Idéias, 13 de julho de 2004


"De certa forma, a literatura salvou minha vida
Pierre Michon representará a literatura francesa contemporânea na Flip

Elizabeth Sucupira

Escrita em linhas tortas, a vida de Pierre Michon se mescla às palavras de seus livros. Até o lançamento do primeiro deles, aos 39 anos, Michon sentia-se deslocado da sociedade, à margem ou "simplesmente fora dela". A literatura salvou sua vida, comentou emocionado, durante a entrevista ao JB. O único representante francês na Festa Literária Internacional de Parati falou sobre seu livro Vidas minúsculas (Estação Liberdade, 216 páginas, R$ 29), o segundo lançado no Brasil, e sobre "o paradoxo do escritor". Aos 59 anos, Michon é tido como um dos mais originais escritores da literatura francesa contemporânea, mas prefere se manter à margem, "porque convém".

Ao mesmo tempo, percebe que se tornou um autor do mainstream. O premiado autor de Rimbaud, o filho foi convidado para participar de um debate sobre narrativas inovadoras, na quinta-feira, com o escritor pernambucano Raimundo Carrero. Em comum, os dois autores optaram por morar fora dos grandes centros e radicalizar a escrita. O que nem sempre é sinônimo de hermetismo. Casado, pai de uma menina de 2 anos, Michon resume sua literatura a uma tentativa de trazer a vida cotidiana para os livros. Ele chegará ao Rio na véspera do debate. Será sua segunda viagem ao Brasil e o escritor francês está especialmente animado para conhecer o barroco brasileiro. Ele pretende viajar até Ouro Preto e Congonhas do Campo para ver as obras de Aleijadinho.

Você se modificou depois que começou a escrever? A literatura pode transformar uma pessoa?
Ah, sim! De certa forma, a literatura salvou minha vida. Principalmente porque eu estava socialmente perdido, deslocado, estava quase virando um "dessocializado". Eu não estava à margem, simplesmente não estava dentro da sociedade. A minha inserção na sociedade se deu através da escrita, quando me tornei escritor.

Talvez por causa da associação entra a literatura e a transformação, Pierre Michon consegue ser ao mesmo tempo o autor e o personagem de seus livros?
É claro que eu sou o personagem principal de todos os meus livros. Isso não só é possível como surge como algo inevitável, por exemplo, em Vidas minúsculas. E eu gosto de fazer isso, é o que sei fazer.

Quando você começou a escrever quais foram suas influências? No livro Vidas minúsculas, você fala de Foucault, Marie Curie, Rembrandt, Van Gogh e de outros nomes memoráveis. Nenhum escritor?
Comecei a escrever aos 12 anos e jamais pensei em fazer outra coisa que não fosse escrever. É difícil defender uma influência ou colocar uma intervenção como a mais importante. Por isso, sempre digo que escrevo há 40 anos sob a influência da literatura universal. Aliás, eu não era bom em nada a não ser na escrita, como diz Beckett. E acho até que demorei para perceber isso. Ao mesmo tempo em que me identifico com todas essas pessoas, tenho certeza de que não sou ninguém (como teria dito Borges).

Você é uma pessoa bastante reservada, à margem do burburinho do meio literário, que não gosta de multidões. Como então você enfrenta sua notoriedade e a maneira como sua vida é exposta, em livros como Vidas minúsculas?
Não posso dizer, absolutamente, que eu seja marginal. Hoje, eu já sou mainstream. É verdade que a gente demora para constatar isso, mas depois de um tempo essa condição vem para todo mundo. Com certeza, o Vidas minúsculas é o maior acontecimento da minha vida. É claro que a literatura que faço hoje é muito diferente daquela que fazia quando era jovem. Eu escrevia poemas muito ruins quando comecei. Em termos gerais, estar um pouco à margem da literatura tradicional me convém. Para outros, é conveniente estar no centro da literatura. Mas o fato é que todas as moscas que circulam no meio dessa tela central vão pegar alguma inspiração também nos cantos, nas bordas.

Você é considerado um mágico das palavras, um encantador de verbos. Como você vê a sua obra, principalmente agora, com a publicação de seu novo livro no Brasil?
Existe um conto de Rudyard Kipling que diz que, a partir do momento em que as coisas do mundo foram ganhando os nomes, aquele que ia dando os nomes às coisas - por exemplo, quando ele viu um elefante e disse, isto é um elefante - afirmava em seguida que tudo isso era uma "grande magia". Toda denominação é uma mágica. Eu acredito que Vidas minúsculas, livro que escrevi há 40 anos, traz minha observação do mundo. Mas traz, sobretudo, com a minha voz, como se eu fosse um cantor, eu diria.

A narrativa do livro Vidas minúsculas é simples e relata o cotidiano das pessoas. Você prefere uma linha simples?
Escolhi substituir a pretensão da forma rebuscada por uma escrita simples. Todas as linhas de improvisação são simples. Você poderia perguntar isso para John Coltrane. Eu continuo fazendo a mesma coisa desde que comecei a escrever. Tento trazer para a literatura as pequenas coisas que faço. Esse projeto ainda é muito parecido com o que tinha no início da minha carreira. É claro que a minha literatura não permanece a mesma desde os meus primeiros escritos, mas há sempre essa tentativa de incluir a vida simples, o cotidiano, nos textos.

Muitos autores franceses escreveram sobre Rimbaud. Qual a diferença do seu, expresso no livro Rimbaud, o filho, desses outros personagens literários?
Não acredito que haja uma diferença entre o meu Rimbaud e os outros Rimbauds escritos em francês. Falando assim parece que já existe uma diferença, o meu e os outros. Mas, não existe uma divergência. Tudo que é escrito sobre Rimbaud, na França, já é em si um gênero literário. Essa, na verdade, não é uma constatação minha. A minha postura é simplesmente a de confirmar essa tese.

Como você desenvolve o seu trabalho? Morar fora de Paris é uma opção para estar à margem ? Escrever é um ritual ou um trabalho?
É um ritual, porque acredito que, também no trabalho, existe o ritual. Eu escrevo à mão. Mas minha mão pode servir muito bem tanto para digitar no computador quanto para escrever com um lápis. Eu não moro em Paris por acaso. Eu vivi em Paris, mas hoje eu vivo no lugar onde estão meus amigos. Eu faço parecer que vivo à margem, mas ao mesmo tempo estou plenamente dentro. É um paradoxo. Mas a posição do escritor é sempre paradoxal.

Você vê a sua obra guiada pela razão ou pela emoção? E a literatura contemporânea francesa? É difícil para os novos escritores abrir espaço no mercado internacional?
A minha forma não prima pela emoção e nem a emoção prima pela forma, os dois andam juntos. Eu sou mais acadêmico. Um acadêmico sustentado pela emoção. Tenho a impressão de que a literatura francesa é pouco traduzida. Comigo, esse problema não é tão forte, mas percebo que isso acontece com freqüência nas pequenas editoras. O mercado americano, o mercado de língua inglesa, pegou a maior parte do comércio mundial de livros.

Você acredita que ainda há espaço e público para escrever sobre emoção e vida simples? Existe um custo financeiro para quem opta por uma literatura diferente do que é o convencional?
A vida não é nunca simples, no sentido de ser simplória ou banal. Acredito que haverá sempre espaço e público para escrever sobre a vida humana. Os verdadeiros escritores só o fazem depois que são homens. Por muito tempo a questão financeira foi muito complicada para mim. Mas não é mais. Depois de 10 anos, surgiram algumas bolsas para escritores na França. Sem dúvida, há um preço muito grande a ser pago por quem está à margem do convencional. Eu paguei esse preço durante 50 anos e hoje eu não pago mais. Acredito que, pouco a pouco, fui me transformando, mudando inclusive a forma de fazer literatura.

Você conhece a literatura brasileira?
Gosto muito e acredito que haja uma diversidade literária imensa no país. Machado de Assis talvez seja o autor que mais se aproxima da literatura francesa. Outro que gosto muito é Guimarães Rosa. Não conheço muito a literatura brasileira contemporânea. Com certeza, tanto no Brasil quanto na França ou em qualquer parte do mundo, os desejos humanos que sustentam a literatura são os mesmos. O Brasil tem um diferencial fascinante, porque há muitos espaços físicos, um grande terreno para as manifestações literárias. É uma diversidade que já não existe tanto na França, que se tornou um país muito velho, em muitos sentidos. Nós tivemos, sim, mudanças, transformações, eu diria até uma evolução da literatura francesa. Há muitas obras boas, que gosto muito, neste momento, na França. Há muitos escritores franceses contemporâneos pelos quais tenho grande admiração. Eu não disse grandes coisas, mas espero que tenha ajudado e até Paraty!