29 de novembro de 2004

Obra de Kawabata volta às livrarias
Dois livros do escritor japonês, premiado com o Nobel, abrem a série dedicada a ele pela Estação Liberdade

por Antonio Gonçalves Filho

A citação de um trecho de A Casa das Belas Adormecidas, de Kawabata, no novo livro de Gabriel García Márquez, Memoria de Mis Putas Tristes, deve ajudar a difusão da obra do escritor japonês, Nobel de Literatura, como o colombiano. A série de Kawabata, que já tem quatro títulos comprados, começa a ser publicada pela editora Estação Liberdade justamente com o livro adotado como referência por Márquez. Traduzido diretamente do japonês (por Meiko Shimon), A Casa das Belas Adormecidas (120 págs., R$ 27) chega hoje às livrarias junto à obra-prima de Yasunari Kawabata, O País das Neves.

Segundo o diretor editorial da Estação Liberdade, Angel Bojadsen, além desses títulos serão publicados outros dois em 2005. São eles Kyoto ou A Velha Capital e Mil Tsurus, o primeiro sobre o processo de ocidentalização do Japão e o último sobre antigas tradições japonesas, entre elas a cerimônia do chá. Kawabata, um conservador, como seu amigo Mishima, era um poço de contradições. Ao receber o Nobel, em 1968, condenou com veemência o suicídio, mas se matou (como Mishima) quatro anos depois, por não suportar a doença que o levou à depressão.

Melancólico, Kawabata identificava-se com Mishima em muitos aspectos. Nenhum dos dois teve uma infância feliz. Enquanto o primeiro, criado pela avó, reprimiu sua homossexualidade e formou um exército particular para defender o imperador e os valores tradicionais do Japão, Kawabata, órfão aos três anos, jamais conseguiu se recuperar do sentimento de perda provocado pelas sucessivas mortes em família. Fatos inspirados em sua vida aparecem camuflados em grande parte de seus livros, a exemplo dos relatos autobiográficos de García Márquez — e Memoria de Mis Putas Tristes não é exatamente uma exceção.

Se Márquez faz do bordel uma confessionário, Kawabata o transforma num templo, como em A Casa das Belas Adormecidas. No prefácio que Mishima escreveu para o livro (não incluído na edição brasileira), o escritor o define como uma perturbadora reflexão sobre "o terror da luxúria no prelúdio da morte". De fato, Kawabata escreve sobre a impossível relação amorosa entre um ancião e as jovens de um estranho bordel. Nele, as garotas não podem ser violadas, apenas contempladas. Dormir ao lado dessas criaturas dopadas (as meninas dormem sob efeito de narcóticos) é a única compensação para a senilidade de Eguchi, em busca do tempo e dos prazeres perdidos da juventude.

O livro começa com a dona da "hospedaria" recomendando a Eguchi que não enfie o dedo na boca da menina adormecida ou faça qualquer outro gesto obsceno. Kawabata constrói uma narrativa circular. Dá voltas e termina na fronteira entre o profundo sono da garota e uma morte. O que era uma possibilidade de amor (a vida, a juventude) se desfaz com a proximidade do fim. Kawabata costumava definir essa identificação entre paixão senil e morte como a tragédia inconsolável de um amnésico tentando conjurar fantasmas do passado.

Um parente literário de Kawabata no Ocidente bem poderia ser o austríaco Arthur Schnitzler, que, em Breve Romance de Sonho contrapõe igualmente o impulso erótico à morte, jogando seu protagonista numa situação limite, como Kawabata no epílogo de A Casa das Belas Adormecidas.

O País da Neves (tradução de Neide Hissae Nagae, 160 págs., R$ 29) acentua ainda mais essa proximidade com Schnitzler. Nele, a relação entre o rico Shimamura, a gueixa Komako e a jovem Yoko é mais lírica, mas não menos trágica. Kawabata começou a escrever o livro em 1937, mas só o concluiu dez anos depois. A fantasmagoria do protagonista do romance de Schnitzler (que deu origem ao filme De Olhos Bem Fechados, o último de Kubrirck) é um tanto semelhante ao delírio do esteta Shimamura de O País da Neves, que vê o objeto de seu desejo como uma projeção, um reflexo no espelho, como a gueixa Yoko. Daí para o cinema foi um pulo. O livro foi filmado por Shiro Toyoda em 1957.

Em Kawabata, os personagens masculinos são quase sempre eclipsados pela presença da mulher. Shimamura, o esteta, é bem menos real aos olhos do leitor que a aprendiz de gueixa, que vê esporadicamente em suas incursões pelo mundo bucólico das montanhas, fugindo de um casamento frustrado e de uma Tóquio já descaracterizada. Shimamura é incapaz de ter uma relação real com as mulheres. Nele, tudo é idealizado (como o protagonista da novela de Schnitzler).

Já as mulheres de Kawabata são tão concretas que até mesmo a gueixa Komako — ele admitia — foi inspirada num modelo real, mas o escritor, como de costume, deixa bastante espaço para a imaginação do leitor. Kawabata, nascido numa família próspera e culta de Osaka, começou a estudar literatura aos 21 anos e publicou sua primeira novela cinco anos depois. Quase sempre tratou da incapacidade do homem de amar, mesmo desejando as mulheres. Paradoxo incontornável.