Caderno 2, 11 de julho de 2004


Carlos Magno, um imperador que queria a paz
O historiador Jean Favier aborda lenda e história para apresentar o personagem

Elias Thomé Saliba

Temos memórias diferentes, mas a mesma convicção: queremos paz. A frase do chanceler da Alemanha, Gerhard Schroeder, nas recentes comemorações dos 60 anos do Dia D -, pode ter sido mais um jogo de cena, mas não deixou de ser também a evocação de toda uma fila daqueles líderes ancestrais que, no passado, próximo ou longínquo, sonharam com uma Europa unificada. O primeiro lugar na fila de alguns desses líderes - os verdadeiros "pais da Europa" -, nos quais a convicção anulou as diferenças passadas, sem dúvida, caberia a Carlos Magno, o rei franco coroado imperador romano há 13 séculos - cuja trajetória é revista e rigorosamente esmiuçada pelo historiador Jean Favier em Carlos Magno, com tradução de Luciano Vieira Machado (Estação Liberdade, 720 págs., R$ 64). Mas não se trata apenas de mais uma biografia, embora contenha alguns lances mais atraentes do gênero, como a história matrimonial de Carlos Magno, suas cinco mulheres, e os detalhes cruéis de muitas de suas desditas e desventuras familiares. É o cenário de fundo que predomina, o que só favorece uma melhor compreensão do personagem que inspirou toda uma época e que, afinal, batizou de "carolíngio" a todo um ciclo da história medieval. As fontes utilizadas e a inigualável erudição de Favier sobre o tema impressionam - e embora, não alcance a sofisticação das recentes pesquisas que, através de DNA, identificaram o coração de Luis XVII, o rei menino - a síntese biográfica apóia-se em extensa documentação mais recente, incluindo sondagens arqueológicas.

No imenso painel montado por Favier, o leitor pode reencontrar sucessivamente, tanto o Carlos Magno da história quanto o da lenda, tanto o personagem que emerge dos documentos e registros tangíveis quanto o que surge das invenções e memórias sociais. E esta alternância entre a história e a memória já começa, poucos anos depois de sua morte, quando o célebre Eginhard, secretário e amigo do imperador, inspirando-se nas Vidas dos 12 Césares de Suetônio, escreve, no ano de 830, a sua primeira biografia.

Dependendo da forma como eram traduzidas, inscrições fúnebres e epitáfios já traziam uma ambigüidade: "Carlos, o Grande, imperador?" ou "Carlos, grande imperador". Como sempre costuma ocorrer na história, a partir daí começa uma inevitável empresa de anexação de sua memória. Carlos, só seria "Magno" na posteridade. Os franceses passam a reivindicá-lo diretamente, incentivando o esquecimento das origens germânicas do imperador: séculos de disputa pelas relíquias localizadas na capital medieval do mundo carolíngio em Aix-la-Chapelle - atual Aachen - mostram como a lenda se revelou muito mais forte do que a história real: em algumas épocas mais fervorosas da história francesa, o relicário estilizado em forma de busto (feito para guardar pedaços do crânio do imperador) chegou a ser obrigatoriamente colocado ao lado das relíquias de Joana d'Arc. Mas Carlos Magno continua a ser um personagem-chave na memória da identidade nacional tanto dos alemães quanto dos franceses.

Entre outras coisas fascinantes, o livro refaz esse caprichoso caminho da memória carolíngia, ao longo de toda a história européia. Napoleão, inspirando-se em Carlos Magno, em vez do título de "rei" adotou o título de "imperador", num golpe habilidoso: a "nova França revolucionária sacudiu o jugo dos reis, mas não dos imperadores" - teria dito o manhoso Bonaparte.

Quando sobe a maré da germanofobia, a partir de 1871, os franceses não hesitam em modernizar Carlos Magno: representam-no ao lado da figura feminina Marianne, símbolo da república francesa, em meio a um festival de bandeiras tricolores. Como o imperador conquistou a Baviera e a Saxônia, é descrito, sem pudor, como "o francês que venceu os alemães". Todas estas deformações e apropriações da lenda carolíngia são descritas com precisão pelo autor, que não se furta a ironizar as imposturas e as falsificações.

Na longa duração, parece que o Carlos Magno da história real é suplantado pelo personagem da Canção de Rolando. Nesse aspecto, Favier mostra-se surpreendentemente equilibrado, não escondendo nenhum dos equívocos produzidos por tal anexação da memória lendária do personagem. O passado recordado é cheio de equívocos: não é uma cadeia temporal consecutiva, mas um conjunto de momentos descontínuos içados da corrente do tempo. Como a lenda é sempre tributária das imagens que sobrevivem e das mentalidades dos seus destinatários, ela desfigura imediatamente o seu herói. Carlos Magno teria passado a vida a construir a paz, a sonhar com a concórdia e a promover a unanimidade, mas a imagem que se impõe, tanto para franceses como para os alemães, é a do guerreiro. Permanece a memória do combate pela fé, do império do povo cristão, do exército de Cristo - presente nos vários ensaios de canonização e recuperação das relíquias. A grande preocupação do imperador foi a paz, mas a lenda só guardou a memória do guerreiro e do vencedor, deixando na sombra a imagem do administrador e do organizador, aquele que incrementou a educação, através das escolas palacianas, ou que instituiu um sistema monetário avançado, pelo menos para os padrões da época.

Em 1949, a cidade de Aachen criou o Prêmio Internacional Carlos Magno, concedido anualmente a uma personalidade que tenha contribuído para o entendimento e a cooperação na Europa. Em 1999 se acrescentou outro prêmio a esse, com o nome de Eginhardo - o primeiro biógrafo do personagem - atribuído por um júri internacional e também relacionado à unificação européia. Sinais positivos. Teria a Europa finalmente aprendido que a crença na paz é superior às diferenças da memória? O reencontro com o fascinante universo carolíngio revela que a resposta é menos difícil do que parece.