Festa sob as bombas

FESTA SOB AS BOMBAS
Os anos ingleses
Elias Canetti

Tradução: Markus Lasch
232 pp., 14 x 21 cm
ISBN: 978-85-7448-159-3
R$ 46,00

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A obra

Em seus anos tardios — depois de suas três importantes obras autobiográficas, A língua absolvida, A luz em meu ouvido e O jogo dos olhos (Companhia das Letras) — Canetti recorda a década que passou na Inglaterra, seus melhores anos, durante os quais, distante da língua alemã, redigiu sua obra-prima Massa e poder (1960) e passou tempos movimentados. Em vida não ousou levar a público tanta coisa tão pouco recuada no tempo, mas agora abre-se o tesouro: um texto bem-humorado e irreverente sobre nobres mimados e imigrantes paupérrimos, sobre poetas convencidos e belas pintoras, sobre um pastor carola e um varredor de rua metido a filósofo e — com grande transparência — sobre o relacionamento com a escritora Iris Murdoch, que mais tarde se tornaria famosa.
O pesquisador e crítico literário Jeremy Adler era conhecido de Canetti desde o início de seus anos ingleses e lhe foi muito próximo no último período. Em seu abrangente e tocante posfácio traz em primeira mão elementos que nos revelam um Canetti dos bastidores.


Trechos

“Estou confuso com relação à Inglaterra, foi uma vida toda, inserida em um antes e um depois, e, no fundo, suficiente para tudo. Depois do caos, preciso refletir sobre o que se pode obter dessa ordem aparente. Céus, que ordem. Estava-se prestes a acreditar: uma ordem para sempre. Mal se ganhara a guerra, a festa da vitória, as fogueiras no Heath, começou a decadência. Por algum tempo, as pessoas ainda se mantinham na ordem da guerra. Muitas coisas eram racionadas, suportava-se o racionamento com disciplina. Resmungar jamais é perigoso nesse país — assim parecia.” (p. 9)

“Dylan Thomas leu, com seu jeito cantante e florido, verdadeiro polo oposto da parcimônia seca de Eliot. Ficara famoso durante a guerra, um sujeito novíssimo com cara de querubim. Todos falavam dele, que tão nada tinha em comum com Eliot. Evidentemente Emmanuel também pediu bis a ele. Sua língua, alimentada tanto pela herança galesa quanto por Shakespeare, não era fácil de entender em sua retórica concentrada. Mas os dentes de ouro de Emmanuel não revelaram que cintilavam em vão. Em todo caso, a boca estava um pouco mais aberta e deixava ver no fundo uma garganta negra cheia de miasmas. O contraste entre Eliot e Dylan Thomas, que estavam sentados não muito longe um do outro, não poderia ser maior. Porém, presos que estavam aqui, entre tantos outros, esse contraste perdia a nitidez e dava a impressão de ser quase histórico.” (p. 65-66)

“Como ela própria nunca tinha amado nem sido amada, não acreditava no poder da atração erótica. Tinha-a por fraqueza, e de que maneira ela poderia levar a sério um homem que era acometido por esta fraqueza? Vivenciou a separação de Bertrand Russell e Alice com os olhos da amiga, e em momento algum lhe ocorreu nem sequer suspeitar que o homem pudesse ter prescindido de algo neste casamento. De sorte que, para ela, era um pecador e, como — ao contrário dela — tinha uma estatura razoavelmente pequena, era um pequeno pecador. Já Bernard Shaw era a seus olhos um homem bem diferente, tratava-se de alguém como ela, desinteressado do sexo, alguém que tinha coisas mais interessantes para falar e das quais sempre falava.” (p. 87)

“Eu próprio era mais ouvinte do que analista, e ouvi tanto que haveria algumas centenas de volumes para escrever, caso ainda lembrasse de tudo. Mesmo a fração que consegui conservar seria suficiente para alguns livros. Mas nem cogito proceder à exploração desta fonte. Só quero manter vivos alguns caracteres, que na época se tornaram personagens para mim, e assim permaneceram, ainda que não os veja há décadas. Quero livrar-me da abundância de personagens ingleses.” (p. 103)

“Eu o ouvia fascinado. Era um tom ao qual não estava acostumado nessa casa. Enoch Powell tinha fama de ser um orador apaixonado no parlamento e não menos apaixonado era aqui como convidado. Aqui também podia mostrar sem escrúpulos o quanto sabia, o que no parlamento ou na vida inglesa em geral era considerado inconveniente. [...] Nenhum dos convidados presentes naquela noite sabia alemão. Mas evidentemente era mais do que a língua que o atraía em Nietzsche, era a vontade de poder: dificilmente encontrei um antípoda tão completo de tudo que represento. Porém, não revelei minhas próprias opiniões.” (p. 107-108)

“Nessa casa presenciei uma festa sob bombas. Foi depois da Batalha da Inglaterra. Naqueles dias de setembro do ano 1940, via-se de Hampstead Heath, onde morávamos então, os combates entre aviões britânicos e alemães. Em pleno dia, olhava-se para o céu e seguiam-se os rastros dos aviões como um evento esportivo. Era tão excitante que só se pensava nos combates em si. Talvez se ficasse um tanto orgulhoso que os ingleses se saíssem tão bem, afinal acontecera Dunquerque. Aqui, porém, pairava no ar a impressão de que os alemães acertavam mais vezes do que os ingleses. As consequências desses combates preocupavam menos, não se podia saber quanto se dependia deles.” (p. 140)