Num período de poucos dias, a vida de um andarilho parece ser tomada, de súbito, por uma série de eventos inexplicáveis. Tudo começa quando um sujeito endinheirado tromba com o nosso peculiar anti-herói: sem motivos claros, o bem-nascido oferece ao pobre homem uma vultosa soma em dinheiro. Apesar de viver na miséria, Andreas, o andarilho, nutre valores inquebrantáveis de idoneidade e retidão, e só aceita o dinheiro com a condição de devolvê-lo, algum dia, a uma determinada santa. Mas aquela dinheirama súbita que lhe cai às mãos é rapidamente gasta em desbundes etílicos, e Andreas, a partir do contato com outros inusitados personagens que cruzam seu caminho, parece fadado a uma espiral alucinante de sempre protelar o acerto de sua “dívida”. Vivendo às margens do rio Sena, que, naquele entreguerras, se mostravam uma verdadeira Babel de imigrantes desorientados e andantes sem destino, Andreas não deixa de ser um alter ego de Roth, que preferia peregrinar a manter um lar definitivo, e que teria a bebida como acompanhante até o fim de seus dias. Essa brilhante narrativa de Roth, apesar das doses naturais de humor e ironia, não deixa de ser pungente. O tom fabular empregado pelo autor contribui para evocar alguns dos sentimentos mais básicos (e perdidos) da condição humana, notadamente a bondade, a inocência, a solidariedade. Redigida às vésperas de sua morte, em 1939, A lenda do santo beberrão é uma pequena obra-prima que Roth chamara de “meu testamento”.