Quem ama o futebol também ama as lembranças de grandes jogos e grandes jogadores. Os melhores do pós-guerra — Puskás, Di Stéfano, Eusébio, Pelé — cruzaram o caminho de um homem que marcou o moderno futebol ofensivo mais do que qualquer outro: Béla Guttmann, húngaro judeu, ex-jogador, treinador de sucesso planetário, mitificado sobretudo depois de arrebatar por duas vezes a Liga dos Campeões da Europa no comando do Benfica, de Lisboa — tendo derrubado, para tal, nada menos que a poderosíssima dupla espanhola, Barcelona e Real Madrid. De temperamento forte e cheio de idiossincrasias, Béla Guttmann foi uma espécie de José Mourinho de seu tempo. Tanto pela capacidade superior de “ler” o futebol em suas variantes técnica, tática e física, quanto pelas recorrentes polêmicas em que se envolvia. Apesar de ter sido um jogador de algum talento, foi como treinador que se destacou, num tempo de transição do futebol, entre o amadorismo e o profissionalismo. Conhecido pelo estilo austero, Guttmann jamais se submeteu a dirigentes ou a jogadores-estrela, o que, com frequência, o fazia debandar — ou ser debandado — dos clubes que dirigia. Antecipando o movimento de globalização no futebol que se acirraria mais marcadamente a partir dos anos 1990, Guttmann foi um andarilho no mundo da bola. Além da Hungria, atuou em países como Holanda, Áustria, Itália, Estados Unidos, Argentina e Portugal. E teve ligações profundas também com o futebol brasileiro: em 1957, aceitou o convite para treinar o São Paulo Futebol Clube, onde se sagrou campeão paulista. Mais do que isso, o estilo tático de Guttmann, com o inovador e ultraofensivo esquema 4-2-4, influenciou de forma certeira na maneira de jogar da própria seleção brasileira comandada por Vicente Feola que, no ano seguinte, levantaria seu primeiro título mundial. Béla Guttmann — o livro — não é uma biografia convencional, ou, em outra perspectiva, é bem mais do que uma biografia. Com o personagem tendo nascido no último ano do século XIX, sua trajetória acaba naturalmente personificando o próprio desenvolvimento do futebol no século posterior, em diversos aspectos: o sionismo/antissemitismo que envolviam os boleiros de origem judaica; a rápida massificação do futebol após seu nascimento em berço esplêndido; a evolução das regras; o crescimento da importância de competições como a Taça dos Campeões Europeus — a atual e badaladíssima Uefa Champions League/Liga dos Campeões da Europa, bem como a morte de outros torneios históricos, como a Mitropacup. Assim, num tempo em que a biografia virou gênero maldito no Brasil, Béla Guttmann — Uma lenda do futebol do século XX é, desde já, uma referência de como o registro de histórias de vida pode ir muito além das mesquinharias e indiscrições de cunho privado, ao compor numa mesma geleia geral informações preciosas de época, sobre questões ao mesmo tempo esportivas, sociais, políticas, étnicas, religiosas. Detlev Claussen escreveu um capítulo especial da história da cultura e do esporte. Ele fala sobre amadores e profissionais, húngaros e vienenses, judeus e católicos, argentinos e brasileiros, heróis e patifes — e de partidas inesquecíveis.