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CRÍTICA DA RETÓRICA DEMOCRÁTICA Tradução Valéria
Silva |
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A obra
Em breves capítulos de grande
contundência, Luciano Canfora revira e desconstrói o mito de nossa famosa
democracia, seja ela em sua vertente clássica, popular, parlamentar, ocidental,
proletária, ou o que mais ainda se inventou para (des)caracterizá-la. Canfora
atinge com estocadas certeiras um valor considerado perene, e o que sobra tem
trejeitos de uma grande fraude. O discurso da democracia e sua bem azeitada
retórica são usados pelos donos do poder para justificar que uma minoria de
turno sempre acaba comandando as maiorias. Canfora demonstra como essa
aristocratização da democracia e seu corolário de desmandos ocorrem em todos os
tempos e todos os lugares [...]. Interessante vermos como sempre se falou em
nome da democracia, como sempre se cooptou classe política, imprensa e
eleitorado, e hoje, nesse mundo uníssono em que os deserdados parecem não ter
mais defensores, a convergência “democrática” rumo ao
“centro”, que existiu desde finais do século XVIII, parece ruir,
e pela primeira vez em muito tempo novos discursos não mais necessariamente se
submetem a consensos que tanto duraram. Que a retórica da democracia não seja
mais valor universal gera restrições cada vez mais perigosas para sua prática
— se é que um dia ela foi efetiva. Os novos extremismos aflorando a
torto e a direito (radicalismos de direita e xenofobias, o novo unilateralismo
imperial norte-americano, ou ainda os fundamentalismos das grandes religiões),
as renovadas intervenções dos Estados Unidos para exportar democracia e
liberdade à moda da casa — talvez a mais obtusa operação de manipulação
retórica que se tem visto — nos lembram que retórica e prática andam
cada vez mais distantes. Persistindo as ilusões, Canfora faz com que as
percamos, ao clamar que o que se entende por democracia hoje não é operacional,
que os mercados referendam tudo, e que o próprio exercício da democracia se
restringe a escolher entre opções predeterminadas e passadas pelo crivo de
aparelhamentos que zelam por coibir eventuais excessos... democráticos.
Texto extraído da orelha do livro