Um ancião num vale esquecido à beira de um rio ressecado. Um menino que não ouve mais. Uma cabana de vigia à entrada de uma mina. E nada mais, além do pranto em meio ao vento árido do vale desértico. Do escritor e cineasta afegão Atiq Rahimi nos vem um dos mais belos panfletos antiguerra de que se tem notícia. Pois o velho e seu neto estão aguardando, num passar do tempo raro na literatura mundial, uma carona para a mina onde está trabalhando o filho do primeiro e pai do segundo, com a incumbência de anunciar a ele que a família morreu num ato de guerra. Mas a sabedoria e a piedade somem com as palavras, emudecem o velho, que não sabe como abordar a questão. Não quer apunhalar o filho com um golpe de misericórdia. O vilarejo destruído está para todos os vilarejos destruídos e todas as famílias aniquiladas de todas as guerras do mundo. No caso, o pano de fundo é o conflito gerado durante o regime pró-soviético no início dos anos 1980. Mas os sinais e o opressor de plantão são intercambiáveis, e são o que permanece desta ardente e bela leitura que nos faz mergulhar no mundo de antigos contos persas (Atiq Rahimi: “às perguntas políticas dos jornalistas, respondo com contos persas”). Terra e cinzas é um elegante e sutil grito para que parem bombardeios e matanças, que geram tanta dor e ódio. “Sabe, pai, a dor é assim, ela derrete ou escorre pelos olhos, ou ela se transforma em bomba dentro do peito, uma bomba que explode num belo dia e te faz explodir também...”


Livro
Páginas 80
Sobre o autor (a) Atiq Rahimi nasceu em Cabul, em 1962. Estudou no colégio franco-afegão, época em que frequentou o centro cultural francês da capital afegã onde conheceu o cinema francês e encenou algumas peças dramáticas. Durante a guerra civil no início dos anos 1980, deixou o seu país e, em 1985, obteve estatuto de refugiado político na França, onde vive desde então. Formou-se em letras e estudos cinematográficos nas Universidades de Rouen e La Sorbonne Nouvelle. Apesar de também escrever em francês, sua língua literária é o dari, variação do persa falada no noroeste do Afeganistão. Ganhou com a presente obra o prêmio Fondation de France 2002. Paralelamente à carreira literária, Atiq Rahimi dirige e produz filmes documentários e de ficção. Em 2002, o autor fez uma pequena tournée para o lançamento de Terra e cinzas no Brasil, passando por São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, e obtendo sucesso de crítica e de vendas (28 mil exemplares vendidos no total). Em suas visitas ao Brasil, na Bienal do Livro de São Paulo (2002), na Primavera dos Livros do Rio de Janeiro (2004), sempre teve empatia com o público, sentindo-se muito à vontade apesar da barreira linguística. Em 2004, veio para o lançamento da versão cinematográfica de Terra e cinzas, filmada por ele mesmo e pela qual foi premiado no Festival de Cannes do mesmo ano, na mostra “Um certo olhar”. Em 2005, publica Retour imaginaire, livro de fotos e poemas sobre seu reencontro com o Afeganistão.
Tradutor Flávia Nascimento

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