Quando um mero pen drive chegou às mãos de Gérard Davet e Fabrice Lhomme, dupla de repórteres do Le Monde, eles não poderiam supor que conteúdo haveria naquele pequeno dispositivo. Mas, diante dos dados e informações com que se depararam, foram atrás da grande reportagem de suas vidas, que teria repercussões globais, por expor dinheiro sujo – de “lavagem”, evasão fiscal, corrupção, narcotráfico e outras categorias do gênero – movimentado no HSBC Private Bank de Genebra, envolvendo mais de duas centenas de nações, Brasil incluso.

O caso conhecido como SwissLeaks teve como estopim um funcionário do banco, Hervé Falciani, que, em 2006, operava no aperfeiçoamento do sistema de segurança dos dados dos clientes. Durante a execução da tarefa, ao se deparar com o que lhe pareciam operações fraudulentas, tomou uma decisão arriscada: extrair do banco aqueles dados secretos. E, em 2009, tratou de abrir o bico: depois de algumas aventuras, contatou o fisco francês. Expôs desmandos financeiros da ordem de 180 bilhões de euros, movimentados por 106 mil contas de pessoas físicas e jurídicas, muitas delas de propriedade de políticos, gente da alta realeza, esportistas, personalidades do showbiz, entre outros endinheirados de fama.

SwissLeaks – Revelações sobre a fraude fiscal do século retraça em detalhes essa rara investigação, que contou com uma série de personagens excêntricos fazendo jus a qualquer bom romance policial: uma espiã especialista em comportamento; inverossímeis agentes do fisco; magistrados amordaçados por freios de natureza política; uma providencial fonte anônima; além de um consórcio internacional de jornalistas determinados a levar o assunto a ferro e fogo.

Acima de tudo, acompanhamos o relato dos dois jornalistas investigativos do Le Monde em seu confronto com todos esses peculiares protagonistas, a começar pelo acuado e provocador Falciani — de um lado processado e perseguido na Suíça, e de outro sob a proteção dos serviços secretos franceses. Para um mesmo personagem, não é pouco.

Ismael Pfeifer, experiente jornalista de economia, elaborou a janela brasileira desse affair internacional. Mesmo com cerca de 20 bilhões de reais de contas brasileiras envolvidas, as investigações aqui não por acaso evoluem a passos de tartaruga. Mas algo parece já ter mudado, e o jornalismo investigativo, do qual temos aqui um magistral exemplo, tem a ver com isso.