Armance é, cronologicamente, o primeiro dos grandes romances de Stendhal. Quando comparado a obras-primas como O vermelho e o negro e A cartuxa de Parma, porém, este romance de 1827 é considerado ambíguo — e isso por uma razão muito simples: toda a trama é articulada ao redor de um segredo sobre a vida do protagonista que nunca é revelado, o que tornaria obscuras as motivações deste livro sobre o amor idealizado e a renúncia ao casamento. A chave para se entender a trama estaria numa carta de Stendhal a Mérimée (publicada na presente edição), na qual ele explicita o motivo que impede a consumação do amor entre o visconde Octave de Malivert e sua prima, Armance de Zohiloff: seu herói sofre de babilanismo, ou seja, impotência sexual. De fato, um romance diante do qual o leitor depende de informações extraliterárias para captar o sentido da narrativa poderia ser considerado imperfeito. Mas isso só é verdade se confundirmos a intenção inicial de Henri Beyle (verdadeiro nome do escritor) com a realização de Stendhal (nome pelo qual ficou conhecido). A julgar pelo tom lúbrico que permeava sua correspondência com Mérimée, ele queria escrever um romance que satirizasse o ideal do amor romântico. O resultado, porém, é bem diferente: como a suposta anomalia permanece oculta, toda a torturante aproximação dos dois amantes se dá sob o signo do desafio a preconceitos sociais, políticos e econômicos. Stendhal faz da misantropia de Octave e da integridade de Armance a metonímia de um ardor passional que sobrevive a uma sociedade de nobres decadentes e banqueiros, um mundo regido por contratos matrimoniais, em que o casamento poderia pacificar o tumulto do coração. Nesse sentido, Armance é um livro que mergulha como nenhum outro nas sutilezas do jogo amoroso, antecipando aquele culto à energia individual que, em seus romances posteriores, Stendhal irá contrapor ao desencantamento do mundo burguês.

Livro
Formato 21x14x1cm
ISBN 978-85-744-8085-5
Páginas 288
Sobre o autor (a) Stendhal nasceu na França em 1783. Acompanhou o exército napoleônico em suas investidas à Itália, Áustria e Rússia. Após obras ensaísticas, entre as quais o relato de viagem Roma, Nápoles e Florença, em 1827 publica seu primeiro romance, Armance. Suas obras de ficção mais conhecidas são O Vermelho e o Negro (1830), que tem como herói Julien Sorel, jovem arrivista e ambicioso, tido como um dos personagens literários mais fascinantes de todos os tempos, e A cartuxa de Parma (1839), sobre a trajetória do aventureiro Fabricio del Dongo. A complexidade psicológica de seus personagens e suas análises sociais influenciam toda a literatura francesa posterior. O estilo de Stendhal, ao invés do excesso de ornamentos que caracterizava o romantismo, predominante na época, valoriza o perfil psicológico dos personagens, a interpretação de seus atos, sentimentos e paixões.
Tradutor Leila de Aguiar Costa

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