Sempe me perguntarei qual a receita de Atiq Rahimi para conciliar com tanto efeito numa mesma obra a delicadeza oriental de contos parecendo saídos de um tapete persa e a dura realidade política de um Afeganistão vítima das dilacerações da Guerra Fria e de seu corolário de infindáveis conflitos civis e golpes de Estado. O que já era magistral em Terra e cinzas vem em dose redobrada agora nesta história onde se conjuram sonhos suaves e djins maléficos; cenas de repressão tristemente universais e citações de clássicos da literatura persa antiga; o despertar para o amor ao abrigo de pátios orientais e a férula da bota de soldados — até a longa viagem para o exílio num tapete muito real. Imagens que ficam, também, de um país (ainda) com salas de leitura em bibliotecas universitárias, estudantes militantes — qual a causa certa do momento?, quais as palavras de ordem a seguir?, em meio à liberdade de uma eventual embriaguez e anacrônicos pontos de ônibus com nomes de paradas. Que fim dá o impiedoso turbilhão da História a ternos personagens sempre mais fortes do que ela, pois movidos à certeza de que “o homem dá mais crédito a seus sonhos que à realidade”?


Livro
Autor Atiq Rahimi
Páginas 184
Tradutor Marina Appenzeller

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