
Idéias, 2 de outubro de 2004
O senhor da guerra
Biografia de Carlos Magno descortina o cenário medieval das lutas
étnicas
por Uelinton Farias Alves
Se Jean Favier teve o propósito de chamar a atenção do grande público para a personalidade controvertida e apaixonante de Carlos Magno, é preciso dizer que o seu projeto foi plenamente cumprido. Sua alentada biografia daquele que é considerado o primeiro imperador francês, à primeira vista, impõe um certo receio pela corpulência do volume, que logo se desfaz quando se inicia a sua leitura. O leitor se aventura por histórias que, muitas vezes, só conhece das telas do cinema ou de filmes exibidos de madrugada na televisão.
Embora nem sempre fiéis ao fato, esses filmes cumprem um papel importante para quem tem pouca informação sobre personalidades históricas e figuras cavalheirescas que viveram, como o mítico Carlos Magno, na Idade Média. O poderoso imperador, até a morte, reinou absoluto sobre um território que se estendia do Mar do Norte à região dos Abruzos (Itália), do Rio Elba até o Ebro, do Lago Balaton (Hungria) até a Bretanha.
Sua biografia traz, de forma muito bem documentada, detalhes da época, da vida e da obra de um homem que conduziu, pelas próprias mãos, o destino de seu povo e lançou as bases do mundo europeu contemporâneo. O legado deixado por Carlos Magno seduziu e ainda seduz gerações de pensadores e governantes séculos afora.
A obra de Jean Favier não tem nada de complexa, do ponto de vista estético ou acadêmico. Antes, remete ao fascinante mundo carolíngio, que se projeta em cenas de guerras campais à semelhança dos épicos cinematográficos. A descrição da indumentária dos cenários faz o leitor caminhar lado a lado com o principal personagem. Por fim, fica o registro da coragem e a lição de seu longo reinado, fundado numa forte unidade política e religiosa, em nome da qual o imperador guerreou.
Entre outros méritos, a biografia é um dos trabalhos mais representativos do historiador francês Jean Favier, destacado pela competentíssima tradução de Luciano Vieira Machado, que soube ler com acuidade os muitos caminhos propostos para o desvendamento da vida e da obra desse que é considerado o fundador do império Sacro Romano, senhor da guerra e defensor da Igreja.
Não há em torno desse personagem, ou de sua memória, qualquer meio termo no que diz respeito a seu ímpeto guerreiro: Carlos Magno representou a fulguração de um ideal de conquista, levado a efeito de forma desbravadora e até despótica.
Sua visão de mundo o transformou ainda em vida, numa figura odiada e, ao mesmo tempo, venerada. Sua história, desde o nascimento por volta de 742, até a morte, no ano de 814, coberto pela pompa da consagração que lhe pesava sobre os ombros, fez com que o nome de Carlos Magno fosse não só um dos mais celebrados, mas também o que fornece, ao imaginário coletivo, aquela referência de algo que é sinônimo de conquista e perseverança para a luta.
A metodologia empregada por Jean Favier transforma o livro num passeio pela Idade Média. O autor direciona o olhar do leitor, dimensionando alguns dos aspectos mais relevantes da época, descritos habilmente, de forma a provocar aquele frisson que nos prende no cárcere dos capítulos subseqüentes até o alcance dos últimos parágrafos do livro, de onde sai com a sensação de maravilha ante a trajetória de uma vida tão intensa e apaixonante.
Pode-se dizer que é a visão do paraíso sob a névoa do inferno de Dante, pois, de um lado, está um Carlos Magno fraternal, amante dos filhos e da família, protetor dos amigos, filantropo ideal da igreja e do bem-estar dos papas, e de outro um Carlos Magno cruel, sanguinário, conquistador a qualquer preço de territórios e poder, de riquezas e de civilizações.
Em torno do homem Carlos Magno montou-se um culto personificado pelas gestas de Rolando e pela canonização, bem como pela publicação de inúmeras obras literárias e tratados de exaltação historiográfica, que ainda servem de referência ao estudo de sua vida. Napoleão Bonaparte, Lamartine e Vítor Hugo levaram a extremos a paixão que tal personagem tem provocado durante tantos séculos.
No contraponto de tudo isso, é compreensível que, além de um Michelet, que acusa Carlos Magno de ter proporcionado o ''estabelecimento de um mundo flutuante'', haja outros eruditos que tocaram na mesma tecla, negando-lhe o papel empreendedor, administrativo e político-religioso.
Mas não há como negar que em torno de Carlos Magno paira um universo paralelo de fatos e lendas. O livro de Jean Favier cumpre a missão de separar o joio do trigo, restabelecendo a história contida nos documentos capitulares, que versam sobre o interesse do imperador pela educação e pela paz. Foi Carlos Magno o pai da letra minúscula, da tentativa pioneira de se unir a educação religiosa com o ensino mais geral, como base para a formação plena do indivíduo.
É difícil, com isso, não redimensionar os feitos do seu reinado e não compreender a razão que leva até hoje muitos povos a evocarem sua memória.
Jean Favier, como historiador medievalista,
é desses estudiosos extremamente carismáticos, que tratam o tema
com o respeito do estudioso que tem responsabilidade e apreço pela verdade
e a coragem de descortinar temas tabus e controversos. Sua poderosa biografia
de Carlos Magno não foge à regra.