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O ANJO SILENCIOSO Prefácio de Prof. Dr. Paulo Soethe
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A obra
Primeiro romance de Heinrich Böll, O anjo silencioso foi concluído em 1950, mas, por razões biográficas e econômicas, mesmo na Alemanha só veio a público em edição póstuma, de 1992, quando o autor completaria 75 anos.
A história do regresso do soldado Hans a sua cidade em ruínas, ao fim da Segunda Guerra Mundial; seu encontro com Regina e o amor que nasce entre ambos, com momentos de lirismo e candura hoje raros; a trama de herança em que se vêem indiretamente envolvidos, sinal da perpetuação de estruturas de poder vigentes na Alemanha hitlerista; a presença do intelectual católico Dr. Fischer, como antagonista patético mas decisivamente perigoso; o encontro de Hans com a solidariedade espontânea e firme do capelão em uma pequena igreja em ruínas; o simbólico encontro com a estátua de um anjo caído, que afundará na lama sob o peso da arrogância intelectual e da avidez por dinheiro, eis aí os elementos que servem de material à composição de um texto envolvente e profundamente humano.
Böll e seus contemporâneos, como bem revela O anjo silencioso, constituíram uma geração de homens e mulheres marcados de forma irremediável pela Segunda Grande Guerra. Suas vivências, após o fim do conflito, em 1945, foram transformadas pela miséria material, pela submissão à presença maciça de exércitos estrangeiros, pela descoberta da inconsistência e absurdo das crenças políticas do passado e pelo pasmo diante das atrocidades cometidas durante a guerra (para alguns até então desconhecidas).
Trechos
“A figura na escuridão não se moveu; segurava na mão algo que parecia uma vara — ele se aproximou hesitante e, mesmo quando percebeu que era uma estátua, as batidas do seu coração não diminuíram: ele se aproximou mais e reconheceu sob a luz fraca um anjo de pedra com cachos ondulantes que segurava um lírio; inclinou-se para frente até seu queixo quase tocar o peito da figura, e olhou longamente, com uma estranha alegria, para aquele rosto, o primeiro que encontrava na cidade...” (p. 21)
“Também em cima tudo estava escuro e silencioso. Só nos pontos em que se podia ver o céu via-se o tranqüilo e um pouco mais tênue azul das nuvens. Toda a ala esquerda da grande casa estava interditada com grandes lajes de concreto dependuradas, pelas frestas, ele viu quartos escuros, destruídos, e travas horizontais de ferro e sentiu o cheiro repugnante do entulho úmido. À direita, entrou num corredor aberto e subitamente ouviu a respiração de alguém: alguns vãos escuros de portas estavam abertos, os quartos pareciam ocupados, havia um cheiro abafado de suor, urina e camas quentes, e acima de tudo pairava aquele cheiro pesado de sujeira úmida, que parecia ter absorvido a fumaça. Então, ele ouviu com nitidez o ruído de pessoas que respiravam e gemiam, e no canto de um quarto viu a ponta vermelha e incandescente de um cigarro.” (p.31)
“Pouco a pouco as pessoas se juntaram na estação; não se via de onde provinham, pareciam nascer dos montes, invisíveis, inaudíveis, ressuscitar desse plano do nada, fantasmas cujo caminho e cujo destino eram irreconhecíveis: figuras com pacotes e sacos, caixas de papelão e madeira, cuja única esperança parecia ser o cartaz de papelão amarelo com o grande H verde: surgiam silenciosamente e se enfileiravam mudas num bloco denso, que só mostrou vida quando se ouviu o ranger e tilintar do bonde...” (p. 69)
“A perspectiva de receber algo para comer despertou-lhe novamente a fome; ele subia: aquele estranho bocejo violento e vazio, que crispava suas bochechas como se fosse uma cãibra: aquela nuvem de ar, aquele soluço exigente que deixava um gosto ruim na boca e que ao mesmo tempo o enchia de desespero: comer, pensou, é uma necessidade implacável que vai me perseguir por toda a vida; trinta, quarenta anos ainda ele teria que comer diariamente, pelo menos uma vez por dia, milhares de refeições ainda lhe eram destinadas, refeições que ele teria que arranjar de alguma forma: uma corrente desesperadora de necessidades, que o enchia de horror.” (p. 143)
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Romance finca
as garras na má consciência alemã Marcelo Pen, Folha de S. Paulo, Ilustrada, 15/5/2004 |