
A passagem do escritor francês Pierre Michon pelo Brasil, durante a segunda edição da Festa Literária Internacional de Paraty, no início deste mês, deixou saudades dessa figura que se movia pela cidade praiana como o barco bêbado de Rimbaud, sobre quem, aliás, escreveu um livro. Autor do recém-lançado Vidas Minúsculas (Estação Liberdade, tradução de Mário Laranjeira, 216 págs., R$ 29), Michon fez da bebida seu entorpecente.
Embriaguez é a sua palavra mais querida. Cada bebedeira, segundo o próprio, é como um "ensaio geral" para a "retomada das formas decaídas da Graça". Em resumo: as iluminações de Michon tanto podem vir da palavra como de uma dose de caipirinha. Desnecessário dizer que o Michon escritor é mais agradável que o embriagado. É sobre o primeiro que ele falou com o Estado em Paraty.
Os esquecidos
Dividido em oito capítulos, Vidas Minúsculas resgata a existência de condenados ao limbo provinciano - antepassados, parentes, conhecidos e colegas de escola de Michon. Por meio da palavra ele transforma essas vidas microscópicas, ressuscitando homens e mulheres enterrados na cova da memória. O parente literário mais próximo que se pode lembrar é o memorialista mineiro Pedro Nava. Ao dar nome a anônimos soterrados num mundo camponês, ancestral, Michon retoma o caminho adâmico ao paraíso, tornando o leitor testemunha desse batismo inaudito pelo Verbo.
Nestes tempos em que a palavra está tão rota e desacreditada, esse papel, mais que uma atividade de escritor embriagado, parece uma tarefa anacrônica como cerzir meias, mas essencial num meio de miséria sintática.
Grande sertão
O nome de Michon não é desconhecido do leitor brasileiro. Antes de Vidas Minúsculas, seu primeiro livro, lançado na França em 1984, a editora Sulina publicou Rimbaud, o Filho (2000). Desde sua estréia francesa, ele acumulou prêmios importantes (o France Culture de 1984 e o Ville de Paris, em 1996), mas não se deixou aprisionar por nenhum editor. Diz que escreve quando quer e no ritmo que a natureza manda, caçando palavras no ar. Camponeses, diz ele, não têm acesso ao mundo verbal. "Sou do 'sertão' francês e a literatura me salvou." Não é uma frase de efeito. Sua inclusão no meio social deve-se à literatura.
Aos 59 anos, Michon encara a escrita como um ritual, exatamente como o artista alemão Joseph Beuys, que acreditava ser possível esculpir com as palavras, construir um mundo resistente à visualização superficial e mundana. Quando escreve, o autor de Vidas Minúsculas transforma o mundo camponês, expande seu território como Guimarães Rosa fez com o sertão - daí a brincadeira que ele faz com a palavra "sertão" em sua entrevista. Apesar da discreta referência a textos alheios em seu livro de estréia - especialmente Faulkner - Michon desfaz qualquer proximidade com o escritor americano.
Mitologia pessoal
Faulkner é o antípoda, observa. Está certo, Faulkner nasceu no campo, como ele, mas não foi camponês, e sim o filho de um coronel. Vidas Minúsculas, repisa, não foi escrito para glorificar o passado francês ou como uma declaração de amor aos habitantes do vilarejo de Cards, no centro da França, onde nasceu. Michon, ao mesmo tempo em que renomeia os esquecidos, queima suas raízes.
"Escrever é uma tarefa penosa, faz parte de uma mitologia pessoal", diz, revelando que ficou quase três anos - de 1998 a 2000 - sem redigir um só texto. Colocar palavras no papel, segundo Michon, é como servir de intérprete: o risco de traição torna-se iminente. Em Vidas Minúsculas, o escritor empresta sua voz a um abade que parece emergir de Bernanos, a uma psicanalista e a um camponês analfabeto, entre outros personagens. Mas é preciso estar embriagado ou com uma vontade de potência tão grande quanto a do Criador para ressuscitar pela escrita criaturas socialmente invisíveis.
"É como dar à luz a si mesmo, a uma beleza que o choque social matou", compara.
As referências bíblicas não são poucas nesse livro maravilhoso. Michon usa com freqüência a palavra "conversão" associada a outra igualmente repetida, "garrafa". Todos esperam que ele, como criador, seja lúcido, mas Michon só escreve quando embriagado pelas palavras. Para Faulkner, observa, o álcool era o "nigredo" alquímico, aquele estado de torpor em que os elementos ainda estão interagindo para formar algo indistinto. Para Michon, ele não tem essa negatividade demoníaca. A literatura é sua salvação, sua "possibilidade de estar vivo", de não "estar morto ou mergulhado num estado de mendicância".
Oráculo - E o medo de a fonte secar? E se o poder oracular da palavra falhar? Michon diz não ter medo do futuro. "Se secar, secou." Ele escreveu sobre Rimbaud justamente porque o poeta teve coragem de abandonar a literatura ao descobrir que nada mais tinha a dizer ao mundo.
Isso numa idade em que mal se começa a definir uma vocação (Rimbaud parou de escrever ao atingir a maioridade e foi traficar armas na África). O autor de Vidas Minúsculas recusa-se a transformar sua escritura em atividade rotineira, funcional. Inspira-se no silêncio de Rimbaud para não ver o milagre da palavra virar "métier".
Michon, a exemplo de André Gide e Proust, tem com a palavra uma ligação religiosa. Na entrevista, os nomes desses escritores são lembrados ao lado do português Fernando Pessoa e Mallarmé. Todos eles escreveram acreditando que a palavra é como o ouro, incorruptível. Michon segue essa tradição.