Caderno 2, 15 de agosto de 2004


Derrida abre encontro no Rio e lança dois livros
Uma das obras do filósofo argelino fala das conseqüências do 11 de setembro

Antonio Gonçalves Filho

A presença do filósofo Jacques Derrida na abertura do Colóquio Internacional que leva seu nome, amanhã, no Teatro da Maison France, no Rio, agitou o mundo editorial. Dois livros são simultaneamente lançados esta semana com a assinatura do pensador argelino da "desconstrução". O primeiro, Filosofia em Tempo de Terror (Jorge Zahar Editor, 220 págs., R$ 34,50), organizado pela professora de filosofia Giovanna Borradori, reúne Derrida e o filósofo alemão Jürgen Habermas numa conversa sobre as conseqüências dos atentados do 11 de setembro. O outro livro, Papel-Máquina (Editora Estação Liberdade, 360 págs., R$ 44) também fala de geopolítica, mas seus dois ensaios longos - além de uma coletânea de artigos para jornais, conferências e cartas - tratam basicamente da relação do texto com o advento das novas tecnologias.

Filosofia em Tempo de Terror é mais acessível ao leitor pouco familiarizado com o universo de Derrida, que, em Papel-Máquina, desconstrói e remonta poemas dos protomodernos franceses, revisita a filosofia de Rousseau e presta reverência ao politizado pensamento de Sartre. Na trilha do pensador existencialista, o filósofo pós-estruturalista fala do próprio engajamento em causas sociais - a militância contra o apartheid africano e a pena de morte nos EUA -, reafirmando sua crença de que o papel, ainda que por mais um tempo, continuará tendo força de lei. Derrida, para quem não sabe, é um entusiasta da caneta. Torce o nariz para o poder revisor do computador, que não deixa cicatrizes na operação textual.

Derrida pode parecer conservador em se tratando de novas mídias, mas troca de papel com Habermas em Filosofia em Tempo de Terror. O filósofo alemão, conhecido como criador da teoria da ação comunicativa, é um dos defensores do projeto moderno - que não se esgotou, como querem os pós-modernos. Derrida, do outro lado do palco filosófico, dirige o público por caminho diferente. Diz que a realidade não cabe em discursos retóricos, invariavelmente reducionistas. Habermas é a cabeça que contrapõe o materialismo laico do Ocidente ao arcaísmo religioso do Oriente. Derrida, por seu turno, afasta o holofote iluminista e, fora de foco, ataca a lógica ocidental de dominação, propondo uma revisão nesse circo cultural.

Enquanto Habermas repisa a tese que opõe o fundamentalismo religioso à crença ocidental no progresso e na tecnologia, Derrida defende simplesmente a desconstrução da religião como estratégia e propõe a criação de uma plataforma de reconhecimento mútuo que impeça o confronto final entre as três grandes religiões de tradição monoteísta (judaísmo, cristianismo e islamismo). A globalização, argumenta o filósofo francês, deve vir acompanhada no menu de uma nova política social global e de programas que diminuam as diferenças - também culturais - entre muito ricos e marginalizados. Nisso, está de acordo com Habermas, embora o último rejeite a desconstrução da noção de tolerância proposta por Derrida. Segundo o alemão, esse conceito cai numa armadilha. Numa sociedade democrática, inexiste a fronteira entre o que deve ou não ser tolerado. Tolerância, conclui, é puro paternalismo.

Um ponto em que ambos estão de acordo é o da necessidade de mudanças na lei internacional clássica que ainda garante a existência do Estado-modelo, esse sim o verdadeiro responsável pelos ataques terroristas, segundo Derrida. De qualquer modo, numa situação binária, se tivesse de escolher entre uma lei universal da coalização antiterrorista e a pregação justiceira dos terroristas, o desconstrucionista Derrida ficaria do lado da democracia. Acontece que os políticos e os diplomatas nunca ouvem os filósofos. Talvez por isso existam tantos terroristas.