AS MIL CASAS DO SONHO E DO TERROR
Atiq Rahimi

Tradução: Marina Appenzeller
184 p., 14 x 21 cm
ISBN-10: 85-7448-076-2
ISBN-13: 978-85-7448-076-3
R$ 32,40

 Compre aqui com nossos parceiros
 Livraria Cultura
 Submarino
 Saraiva
 Siciliano
 Fnac
 

 

Do autor de Terra e cinzas, um romance sobre amor, sonhos, terror e esperança ambientado no Afeganistão dos anos 1980.

Em persa, “mil casas” designa o labirinto, essa extensão em que saída e becos sem saída confundem-se; o tempo pára, instalam-se a escuridão e o terror. E a mínima mancha branca evoca o sol. No tempo das ditaduras, Cabul e todo o Afeganistão não são essa extensão, esse labirinto? Cinco personagens presos na trama tentam escapar ao terror pela embriaguez ou pela fuga, pela morte, pelo amor, pelo sonho...

Sempre me perguntarei qual a receita de Atiq Rahimi para conciliar com tanto efeito numa mesma obra a delicadeza oriental de contos parecendo saídos de um tapete persa e a dura realidade política de um Afeganistão vítima das dilacerações da guerra fria e de seu corolário de infindáveis conflitos civis e golpes de Estado. O que já era magistral em Terra e cinzas vem em dose redobrada agora nesta história onde se conjuram sonhos suaves e djins maléficos; cenas de repressão tristemente universais e citações de clássicos da literatura persa antiga; o despertar para o amor ao abrigo de pátios orientais e a férula da bota de soldados – até a longa viagem para o exílio num tapete muito real.

Imagens que ficam, também, de um país (ainda) com salas de leitura em bibliotecas universitárias, estudantes militantes – qual a causa certa do momento?, quais as palavras de ordem a seguir?, em meio à liberdade de uma eventual embriaguez e anacrônicos pontos de ônibus com nomes de paradas. Que fim dá o impiedoso turbilhão da História a ternos personagens sempre mais fortes do que ela, pois movidos à certeza de que “o homem dá mais crédito a seus sonhos que à realidade”?

O editor

 

Trechos

“Ao jogar a água, Parvana afugentou os djins. Minha alma conseguiu escapar das botas dos soldados. Despegou-se do lodo e no momento entra devagarinho em meu corpo. Mas está ferida e mortificada. É o que se chama ‘a união do corpo e do espírito’, meu corpo sente os hematomas de minha alma.” (p. 31)

“— Aproxime-se!
Pensei que meus joelhos haviam atravessado o asfalto e tinham-se enterrado no chão. Não conseguia me levantar.
— Você é surdo? De pé! Aproxime-se!
Arranquei a mim mesmo do chão e até dei um passo para a frente. Mas de novo fiquei plantado ali como um bloco de pedra. Pesado e estático.” (p. 41)

“É o caso de acreditar que o homem dá mais crédito a seus sonhos do que à realidade. Não fosse dessa maneira, como todas essas revoluções, essas guerras, essas ideologias poderiam existir? Como esta...” (p. 51)

“Em nenhum momento senti-me tão próximo de outra mulher além de minha mãe e Parvana. Em nenhum momento senti tão de perto a vida de uma mulher. Nenhuma mulher jamais abriu caminho ao âmago de meus pensamentos, ao âmago de minha existência. No decorrer de uma noite, compartilhei com uma mulher mil instantes de uma vida, como se uma coisa essencial nos tivesse unido. Aquela mulher ofereceu-me seu teto. Minha vida está em suas mãos, ela pertence-lhe.” (p. 127)