1º de dezembro de 2004

Em busca do sexo perdido
Erotismo e morte andam lado a lado na obra do escritor japonês Yasunari Kawabata

por Jerônimo Teixeira

No discurso que fez ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1968, o japonês Yasunari Kawabata condenava o suicídio: "Por mais admirável que seja, o suicida está longe do patamar de um santo. Eu não admiro nem tenho simpatia pelo suicídio." Quatro anos depois, Kawabata abriu o gás da cozinha de sua casa para se matar. Não deixou bilhete para explicar o gesto. Já havia criado uma literatura tão bela quanto melancólica, na qual morte e erotismo andam sempre lado a lado. Pela primeira vez, essa obra está sendo publicada no Brasil em traduções diretas do japonês, pela editora Estação Liberdade. Acabam de chegar às livrarias O País das Neves (tradução de Neide Hissae Nagae; 160 páginas; 29 reais) e A Casa das Belas Adormecidas (tradução de Meiko Shimon; 128 páginas; 27 reais). Outras duas obras estão prometidas para 2005: Kyoto ou a Velha Capital e Mil Tsurus.

Nascido em Osaka, em 1899, Kawabata perdeu os pais quando tinha 3 anos. Antes de completar 10, perderia ainda a avó que o adotara e a única irmã. Nos anos 20, colaborou com a revista literária Bungei Jidai, que trazia a influência das vanguardas européias, especialmente do surrealismo. A despeito dessa aproximação com o Ocidente, o escritor também cultivava as mais conservadoras tradições japonesas. Nos anos 30, depois de se casar, mudou-se para Kamakura, a antiga capital samurai ao norte de Tóquio. Manteve-se neutro durante a II Guerra, quando viajou pela Manchúria, mas, nos anos 60, aproximou-se do nacionalismo desvairado do também escritor (e também suicida) Yukio Mishima.

Os costumes sexuais do Japão tradicional (ou machista, se o leitor preferir um vocabulário engajado) fazem o pano de fundo de O País das Neves, livro que consolidou a reputação do autor. Esse romance foi publicado pela primeira vez em 1937, mas Kawabata só o considerou realmente acabado em 1948, depois de uma série de modificações. Narra o envolvimento entre Shimamura, intelectual bon-vivant de Tóquio, e a gueixa Komako, em uma estação de esqui e águas termais. A inércia afetiva de Shimamura é tamanha que o leitor sente vontade de entrar no livro para sacudi-lo. Komako, ao contrário, parece arrebatada por esse cliente que a trata com frieza. Para fechar um estranho triângulo amoroso, aparece Yoko, uma jovem cujo rosto Shimamura admira em uma viagem de trem — a cena, que abre o livro, é de uma beleza plástica irretocável.

A Casa das Belas Adormecidas, de 1960, inspirou outro Nobel, o colombiano Gabriel García Márquez, a escrever seu mais recente romance, Memórias de Minhas P... Tristes, ainda inédito no Brasil. Na obra de Kawabata, Eguchi, respeitável senhor de 67 anos, torna-se freqüentador de uma casa em que idosos pagam para se deitar ao lado de jovens em sono profundo. Sob o efeito de drogas, as moças não acordam jamais. Não conversam, não beijam, não abraçam, mas também não vêem nem julgam a decadência física de seus clientes. Ao contrário dos outros "velhotes" que freqüentam a casa, Eguchi conserva alguma vitalidade sexual. Pensa até em violentar uma das moças, mas desiste ao constatar que ela é virgem. Kawabata transforma o confronto silencioso entre a passividade das belas adormecidas e a impotência forçada do cliente em uma narrativa de erotismo perturbador. O cheiro, o hálito, o calor dos corpos trazem evocações a Eguchi, que, como um sátiro proustiano, revisa o tempo perdido de sua plenitude sexual. Mas, nesse caso, talvez não seja apropriado falar em "plenitude". Para o melancólico Kawabata, o sexo é a única possibilidade de conhecer a beleza — ainda que ele sempre traga uma dose inevitável de frustração.