Caderno B, 17 de agosto de 2004


A filosofia moral de Derrida
No Rio, filósofo abre colóquio, lança livro e fala sobre perdão

Elizabeth Sucupira

Mesmo com os 74 anos recém-completados e com a saúde fraca, o filósofo argelino Jacques Derrida mostrou grande disposição, ontem, ao apresentar a palestra O perdão, a verdade, a reconciliação - Qual gênero?, na abertura do colóquio Pensar a desconstrução - Questões de política, ética e estética, dedicado a seu pensamento e que acontece no Teatro Maison de France até amanhã. Derrida falou ininterruptamente das 9h30 às 12h30 e retornou à tarde para duas outras palestras feitas por intelectuais brasileiros. Em sua apresentação, Derrida partiu de uma análise do processo de implantação da Constituição na África do Sul para discutir as possibilidades do perdão no mundo contemporâneo. A criação da lei foi movida por um princípio de reconciliação entre os povos negro e branco, que haviam ficado isolados pelo regime do apartheid por décadas. Derrida chamou atenção para um fato curioso na Constituição: ela tem um artigo em que pede a proteção de Deus, apesar de este ser considerado um dos textos mais modernos entre as leis magnas da atualidade.

- A reconciliação pode ser feita entre os homens e Deus, mas a verdade é que o tema da reconciliação, mesmo se feita por intermédio de Deus, tem sempre uma tendência a humanizar as coisas - disse Derrida, que mergulhou ainda em várias descrições feitas por Nelson Mandela sobre o processo de reconstrução de uma democracia humanitária na África do Sul.

Considerado um dos maiores filósofos vivos, Derrida é um dos últimos remanescente da geração de Michel Foucault e Gilles Deleuze. Argelino de nascimento (embora, na época de seu nascimento, a Argélia fosse uma colônia francesa), mas formado na França, o pensador tem desenvolvido um trabalho voltado para a filosofia moral e com flertes cada vez maiores com a psicanálise e o pensamento lacaniano. Seus trabalhos hoje são digressões sobre o perdão e as possibilidades de encontro entre diferentes povos e visões de mundo.

Esta é a terceira vez que o pensador vem ao Brasil. A primeira aconteceu em 1995. Na ocasião, Derrida apresentou uma palestra no Museu de Arte de São Paulo, a convite do consulado francês e da crítica literária Leyla Perrone-Moisés - que apresentou uma das palestras do colóquio ontem. A segunda vez aconteceu em 2001, no Rio, quando o filósofo falou, no Planetário da Gávea - após uma longa apresentação do psicanalista francês René Major sobre o filósofo - de generosidade para com o estranho e cobrou dos seres humanos menos álibis para evitar essa generosidade.

O colóquio tem sessões hoje e amanhã das 9h30 às 18h30, com três mesas por dia e participam dele nomes como Evandro Nascimento - organizador do evento e autor do livro Derrida (Jorge Zahar) -, o escritor Silviano Santiago e o psicanalista Eduardo Vidal. Encerra o evento uma palestra do filósofo francês Bernard Stiegler, diretor do Institut de Recherche et Coordination Acoustique/Musique (Ircam), de Paris.

Hoje, Derrida autografa, às 18h30, no 12º andar da Maison de France, seu livro mais recentemente traduzido para o português, Papel-máquina (Estação Liberdade).