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O ANJO AZUL Tradução de Erlon José
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Um clássico absoluto da literatura alemã do século XX que originou o famoso filme homônimo de Josef von Sternberg.
Ambiente esfumaçado e de alegrias baratas regadas a muita cerveja. Nenhuma outra obra terá retratado de forma mais fiel e duradoura o ambiente carregado dos cabarés alemães do início do século XX. Contra esse pano de fundo, assistimos à progressiva derrocada do que poderia ser um tiraneco vendo seu reino ser contestado pelos ventos da História, mas que personifica um singular estado de espírito: os ares de fim de festa da Alemanha imperial sob influência prussiana, com tudo o que ela tem de conservadora e rígida, porém levando às últimas conseqüências um burocratismo iluminado de moral dupla.
Não por acaso, Unrat, cujo apelido coincide sintomaticamente com detrito e congêneres, enquanto fustiga seus alunos a golpes de traduções de Homero e de redações sobre Schiller, vê-se enlaçar rumo à perdição pelos tentáculos de uma “dançarina de pés descalços”, que o leva às últimas conseqüências na “desmoralização de uma cidade inteira”, embora sem deixar oficialmente sua “visão sequiosa da humanidade oprimida implorando por misericórdia”.
O Anjo Azul (Professor Unrat), a obra mais conhecida de Heinrich Mann, entrou para a história 25 anos depois de sua publicação graças à memorável interpretação de Marlene Dietrich e Emil Jannings nos papéis principais, na antológica filmagem de Josef von Sternberg.
Do posfácio da edição alemã
Heinrich Mann escreveu seu romance O Anjo Azul ou a queda de um tirano em “poucos meses, de fins de 1903 em Florença até agosto de 1904 em Ulten (Alto Ádige)”. Numa carta de 2 de abril de 1922 dirigida a Paul Hatvani, Heinrich Mann assim se manifestou sobre a concepção e inspiração imediata do livro: “Meus romances têm caráter francamente sociológico. As relações humanas ali apresentadas têm por fundamento as relações de poder na sociedade. A idéia que elaboro com mais freqüência é a do poder. Incidentes aos quais ninguém daria importância sempre me conduzem de volta a essa idéia, e quanto mais demorado esse processo, maior sua nitidez. Certa vez, eu estava sentado no Teatro Alfieri em Florença, sem nenhum pensamento específico; quando chegou o intervalo, comprei um jornal e li uma notícia de Berlim sobre um tal Professor X, que passou pelos mais tristes infortúnios devido a uma ligação afetiva com uma cantora de cabaré. Nesse momento de inspiração e abandono, o Professor Unrat começou a viver. Constatei mais tarde que a pessoa que realmente o inspirara era na verdade um redator da Bolsa de Valores. Para mim, no entanto, aquela figura fora do comum era desde o primeiro instante um professor de ginásio, um homem de disciplina e autoridade firmes, fadado a decair, dissolver-se em anarquia e mostrar a face oculta do tirano...”
Em 15 de setembro de 1905, numa carta para Ludwig Ewers, o autor observaria ainda: “Meu Professor Unrat tem alcançado algum sucesso, contra minhas expectativas. Em termos de conteúdo, parece representar o máximo que a inteligência pública consegue assimilar.”
Trechos
“Ele subiu as escadas de cinco em cinco, abriu a porta da classe com violência, passou precipitadamente pelas carteiras e saltou, agarrado à sua mesa, para cima do tablado. Permaneceu ali tremendo e precisou respirar fundo. Os alunos tinham se levantado para cumprimentá-lo, e o barulho extremo extinguiu-se de repente num silêncio dos mais atordoantes. Eles olharam para o professor como se ele fosse uma besta perigosa que infelizmente não lhes era permitido abater (...)” – p. 11
“A artista Fröhlich tinha de ser encontrada por um caminho diferente. Unrat começou a apurar com as pessoas que encontrava se alguém sabia algo a respeito dela. Eram carregadores, criadas, o lampionista, uma jornaleira. Com o povo não era possível se entender: tinha tido a experiência. Sua vivência mais recente o convidava também a ser cuidadoso no contato com desconhecidos. O mais sábio era procurar um rosto já familiar. Justamente do buraco seguinte surgiu alguém para quem Unrat, no ano anterior, gritara versos latinos, dando-lhes uma entonação furiosa.” – p. 31
“Os primeiros boatos sobre a nova conduta de Unrat acharam ali uma porta aberta para a cidade. E a cidade não acreditou neles de imediato. Os alunos do velho Unrat afirmavam hoje que ele tinha trancafiado a empregada no cubículo, e no dia seguinte, alguma outra coisa. Isso era costumeiro, e a cidade não fazia mais do que sorrir.” – p. 117
“Nessa cidade antiga que não oferecia outra escapatória do tédio da respeitabilidade familiar a não ser algum vício rudimentar e tedioso, o casarão defronte à porta da cidade transformava-se no local onde se jogavam altas quantias, bebia-se caro e onde se encontravam pessoas do sexo feminino que não eram totalmente prostitutas, mas também não eram damas; onde a dona da casa, uma mulher casada, a esposa do professor Unrat, cantava maliciosamente, dançava de modo inconveniente e, quando se agia corretamente, era até mesmo possível tê-la por alguma bagatela — esse casarão assombroso defronte à porta da cidade se revestia de brilhos fabulosos, com aquele ar prateado cintilante que envolve os palácios das fadas.” – p. 202
“Ele teria sido feliz se tivesse ficado ainda mais forte; se numa crise de seu destino, que era de fato a misantropia, ele não tivesse se entregado à artista Fröhlich. Ela era o reverso de sua paixão: ela devia receber tudo, na mesma proporção em que os outros perdiam tudo. Quanto mais todos os outros mereciam ser esmagados, mais ela necessitava de cuidados. Recaía sobre ela seu superaguçado impulso afetivo de misantropo.” – p. 209