Caderno 2, 18 de janeiro de 2004


Em Armance, uma misteriosa tragédia de amor

Gilles Lapouge

PARIS - Stendhal tinha 44 anos quando publicou Armance. Foi seu primeiro romance, mas perfeitamente acabado. A obra apresenta dois pontos interessantes: em primeiro lugar, os temas dos grandes romances da maturidade de Stendhal (O Vermelho e o Negro e A Cartuxa de Parma), já estão aí esboçados: Armance retrata um desses personagens adolescentes que Stendhal aperfeiçoará com Julien Sorel e Fabrice. Além disso, o romance se situa no ambiente da "Restauração" (o reinado de Luís XVII - 1815-1824) que, depois das exaltações da epopéia napoleônica, explica o "mal-estar", o desencanto dos grandes romances de Stendhal. Nele encontramos finalmente uma destas desesperadas histórias de amor entre duas pessoas jovens, belas, ricas e meio tolas que aproximam Stendhal do romantismo, apesar de seu estilo cético e seco.

Mas Armance tem um segundo encanto, bastante diferente. Apresenta um traço original, que não se encontra nem em O Vermelho e o Negro, nem em A Cartuxa:

Toda a narrativa dos amores entre o jovem Octave de Malivert - um brilhante ex-aluno da Politécnica - e sua encantadora sobrinha, Armance de Zohiloff, é apresentada como um enigma: o sedutor Octave ama apaixonadamente a bela Armance. Mas por que, apesar da força de seu sentimento por Armance, Octave , está sempre adiando o momento de se comprometer a casar-se com ela?

Esta perpétua recusa da felicidade parece desafiar esta "lógica amorosa" à qual Stendhal dá tanto destaque e constitui, ao longo da história toda, um "suspense" bizarro e, além disso, jamais explicado no livro. O próprio Stendhal foi buscar a solução desse mistério numa carta a seu amigo e discípulo, Prosper Mérimée: Octave foi sempre impotente e então tudo fica bem claro. Esta é a explicação "lógica" dos adiamentos de Octave, dos impulsos amorosos que o atraem para a jovem e depois de suas fugas, desse "jogo de vaivém", desses entusiasmos e desses desânimos, etc. Podemos, portanto, perguntar se Octave não seria um retrato de Stendhal. É verdade que Stendhal conheceu aventuras múltiplas, complicadas e muitas vezes mal concluídas. Mas seus fracassos não comprovam uma "impotência". Na realidade, Stendhal, que é um homem de uma absoluta franqueza, sobretudo em seu Journal (Diário), jamais se apresenta como impotente. Ou então, se ele é impotente, o é de forma "intermitente", de vez em quando, seja porque uma mulher não é tão bela de noite quanto de dia, seja porque uma mulher é bela demais, etc. Em seu Diário, Stendhal anota todos esses episódios: "Nesta noite, fiasco", diz ele gentilmente... Em suma, Stendhal provavelmente experimentou essa "impotência" que pode acontecer com todos os homens. Mas pode ser que esse homem, excepcionalmente sensível, tenha talvez sonhado, nesses quartos e sobre esses leitos, repentinamente inúteis, absurdos e intermináveis, com a triste sorte de um homem sempre impotente: um "suplício de Tântalo", um pequeno inferno.

Para o leitor, o lucro é líquido. O pudico recato de uma época rançosa, que logo irá condenar Flaubert e Baudelaire perante os tribunais, teve o mérito de obrigar Stendhal a forjar para si maneiras encobertas de contar essa história. Esse véu, esses disfarces, essas gazes lançadas sobre o infortúnio do belo Octave ressaltam ainda mais as belezas do romance.