Caderno 2, 23 de maio de 2004


As fábulas de La Fontaine nas cores de Chagall
Livro é lançado pela Estação Liberdade, com tradução inédita de Mário Laranjeira

Maria Hirszman

Um belo encontro entre La Fontaine e Marc Chagall, temperado por testemunhos da crítica de época e por uma interessante narrativa sobre as desventuras e destinos de um ambicioso projeto idealizado por Amboise Vollard, está ao alcance do público brasileiro, graças à edição do catálogo da exposição Chagall: Conhecido e Desconhecido, realizada em 2003 no Grand Palais de Paris.

O que primeiro se destaca nesta obra, assinada conjuntamente por Chagall e La Fontaine (apesar de o pintor russo ter realizado essas ilustrações quase três séculos depois de terem sido escritas), é a capacidade chagalliana de apropriar-se do universo das fábulas de La Fontaine, recriando-as de forma absolutamente particular e ao mesmo tempo reforçando seu caráter universal e atemporal.

Em declaração na qual explica por que elegeu Chagall para essa ambiciosa tarefa (que acabou um pouco desvirtuada com a impossibilidade de usar os guaches, o que obrigou o artista a recriá-las em gravuras em água-forte), Vollard responde que a estética de ambos lhe parece bastante próxima.

Segundo ele, esse parentesco residiria numa espécie de poética comum, "ao mesmo tempo densa e sutil, realista e fantástica". Encantamento é um dos termos mais usados pela crítica da época para definir a visão chagalliana das fábulas.

Mas não faltaram também críticas ácidas a esse trabalho. Alguns consideraram um erro entregar a Chagall a tarefa de dar forma ao trabalho moral do grande francês, acusando-o de usá-lo apenas como pretexto, de "desnaturalizá-lo à moda russa". Aí entramos na segunda camada de leitura do livro: a interessante narrativa histórica da saga desse trabalho.

Realizadas em 1926 e 1927, os guaches de Chagall foram exibidos apenas em 1930, com grande destaque. Depois, dispersaram-se pelo mundo, dando razão a Marcel Schmitz, que na época disse tratar-se de um evento único. "Quem quiser vê-las terá de ir procurá-las de porta em porta", acrescentou. Nem assim isso é possível, já que o paradeiro de 30 dessas obras é totalmente desconhecido. E as exposições contemporâneas, que resgataram esse encontro histórico, exibiram apenas 43 obras. Número equivalente ao do catálogo ora editado no Brasil, que tem como grande ponto fraco o projeto gráfico da capa.

Mesmo assim, podemos ver a diversidade de técnicas e abordagens utilizadas.

A cor é um dos recursos mais explorados por ele (com destaque para o azul).

Ora faz uma leitura mais literal, ora se apóia em determinado aspecto - moral ou narrativo - do texto. "Chagall leva ao extremo um dos fundamentos da retórica de La Fontaine: o confronto entre a força brutal do infinitamente grande e a fragilidade do minúsculo, nem mesmo representando o infinitamente pequeno", escreve o curador da exposição Didier Schulmann, usando como exemplo o guache que ilustra O Leão e o Mosquito.

É de uma força exemplar a figura da raposa que olha as uvas quase morta de fome sem poder tocá-las. Sua gata (de A Gata Metamorfoseada em Mulher) senta-se, parada, com corpo de senhora e um triste rosto felino, sintetizando mais do que ilustrando a lição que La Fontaine resume numa única frase: "É vão tentar demover alguém do que é habitual."

Uma terceira e não menos importante dimensão dessa edição de Fábulas de La Fontaine (Estação Liberdade, R$ 39, 144 págs.) é a nova tradução de Mário Laranjeira. Árduo defensor da manutenção da homologia formal em traduções, ele - que considera um engano julgar La Fontaine literatura infantil - preservou métricas, rimas e outras características das fábulas, dando ao leitor brasileiro uma nova oportunidade de conhecer uma das grandes obras da literatura universal.