ARMANCE
ou Algumas cenas de um salão parisiense em 1827

Stendhal (Henri Beyle)

Tradução de Leila de Aguiar Costa
288 p. | 16 x 23 cm
ISBN: 85-7448-085-1
R$ 34,40

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“De todos os livros de Stendhal, este é o mais delicado e o mais belamente escrito.”
André Gide

“De tal modo original em sua incorreção e em sua aparente despreocupação que permaneceu típico.”
Émile Zola

“Poucos são os leitores, não mais que cem, que reconhecem o valor de um autor que por muito tempo permanecerá incompreendido. O próprio Stendhal confessa, em diversos de seus escritos – literários ou “ideológicos”, para empregar seu termo – que escreve para um público leitor restrito, uns poucos eleitos, aqueles a quem chama, emprestando uma célebre tirada teatral de Shakespeare, os happy few.”
Trecho da apresentação de Leila de Aguiar Costa

 

A obra

Armance é, cronologicamente, o primeiro dos grandes romances de Stendhal. Quando comparado a obras-primas como O vermelho e o negro e A cartuxa de Parma, porém, este romance de 1827 é considerado ambíguo — e isso por uma razão muito simples: toda a trama é articulada ao redor de um segredo sobre a vida do protagonista que nunca é revelado, o que tornaria obscuras as motivações deste livro sobre o amor idealizado e a renúncia ao casamento. A chave para se entender a trama estaria numa carta de Stendhal a Mérimée (publicada na presente edição), na qual ele explicita o motivo que impede a consumação do amor entre o visconde Octave de Malivert e sua prima, Armance de Zohiloff: seu herói sofre de babilanismo, ou seja, impotência sexual.

De fato, um romance diante do qual o leitor depende de informações extraliterárias para captar o sentido da narrativa poderia ser considerado imperfeito. Mas isso só é verdade se confundirmos a intenção inicial de Henri Beyle (verdadeiro nome do escritor) com a realização de Stendhal (nome pelo qual ficou conhecido).

A julgar pelo tom lúbrico que permeava sua correspondência com Mérimée, ele queria escrever um romance que satirizasse o ideal do amor romântico. O resultado, porém, é bem diferente: como a suposta anomalia permanece oculta, toda a torturante aproximação dos dois amantes se dá sob o signo do desafio a preconceitos sociais, políticos e econômicos.

Stendhal faz da misantropia de Octave e da integridade de Armance a metonímia de um ardor passional que sobrevive a uma sociedade de nobres decadentes e banqueiros, um mundo regido por contratos matrimoniais, em que o casamento poderia pacificar o tumulto do coração. Nesse sentido, Armance é um livro que mergulha como nenhum outro nas sutilezas do jogo amoroso, antecipando aquele culto à energia individual que, em seus romances posteriores, Stendhal irá contrapor ao desencantamento do mundo burguês.

 

Trechos

“Octave fugiu do salão da senhora de Bonnivet, o mundo causava-lhe horror; deixou a carruagem da família para seu tio e voltou a pé para casa. Chovia torrencialmente e a chuva dava-lhe prazer. Logo, não mais notou a espécie de tempestade que inundava Paris naquele momento.” (pág. 45)

“Ele tivera então a fraqueza de violar as promessas que se fizera tantas vezes! Um único instante havia destruído a obra de toda a sua vida. Acabava de perder todos os direitos à sua própria estima. Doravante, o mundo se fechava para ele: não tinha virtude suficiente para nele viver. Não lhe restava senão a solidão e a moradia nos confins de algum deserto. O excesso da dor que sentia e sua chegada imprevista teriam podido causar um pouco de perturbação à mais resoluta das almas.” (pág. 161)



Em Armance, uma misteriosa história de amor
Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo, Caderno 2, 18/1/2004

Dois momentos da obra complexa de Stendhal
Marta Kawano, Jornal do Brasil, 10/4/2004