Homens e mulheres da Idade Média, livro coletivo organizado pelo historiador francês Jacques Le Goff, retraça a época em questão como um tempo “muito mais positivo e mais progressista do que se pensou”, nas palavras do próprio Le Goff, que já se debruçara em diversas outras obras sobre esse tema que tanto o fascina. O livro apresenta um panorama com 112 de seus personagens mais notórios, cujos perfis traçados por Le Goff e equipe não se limitam a resumir a vida e a exaltar os feitos dos retratados, mas mostrá-los como testemunhas da época em que viveram, o que permite novos olhares sobre a História dita oficial, aquela muitas vezes propagada de forma simplista ou reducionista, quando não equivocada, nos livros didáticos. Cristóvão Colombo, por exemplo, embora fosse um homem tipicamente medieval, “teria ficado muito surpreso que se fizesse dele um inventor da modernidade”, como o livro o analisa. É na Idade Média que, talvez pela primeira vez, verifica-se um certo equilíbrio entre homens e mulheres em suas dimensões históricas. Grande parte disso se deve à mudança de status da figura feminina da perspectiva clerical: a santidade. As mulheres puderam, enfim, se tornar monacais, desempenhando papel decisivo em relação à espiritualidade da época, notadamente no culto à Virgem Maria. Outro foco bem evidenciado é o dinamismo artístico do período, materializado, sobretudo, na produção musical (vocal e instrumental), na pintura e na arquitetura religiosa – embora grande parte daqueles que fizeram da época o “tempo das catedrais” tenham seus nomes ignorados pela História. Homens e mulheres da Idade Média está dividido em cinco partes. A primeira abarca o período entre a Antiguidade tardia e a alta Idade Média, cujo personagem central é Carlos Magno, sagrado imperador pelo papa e que assume a missão de submeter os bárbaros à civilização romana. A morte de Carlos Magno é o que principia a segunda parte, indo até ao ano 1000, momento em que se afirma a cristandade. A terceira enfoca a fase mais luminosa da Idade Média, não por acaso intitulada na obra como “o apogeu medieval”, quando as cidades aceleraram o desenvolvimento urbano, e as universidades cresciam com a participação dos teólogos. A quarta parte é intitulada “Perturbações e mutações”, ao enfocar o período de transição rumo ao Renascimento, quando pipocam as revoltas campesinas conhecidas por jacqueries, e também algumas movimentações que, de certa forma, anunciam a Reforma protestante vindoura. Para encerrar, há o capítulo sobre “Personagens imaginários”, em que são evocadas figuras míticas como a da Virgem Maria, a do rei Arthur, a de Robin Hood e a de Satã. Le Goff assim justifica a inclusão desses personagens: “Numa sociedade o imaginário tem seguramente tanta importância e eficácia quanto as condições reais da vida e do pensamento”.


Livro
Autor Jacques Le Goff
Páginas 448
Tradutor Nícia Adan Bonatti

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