Sempe me perguntarei qual a receita de Atiq Rahimi para conciliar com tanto efeito numa mesma obra a delicadeza oriental de contos parecendo saídos de um tapete persa e a dura realidade política de um Afeganistão vítima das dilacerações da Guerra Fria e de seu corolário de infindáveis conflitos civis e golpes de Estado. O que já era magistral em Terra e cinzas vem em dose redobrada agora nesta história onde se conjuram sonhos suaves e djins maléficos; cenas de repressão tristemente universais e citações de clássicos da literatura persa antiga; o despertar para o amor ao abrigo de pátios orientais e a férula da bota de soldados — até a longa viagem para o exílio num tapete muito real. Imagens que ficam, também, de um país (ainda) com salas de leitura em bibliotecas universitárias, estudantes militantes — qual a causa certa do momento?, quais as palavras de ordem a seguir?, em meio à liberdade de uma eventual embriaguez e anacrônicos pontos de ônibus com nomes de paradas. Que fim dá o impiedoso turbilhão da História a ternos personagens sempre mais fortes do que ela, pois movidos à certeza de que “o homem dá mais crédito a seus sonhos que à realidade”?


Livro
Páginas 184
Sobre o autor (a) Atiq Rahimi nasceu em Cabul, em 1962. Estudou no colégio franco-afegão, época em que frequentou o centro cultural francês da capital afegã onde conheceu o cinema francês e encenou algumas peças dramáticas. Durante a guerra civil no início dos anos 1980, deixou o seu país e, em 1985, obteve estatuto de refugiado político na França, onde vive desde então. Formou-se em letras e estudos cinematográficos nas Universidades de Rouen e La Sorbonne Nouvelle. Apesar de também escrever em francês, sua língua literária é o dari, variação do persa falada no noroeste do Afeganistão. Ganhou com a presente obra o prêmio Fondation de France 2002. Paralelamente à carreira literária, Atiq Rahimi dirige e produz filmes documentários e de ficção. Em 2002, o autor fez uma pequena tournée para o lançamento de Terra e cinzas no Brasil, passando por São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, e obtendo sucesso de crítica e de vendas (28 mil exemplares vendidos no total). Em suas visitas ao Brasil, na Bienal do Livro de São Paulo (2002), na Primavera dos Livros do Rio de Janeiro (2004), sempre teve empatia com o público, sentindo-se muito à vontade apesar da barreira linguística. Em 2004, veio para o lançamento da versão cinematográfica de Terra e cinzas, filmada por ele mesmo e pela qual foi premiado no Festival de Cannes do mesmo ano, na mostra “Um certo olhar”. Em 2005, publica Retour imaginaire, livro de fotos e poemas sobre seu reencontro com o Afeganistão.
Tradutor Marina Appenzeller

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