Caderno 2, 10 de outubro de 2005

Derrida, para entender este mundo
Pensar a Desconstrução, organizado por Evando Nascimento, será lançado hoje em São Paulo com debate

Beatriz Coelho Silva

A última viagem do filósofo francês Jacques Derrida, antes de morrer há cerca de um ano, foi para o Rio, onde participou de um seminário sobre sua obra. Ele explicou que, mesmo doente, não poderia perder a oportunidade de visitar um país onde a discussão filosófica e política atraía tanto público. Por isso, os consulados franceses do Rio e de São Paulo promovem hoje, amanhã e depois o debate Jacques Derrida: Pensar a Desconstrução, para lançar o livro do mesmo nome, organizado por Evando Nascimento. Em São Paulo , será hoje, no Centro Universitário Maria Antônia. Amanhã, no Teatro Maison de France, no Rio e, quarta-feira, em Juiz de Fora no campus da Cidade Universitária.

"Essa visita de Derrida foi importante intelectual e emocionalmente porque, embora debilitado, ele encontrou um vigor enorme para participar de toda a programação e não se poupava nos encontros. Além disso, as questões das quais ele falava na época, continuam atuais", explica o adido cultural do consulado francês, Jean-Paul Lefèvre. "A reconciliação é uma necessidade urgente no mundo e o próprio Brasil, nesse momento de crise política está se analisando, desconstruindo para reencontrar seu caminho."

Derrida visitou o Brasil três vezes, mas só duas esteve no Rio, em 2001 e 2003, e aqui foi recebido como um pop star. Afável, só reclamou, meio a sério, meio brincando, que todos queriam saber suas posições políticas, enquanto ele preferia falar de literatura e filosofia, suas especialidades. "Talvez porque ele não era um intelectual fechado na academia. Seu pensamento era voltado para entender o mundo que nos cerca e encontrar um modo de conviver com os conflitos", arrisca Lefèvre. "Mas esse interesse pelo debate intelectual, mesmo fora do meio acadêmico, é particular no Brasil, pois a biógrafa Annie Cohen-Solal, que esteve aqui recentemente, também se surpreendeu com essa disposição dos brasileiros."

No caso de Derrida, as questões levantadas em seus últimos trabalhos, Papel-Máquina, seu derradeiro livro, Filosofia em Tempo de Terror - Diálogo com Habernas e Derrida (fruto de longa entrevista com a filósofa Giovana Borradorri) e Derrida (de Evando Nascimento, para a coleção Passo a Passo, da Zahar), iam na contramão do noticiário da época, pois ele se recusava até a chamar o atentado de 11 de setembro de 2001 de ato terrorista. "Quem se coloca contra a ordem estabelecida, como os rebeldes da Argélia e mesmo os palestinos (da época) foram chamados de terroristas e depois, reabilitados", disse ele na ocasião. "Só que Bin Laden e seu grupo não querem criar ou restabelecer um Estado-Nação. Portanto, não são terroristas."

Para Lefèvre, essas questões estão cada vez mais atuais e o método de Derrida para examiná-las ainda é válido. "A desconstrução não é demolição, é refletir sobre o processo e levar a crítica aos mínimos detalhes", comenta o adido. "Essa forma de reflexão nos ajuda a viver momentos tão fortes quanto os que atravessamos agora."

R. Maria Antonia, 294, 3237-1815. Hoje, a partir das 19h, com a conferência de Michel Lisse Jacques Derrida: Pensar a Desnconstrução. Vários autores. Organização, Evando Nascimento. Editora Estação Liberdade. 352 páginas, R$ 46. Centro Universitário Maria Antonia