
Cuidado com a "sina dos potes quebrados": "Juntemo-nos com quem conosco se parece, / Ou estaremos ameaçados/ Com a sina dos potes quebrados", concluiu Jean de La Fontaine no fim do poema O pote de barro e o pote de ferro. Na fábula, o pote de barro, que temia sair de perto do fogo, acaba sendo iludido por seu colega de ferro a dar um passeio e, "mal dera uns passos/ Que por seu companheiro era feito em pedaços,/ Sem que nem se queixar pudesse". Para os críticos de 1930, o gênio de La Fontaine estava ameaçado por essa "sina", diante do "pote de ferro" das cores ultravibrantes dos cem guaches feitos pelo russo Marc Chagall para ilustrar as histórias do fabulista francês do século XVII. Segundo a visão preconceituosa da época, Chagall seria "o contrário de um clássico" e, portanto, o contrário do universal La Fontaine. Por isso, contra-indicado para ilustrar as histórias do "mais cartesiano e o mais lúcido dos poetas".
"Ele sacrifica tudo à mancha", disse um dos críticos, que o acusava de não dar conta das idéias transmitidas. A pedido do marchand Ambroise Vollard, Chagall começara sua série em 1926. Trabalhava enquanto sua mulher, Bella, lia os poemas em voz alta. Na parte da moral, ele costumava interrompê-la: "Isso não é para mim", dizia. Menos moralistas e mais sonhadoras, as pinturas de Chagall foram expostas em 1930 numa prestigiada galeria parisiense e, naquele mesmo ano, a série foi levada a Bruxelas e Berlim. Todos os guaches acabaram sendo vendidos e, dispersos, ficaram esquecidos, considerados obras perdidas do pintor de telas como "O violinista", "A vaca amarela" e "Eu e a aldeia" e que anos depois viria a ilustrar a Bíblia.
Só na década passada, por ocasião, em 1995, dos dez anos da morte de Chagall e do tricentenário de La Fontaine, fez-se um esforço para novamente reunir os guaches. Parte do que foi encontrado está sendo apresentada agora aos brasileiros pela editora Estação Liberdade, que lançou Fábulas de La Fontaine (144 pgs, R$ 39, tradução de Mário Laranjeiras), com a reprodução de 43 dos cem polêmicos trabalhos de Chagall. Até hoje a série surpreende com lampejos insólitos. Em A gata metamorfoseada em mulher - "É vão tentar demover/ Alguém do que é habitual. / Tudo que se possa fazer / Não mudará seu natural", afirma La Fontaine - Chagall, por exemplo, criou uma mulher-gata melancólica, como que entediada de sua natureza da qual nunca conseguirá fugir, por mais longe que almeje. No poema, a personagem não tem essa dimensão metafísica.
"O senhor Marc Chagall penou em penosas e exageradas concepções. Não estava preparado por seu temperamento a empreender tão fina e delicada tarefa", sentenciou o crítico do "Figaro" em fevereiro de 1930. Chagall foi acusado de desnaturar La Fontaine "à moda russa". Sua memória estava impregnada pelas paisagens de sua Rússia natal - ele chegara a Paris em 1923 e tinha acabado de ilustrar, também a pedido de Vollard, "As almas mortas", de seu conterrâneo Gogol, quando começou a se dedicar ao clássico francês. Em sua defesa, Vollard não hesitou: "'Por que Chagall?'. Respondo: 'Ora, precisamente porque sua estética me parece bem próxima e, em certo sentido, aparentada à de La Fontaine, ao mesmo tempo densa e sutil, realista e fantástica'".
A originalidade de Chagall surge em quadros como o de "A raposa e as uvas". Nele, o animal aparece desolado apreciando o cacho que não consegue alcançar - "Que fazer senão se queixar?", pergunta La Fontaine – bem diferente da maior parte das demais ilustrações, nas quais o bicho tenta agarrar a fruta a todo custo. E se, para alguns, o fato de Chagall ser judeu e russo ameaçava o espírito de La Fontaine, o crítico Marcel Schmitz, de Bruxelas, foi um dos que o defendeu. Em março de 1930, declarou: "Era preciso que Chagall fosse russo, e por isso um pouco oriental, para que tamanha luxúria de tons fosse possível, para que fluísse sobre nós e se espalhasse em respingos essa avalanche de cores no estado puro".
Na edição brasileira, podem ser lidos os textos que contam a saga da reunião dos guaches, dispersos em 1930, do artista que viria a morar quase toda a vida na França, onde morreu. Ainda continuam desaparecidas, porém, 30 pinturas da série que escandalizou a crítica preconceituosa dos radicais anos 30. Mas a reação, na época, pode ter sido mais uma armadilha lançada por La Fontaine, em cujas historietas a ilusão sempre se defronta com a verdade.