2 de abril de 2005

Uma adeus à tradição
O ocaso do Japão ancestral na obra-prima de Tanizaki

por Jerônimo Teixeira

O título original em japonês de As Irmãs Makioka (tradução de Leiko Gotoda, Kanami Hirai, Neide Hissae Nagae e Eliza Atsuko Tashiro; Estação Liberdade; 744 páginas; 72 reais) é Sasameyuki, que se traduziria literalmente como "neve fina". Além de incorporar o fragmento do nome de uma das personagens, Yukiko, a palavra traz evocações muito apropriadas ao tema do livro. Diz respeito à última neve do inverno, que derreterá em breve. É uma metáfora exata para o que Junichiro Tanizaki (1886-1965), um dos maiores escritores japoneses do século XX, tentou fazer em sua obra-prima: fixar os últimos momentos de uma época evanescente. O Japão tradicional das heroínas do livro se esboroa à medida que a ação do romance, que tem início em 1936, se aproxima da II Guerra Mundial (a história acaba meses antes do bombardeio japonês a Pearl Harbour). A beleza da narrativa está no tom elegíaco com que são reconstituídos os tempos em que as famílias abastadas dos arredores de Osaka viajavam para Kioto para ver a floração das cerejeiras.

As personagens centrais são quatro irmãs de Kansai, região que engloba as cidades de Kobe, Kioto e Osaka. O próprio Tanizaki estabeleceu-se nessa área em 1923, depois que um terremoto destruiu grande parte de sua Tóquio natal. Essa mudança geográfica corresponde a uma virada na literatura do autor. Até então um escritor "ocidentalizado", Tanizaki passou a se interessar pelas tradições de seu país. A diferença entre a modernidade fria e suja de Tóquio e o ambiente afetivo e tradicional de Kansai é fundamental em As Irmãs Makioka. Mas, a despeito de seu viés nostálgico, esse não é um romance conservador. Tanizaki também mostra como a rigidez da tradição aprisiona suas personagens, impedidas de buscar a felicidade amorosa por preconceitos de classe.

O drama central do livro diz respeito a Yukiko, a irmã que, já passando dos 30, não consegue arranjar um marido. Sucessivos pretendentes são rejeitados por não se encaixarem nos critérios antiquados dos Makioka. A dócil Yukiko dobra-se a esses protocolos superados sem protestar. Em oposição a ela, aparece Taeko, a irmã mais nova, que ensaia uma discreta rebelião contra os ditames familiares. O contraste entre a irmã "moderna" e a "tradicional", porém, não é simplista. Os dois pólos se enredam. Apesar de sua admiração pelos velhos costumes e pela indumentária japonesa, Yukiko estuda francês e escuta música ocidental. E a descolada Taeko, embora prefira o vestido ao kimono, cultiva artes japonesas como a dança e a confecção de bonecas.

Tanizaki tinha especial apreço pelo universo feminino – os homens do livro são pouco mais do que sombras. Há um tênue fundo autobiográfico na obra: as quatro irmãs foram baseadas na mulher e nas três cunhadas do autor. Estão ausentes de As Irmãs Makioka as escandalosas fixações sexuais que caracterizam outras obras de Tanizaki, como Voragem e Diário de um Velho Louco. O leitor ocidental reencontra em As Irmãs Makioka certa atmosfera doméstica que conhece dos livros de uma Jane Austen: rodas de chá dominadas por mulheres cuja única preocupação parece ser o casamento. É difícil entender o que poderia haver de ofensivo para o nacionalismo japonês nesse delicado romance. No entanto, sua publicação em capítulos por uma revista literária foi suspensa, em 1943, sob a alegação de que a obra não atendia aos "interesses nacionais". A tradição japonesa que Tanizaki amava não servia para incitar a expansão imperialista. Ela só convidava a apreciar a beleza da flor de cerejeira.