Neste romance de amor e aventuras comerciais, Zola descreve como uma fotografia a efervescente Paris de meados do século XIX. É a cidade das luzes, no século das luzes, em todo o seu esplendor, mas também em sua miséria. Denise é uma pobre órfã que precisa enfrentar uma (para ela e tantas outras recém-chegadas da província) terrível Paris. Dividida entre as maravilhas da grande loja de Octave Mouret — uma impressionante loja de departamentos que se expande a ponto de ocupar todo um quarteirão — e a tradição decadente da lojinha familiar, Denise vive e sofre as vicissitudes da miséria na grande cidade. Finalmente bem empregada no Paraíso das Damas, que está prestes a arruinar o antigo comércio de seu tio Baudu, a vida da moça melhora aos poucos, e estreitam-se suas relações com o rico patrão. A história de amor entre a empregadinha do comércio e o grande empresário funciona como um alinhavo descontraído para investigar temas contemporâneos. São principalmente as mudanças econômicas do século e o nascimento da sociedade de consumo. Mas Zola tem um interesse particular pelas inovações nas áreas de urbanismo e arquitetura: é a época da grande reurbanização de Paris pelo Barão Haussmann, e do início do emprego de novas técnicas e materiais de construção — o ferro aparente da torre Eiffel é o mesmo que será usado no interior das lojas de departamentos. E como bom naturalista, o autor não deixaria de lado as idéias ligadas ao darwinismo, segundo as quais os mais fortes vencem. Tendo como pano de fundo a ascensão das lojas de departamentos, que aos poucos foram ganhando força diante das pequenas lojas de bairro, o livro parece muitas vezes atual. Numa época em que a grande distribuição só estava no começo, os princípios de marketing e de publicidade utilizados pelo empresário protagonista se assemelham bastante às técnicas de que se servem hoje supermercados e shopping centers: vitrines vistosas, mudanças periódicas da disposição dos produtos, organização espacial tipo labirinto para “perder” as clientes, remarcação de preços e promoções, publicidade em mídias diversas — jornais, cartazes, mas também balões e carroças. Décimo primeiro livro da saga de vinte volumes escrita por Zola de 1871 a 1893 — os Rougons-Macquarts, da qual Germinal também é parte integrante —, O Paraíso das Damas retoma personagens de outros livros, evoca temas recorrentes de Zola, além de reproduzir as mesmas descrições cuidadosas, fundadas em imensos trabalhos de pesquisa, que caracterizam a obra do grande autor naturalista. Como em Germinal, o aspecto social é bastante valorizado, e a vida das trabalhadoras do novo comércio é descrita de maneira análoga àquela dos mineiros do célebre romance. Para elaborar o Paraíso, Zola entrevistou funcionários das lojas Le Bon Marché e Louvre, elaborou planos das seções por andar, visitou os quartos dos vendedores, informou-se sobre as técnicas de venda, etc. O que diferencia no entanto esta obra das demais de Zola é o seu tom positivo. O autor de fato afirma em seu dossiê preparatório para o romance: “Quero fazer o poema da atividade moderna. Portanto, transformação completa de filosofia: nada de pessimismo, para começar, não concluir com a idiotice e a melancolia da vida, concluir ao contrário com a labuta contínua, com o poder e a alegria da criação. Em uma palavra, acompanhar o século, expressar o século, que é um século de ação e de conquista, de esforços em todos os sentidos. Em seguida, como conseqüência, mostrar a festa da ação e o prazer da existência; certamente existem pessoas felizes com a vida, cujos prazeres não se esgotam e que se enchem de felicidade e de sucesso: são essas pessoas que eu quero retratar, para mostrar a outra face da verdade, e para assim ser completo.”