
18 de junho de 2005
Sushi com ketchup
Astro pop da literatura
japonesa, Haruki Murakami mostra um país que não dá a mínima para a tradição
por Jerônimo Teixeira
Haruki Murakami, de 56 anos, vive uma situação rara entre escritores:
transformou-se em popstar. Ou pelo menos é assim no seu país natal, o Japão,
onde o autor experimenta o assédio da imprensa e dos fãs. A popularidade tem sua
contrapartida em certa desconfiança da crítica japonesa, especialmente a mais
tradicionalista. Basta conferir Norwegian Wood (tradução de Jefferson José
Teixeira; Objetiva; 356 páginas; 49,90 reais), recém-lançado no Brasil, e Dance
Dance Dance (tradução de Lica Hashimoto e Neide Hissae Nagae; Estação Liberdade;
504 páginas; 58 reais), que chega na semana que vem às livrarias, para constatar
que Murakami representa um verdadeiro rompimento com o universo retratado por
autores como Yukio Mishima ou Junichiro Tanizaki – e é exatamente isso que
garante o seu vigor. Seus personagens ouvem música pop, bebem mais café que chá
e não dão a mínima para o teatro nô. Vivem no Japão ultramoderno que viaja de
trem-bala – uma "sociedade altamente capitalista", para usar a expressão do
narrador de Dance Dance Dance. O mais interessante, porém, é que Murakami também
rompe com a visão convencional do Japão como o país dos operários-modelo e da
eficiência tecnológica. Seus personagens são inconformistas desesperados: não
encontram lugar na sociedade consumista que os cerca, mas são inteligentes
demais para aderir às bandeiras políticas da moda. Da perspectiva deles, o Japão
é um lugar um tanto mais bagunçado e sujo do que se costuma supor.
O próprio Murakami confessa que prefere a literatura americana à japonesa –
entre seus escritores favoritos estão J.D. Salinger (cujo clássico O Apanhador
no Campo de Centeio ele traduziu para o japonês) e o noir Raymond Chandler.
Tanto ou mais que a literatura, a música ocidental é uma referência para o
autor. De 1974 a 1981 – logo depois de concluir um curso universitário de
literatura e antes de se consagrar como escritor –, ele foi dono de um bar de
jazz em Tóquio. O título Norwegian Wood vem de uma música dos Beatles. Lançado
no Japão em 1987, o livro vendeu mais de 4 milhões de exemplares, consolidando a
celebridade de Murakami.
Tal como O Apanhador no Campo de Centeio, Norwegian Wood tem aquele tom ao mesmo
tempo romântico e desiludido que conquista o leitor adolescente sem desprezar a
inteligência do adulto. Aos 37 anos, o narrador, Toru Watanabe, relembra seus
dias de estudante universitário em Tóquio, no fim dos anos 60, e sua indecisão
amorosa entre duas mulheres com quem namorava então, a depressiva Naoko e a
esfuziante Midori. Apesar da alta dose de erotismo do livro, a tão celebrada
liberação sexual dos anos 60 é retratada com reticência – Murakami sugere que
sua contrapartida inevitável é o sentimento de vazio que assombra Watanabe.
Ambientado nos anos 80, Dance Dance Dance é a última peça de uma trilogia que
inclui Caçando Carneiros e O País das Maravilhas Durão e o Fim do Mundo
(este
ainda não lançado no Brasil). Mas pode ser lido e apreciado como um livro
independente. O personagem central – um escritor cujo nome não é informado –
viaja de Tóquio até Sapporo, no norte do Japão, na tentativa de reencontrar Kiki,
uma prostituta de alta classe por quem já esteve apaixonado. No Hotel do
Golfinho, onde viu Kiki pela última vez, ele entra em contato com personagens
estranhíssimos, incluindo um "homem-carneiro" e Yuki, uma adolescente com
poderes psíquicos. Apesar de seu extravagante enredo fantástico, Dance Dance
Dance tem lá suas afinidades com o melancólico Norwegian Wood. Seus personagens
centrais vivem variadas aventuras sexuais, mas permanecem solitários.
Experimentam aquela estranha solidão que só existe no meio das multidões de uma
megalópole como Tóquio.