![]() |
DERRIDA, UM EGÍPCIO Tradução: Evando Nascimento |
Compre aqui com nossos parceiros |
| Livraria Cultura | ||
| Saraiva | ||
| Livraria da Travessa | ||
| Livraria Martins Fontes Paulista | ||
A obra
O filósofo alemão Peter
Sloterdijk desenvolve neste livro uma série de reflexões feitas a
partir da morte de Derrida. Mais do que uma simples homenagem, trata-se
de lançar um olhar entre o modesto e o extremamente ambicioso sobre uma
obra de cerca de oitenta volumes. Em vez de monumentalizar o conjunto
dos textos de Derrida, tenta-se revê-lo com o recurso da pirâmide e de
seu significado na civilização egípcia, além de expor o modo como se
deu o advento do monoteísmo. Afirma o autor: “[...] já se pode ter
desenhado o contorno principal de um retrato filosófico de Derrida: sua
trajetória se definiu pelo cuidado vigilante de não se deixar fixar
numa identidade determinada — cuidado este afirmado tanto quanto a
convicção do autor de que seu lugar só podia se situar na linha de
frente mais avançada da visibilidade intelectual.”
A hipótese de
Sloterdijk propõe que o pensamento derridiano corresponderia a um tempo
em que os autores, em vez de tratar diretamente dos assuntos, preferem
comentar outros pensadores que já abordaram os mesmos temas. Viveríamos
então numa época de leituras de segunda ordem, o que colocaria
necessariamente Sloterdijk — leitor das leituras de Derrida — em uma
posição de terceira ordem. Se assim for, talvez se torne necessário,
diante do arguto e irônico ensaio que ora se publica, indagar se, desde
os egípcios, e em seguida com os gregos, judeus, romanos e cristãos, os
autores e as civilizações não estiveram sempre, de algum modo, propondo
reflexões de segunda, terceira e quarta ordens — ao infinito.
Nessa
perspectiva, a interpretação de Sloterdijk ganha uma dimensão
sintomática de como ler hoje os textos das diversas civilizações que
formaram, informaram e formataram o Ocidente em seus contatos
inesgotáveis com esse outro, a um só tempo próximo e tão distante, o
chamado Oriente. Ler Derrida à luz da cultura egípcia e das
correlativas expropriações judaico-cristãs torna-se um exercício tanto
mais interessante porque se faz na companhia de ninguém menos do que
Hegel, Freud, Luhmann, Thomas Mann, e outros. É a esse colóquio
filosófico e transdisciplinar que nos convida Derrida, um egípcio.
(Texto de Evando Nascimento)
Trechos
“Nada
parece mais natural para os vivos do que esquecer os mortos — e para os
mortos nada mais evidente do que frequentar os vivos. De todas as
declarações de Derrida próximas de sua morte, durante o verão de 2004,
nenhuma outra me vem tanto à memória quanto a afirmação de ter duas
convicções totalmente opostas a respeito de sua “existência” póstuma:
por um lado, a certeza de que seria esquecido a partir do dia de sua
morte; por outro, a de que a memória cultural conservaria, apesar de
tudo, alguma coisa de sua obra. Explicava que as duas convicções
coexistiam nele como se nada as vinculasse uma à outra.” (p. 9)
“Seria
evidentemente absurdo querer examinar a hegelianidade pessoal e
específica de Derrida e de Luhmann. [...] No caso de Derrida,
conclui-se a virada linguística ou semiológica, na esteira da qual o
século XX pertencera às filosofias da linguagem e da escrita; no caso
de Luhmann, tem fim o adeus à filosofia proclamado por Wittgenstein,
uma vez que o pensamento se retira, de forma resoluta, da tradição das
teorias do espírito e da linguagem, para se reposicionar no campo da
metabiologia, isto é, da lógica geral das diferenças entre sistema e
meio ambiente. Ambos os efeitos guardam em comum com Hegel o fato de
esgotarem as últimas possibilidades de uma certa gramática, trazendo
assim aos sucessores o sentimento, a princípio gerador de euforia, de
iniciarem um ponto culminante.” (p. 16-17)
“Derrida interpretou
a sorte de José mostrando como a morte sonha em nós — dito de outro
modo: como o Egito opera em nós. ‘Egípcio’ é o predicado de todas as
construções que podem ser submetidas à desconstrução — exceto a mais
egípcia de todas as estruturas, a pirâmide. Ela se mantém para sempre
em seu lugar, inabalável, porque sua forma nada mais é do que os restos
indesconstrutíveis de uma construção, erguida — segundo o plano do
arquiteto — com o aspecto que teria depois de seu desmoronamento.” (p.
38)
“A opção comum a favor da aceitação da morte tem como
consequência fornecer o motivo profundo da ressonância, muitas vezes
observada, entre a modernidade e a Antiguidade. É nessa opção que se
encontram as razões pelas quais um autor paradigmático da modernidade
como Freud pode se sentir tão bem na companhia de filósofos antigos da
escola estoica, epicurista e cética.” (p. 43)
“Isso comprova que
Derrida pensava efetivamente a pirâmide como forma transportável.
Caberia sem dúvida buscar o segredo de sua transportabilidade no fato
de que a transposição para a escrita tornou-a leve. Porém, com essa
prova — apoiada na ideia de não apenas o Deus único, mas igualmente a
tumba egípcia ter partido em itinerância — não se resolveu o problema:
o autor se lança na tentativa de apresentar a fábrica de sonhos da
metafísica em geral numa imagem de extremo páthos. Ele assinala existir
aqui um enigma pedindo decifração, ou seja: “Que segundo o trajeto da
ontoteológica, esse caminho permaneça circular e que a pirâmide se
torne novamente o poço que ela sempre terá sido.” De onde Derrida tirou
isso? Em quê se baseia para afirmar que existe um caminho que leva do
poço à pirâmide, e vice-versa?” (p. 66-67)