![]() |
A ALEGORIA DO PATRIMÔNIO Tradução de Luciano Vieira
Machado |
Compre aqui com nossos parceiros |
| Livraria Cultura | ||
| Submarino | ||
| Saraiva | ||
| Siciliano | ||
| Fnac | ||
Por que o patrimônio histórico, arquitetônico e urbano conquistou atualmente um público mundial? Por que seu conhecimento, conservação e restauração se tornaram um desafio para os Estados do mundo inteiro?
Sobre o livro
Nem seu valor cognitivo e artístico, nem o fato de constituir uma atração em nossa sociedade de lazer o explicam satisfatoriamente. A busca de uma resposta que envolva de forma mais profunda o caráter dessa herança em sua relação com a história, a memória e o tempo, passa, para Françoise Choay, por uma volta às origens, uma arqueologia dos conceitos de monumento e de patrimônio histórico.
Essa investigação, que abrange mais de cinco séculos, esclarece o atual culto do patrimônio e seus excessos, e investiga seus laços profundos com a crise da arquitetura e das cidades. Assim, valiosa e precária, nossa herança arquitetônica e urbana revela-se alegoricamente num duplo papel: espelho cuja contemplação narcisista mitiga nossas angústias, labirinto cujo percurso poderia nos reconciliar com esse apanágio do homem, hoje ameaçado: a competência de edificar.
Texto de orelha
por Maria Isabel Villac (Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal de
Londrina)
A alegoria do patrimônio reconhece a urgência de uma mudança de orientação que possa reverter o desenrolar da indiscriminada e acelerada especulação com os bens patrimoniais. A abordagem das relações estabelecidas com o patrimônio propõe uma reflexão sobre o futuro das sociedades e focaliza os bens culturais representados pela arquitetura e pelas cidades, discutindo e defendendo uma antropologia da apropriação do espaço no tempo, e seu futuro.
O olhar sobre as relações com os artefatos construídos traça uma linha alegórica e evolutiva, dos tempos medievais até a segunda metade do século XX, que clarifica um projeto iniciado com a representatividade dos monumentos - a princípio chamados de antigüidades - e que prossegue estimulando o sentimento de patrimônio e, finalmente, a noção de patrimônio histórico. Esta evolução reconhece um primeiro estágio de ligação afetiva com as obras e um segundo momento em que a distância histórica permite gerar uma abordagem cuidadosa, criteriosa e deliberada de valorização do patrimônio. É através da experiência no decorrer do tempo que uma linhagem de intelectuais, eruditos e colecionadores, amantes da arte, antiquários, ilustrados, historiadores da arte e arquitetos - desde Petrarca, Alberti, Quatremère de Quincy, Viollet-le-Duc, Victor Hugo, Ruskin, Alois Riegel, Camillo Sitte, Gustavo Giovannoni, André Malraux - investigam o tema e ensaiam o trabalho sobre os bens patrimoniais.
Esta evolução parece encontrar, no entanto, seu limite no tempo atual, quando se observa que as ações sobre o que se considera patrimônio tendem a precipitar uma falsa consciência de seu valor. A forma indiscriminada com que, desde os inícios da modernidade racionalista, a natureza da técnica é transformada, passando a mediatizar a relação dos homens com as coisas, além do fato de já não se construírem monumentos, faz que a cultura do patrimônio se afaste cada vez mais do poder de simbolização, opondo-se assim à continuidade de uma competência antropológica de edificar. Esta competência, pela qual os arquitetos têm relações diretas com os terrenos, as águas, os climas, com os ventos, os vegetais e as estações, conhecendo o comportamento dos materiais e as regras de sua utilização, rejeita as relações intermediadas com o ambiente, assim como envolve memória ancestral, entendimento e construção da teoria enquanto reflexão sobre a prática e a experiência.
A transformação do entendimento do patrimônio, nas práticas atuais, como produto de consumo e espetáculo, banaliza a dimensão fundamental que o inaugura. Esquece, pela forma indiscriminada com que se metamorfoseia seu valor de uso em valor econômico, que as decisões desta natureza implicam discutir o destino de obras arquitetônicas e, sobretudo, o futuro das cidades, com base no reconhecimento de seu valor histórico e estético.
Diante da exaustividade simbólica à qual se atribui a interpretação de "síndrome narcisista" — originada na desestabilização da identidade ocasionada pelo desenraizamento do tempo orgânico e do espaço sensorial, geradora de uma forma indiscriminada de culto ao patrimônio, que elimina diferenças e heterogeneidades —, a opção por um destino antropológico pode reconduzir os objetivos de conservação do patrimônio à conservação da capacidade de lhe dar continuidade e substituí-lo. Isso implica liberdade como única forma de relação com o tempo e o espaço, exigindo, cada vez mais, pedagogias especiais que, além do bom senso, se inscrevam em tradições urbanas e comportamentos patrimoniais.
Trechos
"Patrimônio. Esta bela e antiga palavra estava, na origem, ligada
às estruturas familiares, econômicas e jurídicas de uma
sociedade estável, enraizada no espaço e no tempo. Requalificada
por diversos adjetivos (genético, natural, histórico, etc.) que
fizeram dela um conceito "nômade", ela segue hoje uma trajetória
diferente e retumbante.
Patrimônio histórico. A expressão designa um bem destinado
ao usufruto de uma comunidade que se ampliou a dimensões planetárias,
constituído pela acumulação contínua de uma diversidade
de objetos que se congregam por seu passado comum: obras e obras-primas das
belas-artes e das artes aplicadas, trabalhos e produtos de todos os saberes
e savoir-faire dos seres humanos. Em nossa sociedade errante, constantemente
transformada pela mobilidade e ubiqüidade de seu presente, "patrimônio
histórico" tornou-se uma das palavras-chaves da tribo midiática.
Ela remete a uma instituição e a uma mentalidade.
A transferência semântica sofrida pela palavra revela a opacidade
da coisa. O patrimônio histórico e as condutas a ele associadas
encontram-se presos em estratos de significados cujas ambigüidades e contradições
articulam e desarticulam dois mundos e duas visões de mundo.
O culto que se rende hoje ao patrimônio histórico deve merecer
de nós mais que a simples aprovação. Ele requer um questionamento
porque se constitui num elemento revelador, negligenciado mas brilhante, de
uma condição da sociedade e das questões que ela encerra."
(págs. 11-12)
"Representado por um labirinto dissimulado pela superfície cativante de um espelho, o patrimônio arquitetônico e urbano, com as atitudes conservatórias que o acompanham, pode ser decifrado como uma alegoria do homem na aurora do século XXI: incerto da direção em que o orientam a ciência e a técnica, busca um caminho no qual elas possam libertá-lo do espaço e do tempo para, de forma diferente e melhor, deixar que os invista". (pág. 258)