Caderno 2, 10 de maio de 2004


A fala nordestina

Matthew Shirts

Houve um momento na minha vida em que concluí que jamais conseguiria aprender o português e era melhor parar de tentar. Por que gastar tanta energia se eu era burro simplesmente, incapaz de entender o que se dizia ao meu redor e, portanto, sem meios para acumular conhecimento oral.

Isto foi em 1976. Vinha vivendo em Dourados, no Mato Grosso (do Sul), havia já alguns meses, como estudante de intercâmbio, onde fazia o terceiro colegial científico no colégio Imaculada Conceição.

Dourados ainda não era a cidade pujante que é hoje, mas não faltavam festas de todos os tipos - aniversários, churrascos nababescos, casamentos, carnaval, bailes dançantes no clube Indaiá, reuniões nos barzinhos.

Em todas elas eu era acompanhado por Giorgio Fedrizzi, então com 16 anos, que fora encarregado da minha segurança e integração social pela sua divertida e maravilhosa família. Giorgio falava pouco inglês na época, mas levava sempre que saía comigo um dicionário Michaelis portátil, sem capa, que escondia na meia. Quando, durante as festas, o meu olhar começava a denunciar melancolia ou pânico, ele tirava o dicionário da meia e puxava conversa comigo. Pena que não tenho nenhuma gravação dessas nossas conversas claudicantes; adoraria reproduzi-las. O pouco que lembro delas é hilariante. Giorgio deve ter me mandado passear diversas vezes, sem que eu o percebesse.

É desesperador ser colocado em uma situação social sem falar o idioma local.

Todos ali em Dourados riam, contavam piadas, bebiam e se paqueravam e o melhor que eu conseguia propor era que alguém me desse uma aula de gramática portuguesa ou me ensinasse a pronunciar "Antártica". Se tivesse tido alguma festa no Instituto Berlitz, talvez eu me saísse melhor, quem sabe com alguma professorinha de português?, mas nas baladas douradenses era dureza, apesar dos heróicos esforços lingüísticos do Giorgio.

Não sei bem como, mas nove meses e duas namoradas mais tarde, comecei a me virar na língua de Camões. Bom, qualquer referência a Camões talvez seja um exagero nesse contexto. Mas ao menos deixara de empregar a frase "bater polenta" como sinônimo de masturbação.

O meu ano em Dourados, riquíssimo sob tantos aspectos, me fez querer estudar o português direito. Não queria nunca mais sofrer aquela sensação aguda de bobeira. Pode-se dizer, até, que passei as décadas subseqüentes basicamente fazendo isso, estudando português, e, hoje, me gabo de conhecer bem a gramática e o vocabulário do Brasil, pelo menos a nível de gringo.

Mas descobri na semana passada, ao ganhar o Dicionário do Nordeste de Fred Navarro (Estação Liberdade, 2004), que existe toda uma região da língua falada no Brasil que ainda não me é familiar. Senti-me novamente um alienígena ao iniciar a leitura deste livro fascinante. Ele traz 5 mil palavras e expressões, quatro mil e quinhentas das quais eu desconhecia completamente.

Você sabia, por acaso, que no Nordeste "almoçado" designa um perito em dado assunto? "No dominó ele é almoçado", exemplifica o autor. Ou que apalazar é o mesmo que costurar? Ou que em Pernambuco e no Piauí "arenga-de-mulher" é um tipo de chuva "fraca mas insistente, que não pára"? Acho que não. Mais curiosa ainda é a palavra astronauta, que no resto do País significa, bem, astronauta, mas que no sertão nordestino é sinônimo de jumento ou burro. Não consigo imaginar como isso se deu. O que poderia ter levado os sertanejos a começar a chamar os seus jumentos de astronautas? Quando aconteceu isso? Alguém me explica? Cartas para mshirts@terra.com.br. Fico imaginando o sitiante falando para a mulher: vou dar uma cenoura para o astronauta e já volto. Não parece um diálogo de outro planeta?

Confesso que não terminei de ler todas as verbetes (estou no "M"), mas já me sinto habilitado a recomendar vivamente esta pequena obra-prima. Você sabia, por exemplo, que no Nordeste o adjetivo "moderno" significa "pessoa sossegada, calma, tranqüila"? De onde será que tiraram isso? No fim do Dicionário há ainda um resumo de referências cruzadas onde se aprende que há 107 palavras diferentes para "bunda" ou ânus no Nordeste. Uma delas é "fevereiro". Juro.

Amo o Nordeste de paixão, mas não tenha dúvidas, a próxima vez que eu for, vou levar esse dicionário comigo na meia. Não quero marcar bobeira.