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BAIXO CALÃO
Tradução
de Ignacio
Antonio Neis e Michel Peterson |
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“Não há somente desespero e morrer no autor de Baixo calão; há primeiramente e antes de mais nada, mas perceptíveis no nível das raízes fervilhantes, dos rizomas trêfegos, um universo seminal, uma língua vesicular, uma semiologia espermática e especular. Algo bem adulto, ora! Uma obra, ao encontro de e de encontro a tudo! Uma seqüência de atos poéticos, que aumentam o mundo.” (Michel Peterson, no posfácio do livro)
A obra
A Estação Liberdade anuncia o lançamento de Baixo calão, livro do mais festejado e laureado escritor contemporâneo do Canadá francês. Neste romance ambientado na contracultura montrealense dos anos 70, Réjean Ducharme revela seu gosto pelo desvario, seu canto desesperançoso e seu estilo inimitável. Sua escrita descreve um universo pessimista, tingido de humor com jogos de palavras e trocadilhos, e sua grande sensibilidade à linguagem cria personagens lúcidos que parecem nunca estar em seu lugar.
Baixo calão conta a história de Johnny, narrador do livro, que leva uma vida infernal entre sua companheira, a combativa Exa Torrente, e a amiga de todas as horas, que ele chama de sua Tarazinha. Essa, por sinal, é a mulher de seu irmão adotivo Julien. Johnny também estabelece uma relação com Pope, garçonete naquele tipo de bar onde o pessoal do sexo feminino se agita e roça na frente dos clientes.
Enquanto ocorrem esses encontros e desencontros, Johnny mantém um diário. O que conta o autor desses escritos, em quem Johnny vê um outro ele mesmo, é uma vida comparável à sua, à de Exa, de Tarazinha, de Julien, de Pope... E ninguém ficaria surpreso se essas duas histórias acabassem por se entrelaçar.
Baixo calão foi publicado originalmente com o título de Gros mots em 1999 pela editora francesa Gallimard. Em francês, Gros mots significa blasfêmias, grosserias, licenciosidades e até obscenidades. Esta difícil e criativa tradução de Ignacio Antonio Neis e Michel Peterson preserva o entrelaçamento da língua padrão com o uso do baixo calão, uma manipulação pessoal da sintaxe, do léxico e da pontuação, além de inúmeras expressões idiomáticas, muitas vezes adaptadas com ironia, bem como jogos de sonoridades e rimas internas.
Trechos
“’O que é que você está fazendo?’ Apaguei a luz e permaneço ali, com nada que lhe sobreviverá quando ela adormecer, a não ser a tequila para me reabastecer. ‘Não o estou ouvindo!...’ Não respondo, para não me deixar atrair para sua cama, e cair dentro, me enterrar até que ela se tenha fechado sobre mim, com aqueles dentes que me dilacerarão todo o interior quando soar a hora do dilaceramento que já soa, que não pára de soar, em algum lugar onde sempre é tarde demais. ‘Venha despedir-se de mim!... Cara!...’ Pronto, sinto-me escorregar, desfalecer.” (p. 26)
“Voltei a raspar, a arranhar, a ralar a noite até o fundo, nada saiu, nenhuma palavra que tenha minha voz, sua voz, nenhuma palavra para nos nomear nem a um nem ao outro, estavam todas ocupadas. Destruí tudo e adormeci em meus destroços. Mas hoje de manhã a página estava em branco.” (p. 37)
“Tem disso. Põe-se de joelhos e bate no túmulo, espraiando-se para colar nele a orelha e ver se responde. Depois se estende toda e me convida a acompanhá-la, ao abrigo da sombrinha, mais ou menos como na praia. Depois pede que eu feche os olhos com ela e contemple nosso futuro, olhe como vai ser sombra e água fresca... Por um certo lado, digamos o outro lado, sou toda sua, toda sua, sabe?... São tontarias, é poesia, não há como responder a isso...” (p. 74)
"Ele não imagina que vai fazê-la engolir isso?... Não
se sairia melhor com a verdade, mais inverossímel ainda para aquela louca cuja
loucura, que o conquistou, só o faz encontrar sentido no prazer que ri de tudo o
que não é ele, que o saqueia e o escarnece para mostrar sua força... Por mais
bêbedo que estivesse e por mais que se prestasse a representar um papel odioso,
já começa a ter saudade de quando ela era tentadora e de quanto ele era tentado,
tentações todas confundidas no fogo de seus olhos, quando ela lhe pediu para
livrar-se da velha... ‘Eu me arrasto na lama por você, faça algo por mim,
mostre-me o que valho para você, afane-lhe a meia de lã e jogue-a do alto da
ponte por mim, num saco de lixo...’" (p. 197)