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FESTA SOB AS BOMBAS Tradução: Markus Lasch |
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A obra
Em seus anos tardios — depois de suas três importantes obras autobiográficas, A língua absolvida, A luz em meu ouvido e O jogo dos olhos
(Companhia das Letras) — Canetti recorda a década que passou na
Inglaterra, seus melhores anos, durante os quais, distante da língua
alemã, redigiu sua obra-prima Massa e poder
(1960) e passou tempos movimentados. Em vida não ousou levar a público
tanta coisa tão pouco recuada no tempo, mas agora abre-se o tesouro: um
texto bem-humorado e irreverente sobre nobres mimados e imigrantes
paupérrimos, sobre poetas convencidos e belas pintoras, sobre um pastor
carola e um varredor de rua metido a filósofo e — com grande
transparência — sobre o relacionamento com a escritora Iris Murdoch,
que mais tarde se tornaria famosa.
O pesquisador e crítico literário
Jeremy Adler era conhecido de Canetti desde o início de seus anos
ingleses e lhe foi muito próximo no último período. Em seu abrangente e
tocante posfácio traz em primeira mão elementos que nos revelam um
Canetti dos bastidores.
Trechos
“Estou confuso com relação à Inglaterra, foi uma vida toda, inserida em
um antes e um depois, e, no fundo, suficiente para tudo. Depois do
caos, preciso refletir sobre o que se pode obter dessa ordem aparente.
Céus, que ordem. Estava-se prestes a acreditar: uma ordem para sempre.
Mal se ganhara a guerra, a festa da vitória, as fogueiras no Heath,
começou a decadência. Por algum tempo, as pessoas ainda se mantinham na
ordem da guerra. Muitas coisas eram racionadas, suportava-se o
racionamento com disciplina. Resmungar jamais é perigoso nesse país —
assim parecia.” (p. 9)
“Dylan Thomas leu, com seu jeito cantante
e florido, verdadeiro polo oposto da parcimônia seca de Eliot. Ficara
famoso durante a guerra, um sujeito novíssimo com cara de querubim.
Todos falavam dele, que tão nada tinha em comum com Eliot.
Evidentemente Emmanuel também pediu bis a ele. Sua língua, alimentada
tanto pela herança galesa quanto por Shakespeare, não era fácil de
entender em sua retórica concentrada. Mas os dentes de ouro de Emmanuel
não revelaram que cintilavam em vão. Em todo caso, a boca estava um
pouco mais aberta e deixava ver no fundo uma garganta negra cheia de
miasmas. O contraste entre Eliot e Dylan Thomas, que estavam sentados
não muito longe um do outro, não poderia ser maior. Porém, presos que
estavam aqui, entre tantos outros, esse contraste perdia a nitidez e
dava a impressão de ser quase histórico.” (p. 65-66)
“Como ela
própria nunca tinha amado nem sido amada, não acreditava no poder da
atração erótica. Tinha-a por fraqueza, e de que maneira ela poderia
levar a sério um homem que era acometido por esta fraqueza? Vivenciou a
separação de Bertrand Russell e Alice com os olhos da amiga, e em
momento algum lhe ocorreu nem sequer suspeitar que o homem pudesse ter
prescindido de algo neste casamento. De sorte que, para ela, era um
pecador e, como — ao contrário dela — tinha uma estatura razoavelmente
pequena, era um pequeno pecador. Já Bernard Shaw era a seus olhos um
homem bem diferente, tratava-se de alguém como ela, desinteressado do
sexo, alguém que tinha coisas mais interessantes para falar e das quais
sempre falava.” (p. 87)
“Eu próprio era mais ouvinte do que
analista, e ouvi tanto que haveria algumas centenas de volumes para
escrever, caso ainda lembrasse de tudo. Mesmo a fração que consegui
conservar seria suficiente para alguns livros. Mas nem cogito proceder
à exploração desta fonte. Só quero manter vivos alguns caracteres, que
na época se tornaram personagens para mim, e assim permaneceram, ainda
que não os veja há décadas. Quero livrar-me da abundância de
personagens ingleses.” (p. 103)
“Eu o ouvia fascinado. Era um
tom ao qual não estava acostumado nessa casa. Enoch Powell tinha fama
de ser um orador apaixonado no parlamento e não menos apaixonado era
aqui como convidado. Aqui também podia mostrar sem escrúpulos o quanto
sabia, o que no parlamento ou na vida inglesa em geral era considerado
inconveniente. [...] Nenhum dos convidados presentes naquela noite
sabia alemão. Mas evidentemente era mais do que a língua que o atraía
em Nietzsche, era a vontade de poder: dificilmente encontrei um
antípoda tão completo de tudo que represento. Porém, não revelei minhas
próprias opiniões.” (p. 107-108)
“Nessa casa presenciei uma
festa sob bombas. Foi depois da Batalha da Inglaterra. Naqueles dias de
setembro do ano 1940, via-se de Hampstead Heath, onde morávamos então,
os combates entre aviões britânicos e alemães. Em pleno dia, olhava-se
para o céu e seguiam-se os rastros dos aviões como um evento esportivo.
Era tão excitante que só se pensava nos combates em si. Talvez se
ficasse um tanto orgulhoso que os ingleses se saíssem tão bem, afinal
acontecera Dunquerque. Aqui, porém, pairava no ar a impressão de que os
alemães acertavam mais vezes do que os ingleses. As consequências
desses combates preocupavam menos, não se podia saber quanto se
dependia deles.” (p. 140)