as únicas capazes de lhe proporcionar ascensão social.
Como quer que seja, Stendhal não inventou a história de seu Julien, mas é esse fato que nos faz apreciar a façanha realizada pelo autor. Por duas razões: em primeiro lugar, ele soube observar a sua época e pinçar, num jornal forense, uma história que tão bem a sintetizava. Em segundo lugar, porque o retrato que pinta é tão vivo, tão cheio de ímpeto, a história flui de modo tão direto e sem interrupção para o desenlace (ele praticamente não faz uso de flash-backs), que se chega a ter a impressão de acompanhar, "ao vivo", a trajetória do herói. Se Luchino Visconti (um dos maiores admiradores seus) foi considerado o Stendhal do cinema, Stendhal certamente está entre os mais cineastas dos escritores.
Na pena ágil de Stendhal, o caso Berthet serve como um tema musical a partir do qual o autor improvisa. O leitor logo perceberá que as numerosas e variadas epígrafes desempenham, a cada capítulo, função semelhante.
A desenvoltura do estilo e a originalidade desse romance tirado de uma notícia de jornal se devem àquilo que o seu autor tem de mais original: ele mesmo. Se Stendhal conseguiu exprimir com tanta vida os sentimentos do pobre Julien em luta contra a sociedade é porque o criou, por assim dizer, à sua imagem e semelhança. Era um observador de si mesmo, e foi de si mesmo que hauriu a vida interior de seu herói. Olhando ao mesmo tempo para fora e para dentro, para a sociedade e para os sentimentos dos personagens, Stendhal pintou o quadro de sua época pelos olhos de um herói moderno - e trágico - com o qual ainda hoje, e seguindo o exemplo de seu criador, podemos nos identificar.
Já Armance é a estréia de Stendhal no romance. O autor publicou o livro em 1827, com mais de 40 anos. Até então ele escrevera diversos textos sobre música (ou sobre músicos: Vida de Haydn, Vida de Rossini, Vida de Mozart) e outros que, de uma maneira ou de outra, tratam da Itália, a "segunda pátria" do autor (Roma, Nápoles e Florença e História da pintura na Itália). Publicara ainda Racine e Shakespeare e Do amor. Este último texto tem vínculos estreitos com o seu primeiro romance.
Armance é um livro sobre o amor, ou melhor, sobre a sua impossibilidade. Os protagonistas, como posteriormente em O vermelho e o negro e A cartuxa de Parma são almas nobres, mas nesse primeiro romance stendhaliano elas são também delicadas. A delicadeza aí se encontra do começo ao fim, tanto na forma, quanto no conteúdo, de tal modo que essa palavra, em mais de uma acepção, serve muito bem para resumi-lo.
Stendhal, um mestre da elegância, jamais comete a indelicadeza de apontar, com todas as letras, a verdadeira causa da impossibilidade do amor de Octave e Armance, pois não são propriamente os obstáculos externos - sociais ou econômicos - que o tornam impossível. A impossibilidade é aqui de outra natureza, melhor dizendo, da natureza frágil do protagonista.
O livro se constrói a partir do segredo de Octave, o qual o tempo todo esconde de Armance a sua falta. Stendhal tampouco revela ao leitor o segredo do jovem protagonista, de tal modo que a chave para a compreensão do romance se encontra apenas fora dele, ou seja, numa carta do autor a Mérimée, incluída ao final da presente edição em português. Nessa carta, assim como no interessante prefácio escrito pela tradutora, o leitor mais curioso poderá conhecer o segredo do livro e, de posse desse segredo, apreciar a genialidade do autor, que consiste em jamais revelar o mistério que envolve a figura de Octave, fazendo-o, contudo, o tempo todo de forma indireta e alusiva. É a arte da sutileza e da delicadeza, usada para tratar de um assunto delicado (e, em grande medida, escabroso).
Vale dizer, por fim, que uma tradução um pouco mais bem cuidada casaria melhor com esse romance cujo assunto foi cercado de cuidados pelo autor.