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ÁDEN, ARÁBIA Prefácio de Jean-Paul Sartre |
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“Chegou a hora de destruir e desnudar aqueles manequins de pele, de ossaturas e de cálculos que eu tomava por invencíveis demônios. Chegou a hora de declarar guerra aos motivos do medo. De sujar as mãos; sempre haverá tempo para ter irmãos. Estou em posição de guerrear para livrar-me completamente do medo que me atingia com uma flecha, até na Arábia, quando tinha o direito de me julgar em um lugar afastado e enfim pacífico. A fuga não serve para nada. Fico aqui; se vou à luta, o medo se evapora.”
O livro
Nesta obra que já se tornou um clássico da literatura de viagem, o filósofo Paul Nizan se engaja de corpo e alma numa viagem à Arábia que na verdade é uma viagem de descobrimento interno. Tolhido numa Europa estreita, colonialista, deprimida e sobre a qual pairam os prenúncios de um novo conflito a partir das cinzas ainda fumegantes da Primeira Guerra Mundial, além de um mal-estar evidente frente aos problemas ideológicos que assolam a União Soviética e o ideário comunista de que era adepto, Nizan larga tudo, pega um navio rumo a Áden, protetorado britânico na confluência do mar Vermelho e do mar Arábico, em empreendimento de limpeza de alma que seu amigo do peito e cúmplice de todas as horas Jean-Paul Sartre não hesita em chamar de fuga, suicídio, etc., no pungente libelo à amizade que serve de prefácio a esta obra e que demonstra ao mesmo tempo uma desconfortável incompreensão diante da “última tentação, a derradeira tentativa para achar uma saída individual. A última fuga, também” de seu amigo, que não digeriu o colonialismo in loco, mas passaria mais mal ainda ao retornar às origens (as suas e as do colonialismo), para no final sucumbir sob as balas ideológicas e também muito reais de mais uma dessas guerras que o homem ocidental sabe tão bem manusear.
As páginas de Nizan que restam hoje não são tanto as da “revolta exemplar para os filhos de burgueses. Porque não tem como motivo nem a fome nem a exploração” (Sartre), embora sejam a tônica de uma época e tenham marcado praticamente todos os intelectuais europeus do entre-guerras, e sim os belos apontamentos sobre regiões que parecem estar a mil léguas da metrópole européia. Sabores, brisas, velas e mastros, fragrâncias e peles bronzeadas de tempos que o andar da História revogou. Mas também preciosas páginas sobre o domínio cultural colonial e seu corolário de situações ridículas de um homem branco que já era bem estúpido àquela época, para retomar Michael Moore. Não, Nizan não estava tão errado em seu lamento anticolonial.
Trechos
“Ele não se tornou fotógrafo e triunfei. Mas por pouco tempo: sua partida para Áden me irritou. Adivinhei que, para ele, era questão de vida ou morte. Para me tranqüilizar, pensei nisso como uma nova excentricidade. Vi-me obrigado a confessar que eu não valia nada aos olhos dele. Mas hoje em dia me indago: de quem foi a falha? Onde encontrar recusa mais dura em compreender e, por conseguinte, em ajudar? Quando ele retornava dos bordejos, fugas pânicas, em círculos, com a morte em seu encalço, eu o acolhia sem dizer uma palavra, apertando os lábios com a dignidade de uma velha esposa que se resigna aos ultrajes com a condição de poder se mostrar ofendida (...)” (Sartre, no Prefácio, página 24)
“Afinal, de que sofria Nizan? Por que eu lhe parecia, mais que a todos os outros, irrisório quando falava de nossa liberdade? Se desde os dezesseis anos ele acreditava no inflexível encadeamento das causas, é porque se sentia constrangido e manobrado. “Há em nós divisões, alienações, guerras e palavras.” “Cada homem está dividido entre os homens que poderia ser...” Criança solitária, ele conhecia demais sua singularidade para abraçar idéias universais como eu fiz: escravo, ele buscou a filosofia para se libertar, e Espinosa lhe forneceu o modelo (...)” (Sartre, no Prefácio, página 29)
“Partiu para enterrar sua vida de rapaz. Depois, surgiu o medo: era preciso romper. Áden foi a última tentação, a derradeira tentativa dele para achar uma saída individual. A última fuga, também: a Arábia o atraía como o Sena tinha, algumas vezes, atraído seu pai. Não escreveu mais tarde, em Antoine Bloyé, que “teria desejado abandonar essa existência... para transformar-se em alguém novo, alguém estrangeiro, que seria verdadeiramente ele próprio. Imaginava-se perdido, como um homem que não deixou traços e que faz coisas e respira”. Precisava fugir de nós e de si mesmo (...)” (Sartre, no Prefácio, página 44)
Os homens foram feitos para a ancoragem: o que em qualquer outro lugar é uma sabedoria, aqui é uma loucura negra e voluntária. Eles sabem muito bem viajar pelas mais longas estradas do globo, esmagados como melancias: mal desembarcam nas escalas, agarram-se ao menor bocado de areia. Esses cavadores de muralhas abrem buracos nos rochedos, conduzidos por estranhos desígnios. Tais desígnios chamamos aqui de guerra, comércio, trânsito. Essas palavras justificarão tudo até o fim dos séculos? (página 106)
Tudo nos é arrancado; as escalas chegam, descemos até o cais, esperamos possuir uma cidade, habitantes. Vejam só! O navio retoma seu percurso, uma vez mais você perdeu um lugar humano e uma bela ocasião para ficar tranqüilo. É a verdadeira viagem, em que encerramos, como um culpado no Hades, com os braços estendidos para a fumaça dos navios, os nevoeiros luminosos. Uma viagem é uma cadeia de desaparições irreparáveis. (página 146)
Chegou a hora de destruir e desnudar aqueles manequins de pele, de ossaturas e de cálculos que eu tomava por invencíveis demônios. Chegou a hora de declarar guerra aos motivos do medo. De sujar as mãos; sempre haverá tempo para ter irmãos. Estou em posição de guerrear para livrar-me completamente do medo que me atingia com uma flecha, até na Arábia, quando tinha o direito de me julgar em um lugar afastado e enfim pacífico. A fuga não serve para nada. Fico aqui; se vou à luta, o medo se evapora. (página 170)