ROLAND BARTHES POR ROLAND BARTHES
Roland Barthes

Tradução: Leyla Perrone-Moisés
216 p., 14 x 21 cm
ISBN-10: 85-7448-075-4
ISBN-13: 978-85-7448-075-6
R$ 36,50

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Que direito tem meu presente de falar de meu passado?

O prazer do texto corre todo este livro.

Pela dificuldade em ser classificado, quando de seu lançamento (1975 na França, 1977 no Brasil), Roland Barthes por Roland Barthes acabou sendo definido pelo que não era: nem uma autobiografia nem um livro de “confissões” (embora com muitos elementos de um e de outro). Afinal, a primeira frase, manuscrita, do livro é que “Tudo isto deve ser considerado como dito por um personagem de romance”.

Compondo o livro por fragmentos, Barthes deu-se a oportunidade de ser levado apenas por sua imaginação e pelo gosto da escrita. Daí surgem evocações de sua infância e juventude, reflexões sobre suas experiências de vida, sobre seus autores e leituras preferidas, sobre seu trabalho teórico, sobre utopias, sobre ficção e teatro, sobre a linguagem, sobre as palavras...

“Escrever por fragmentos: os fragmentos são então pedras sobre o contorno do círculo: espalho-me à roda: todo o meu pequeno universo em migalhas; no centro, o quê?” No centro está um retrato em múltiplas dimensões do próprio Barthes que esclarece o projeto de um dos mais criativos e interessantes intelectuais de nosso tempo.

 

Trechos

“Toda lei que oprime um discurso é insuficientemente fundamentada.” (p. 44)

“Muitos textos de vanguarda (ainda não publicados) são incertos: como julgá-los, retê-los, como predizer-lhes um futuro, imediato ou longínquo? Eles agradam? Aborrecem? Sua qualidade evidente é de ordem intencional: eles se apressam a servir à teoria. No entanto, essa qualidade é também uma chantagem (uma chantagem à teoria): goste de mim, guarde-me, defenda-me, já que eu sou conforme à teoria que você reclama; não estou fazendo o que fizeram Artaud, Cage, etc.? – Mas Artaud não é somente ‘vanguarda’; é também escritura; Cage tem também sedução...” (p. 67)

“Para que serve a utopia? Para fazer sentido. [...] A utopia é familiar ao escritor, porque o escritor é um doador de sentido: sua tarefa (ou seu gozo) consiste em dar sentidos, nomes, e ele só o pode fazer se houver paradigma, desencadeamento do sim/não, alternância de dois valores: para ele, o mundo é uma medalha, uma moeda, uma dupla superfície de leitura, cujo avesso é ocupado por sua própria realidade e cujo direito, pela utopia.” (p. 91)

“A elipse, figura mal conhecida, é perturbadora pelo fato de representar a assustadora liberdade da linguagem [...]” (p. 93)

“Utopia (à moda de Fourier): a de um mundo onde só houvesse diferenças, de modo que diferenciar-se não seria mais excluir-se.” (p. 99)

“Escrever por fragmentos: os fragmentos são então pedras sobre o contorno do círculo: espalho-me à roda: todo o meu pequeno universo em migalhas; no centro, o quê?” (p. 108)

“Comentar-me? Que tédio! Eu não tinha outra solução a não ser a de me re-escrever – de longe, de muito longe – de agora: acrescentar aos livros, aos temas, às lembranças, aos textos, uma outra enunciação, sem saber jamais se é de meu passado ou de meu presente que falo. Lanço assim sobre a obra escrita, sobre o corpo e o corpus passados, tocando-os de leve, uma espécide de patchwork, uma coberta rapsódica feita de quadrados costurados. Longe de aprofundar, permaneço na superfície, porque desta vez se trata de ‘mim’ do Eu) e porque a profundidade pertence aos outros.” (p. 160)