CARTA A CHRISTOPHE DE BEAUMONT E OUTROS ESCRITOS SOBRE A RELIGIÃO E A MORAL
Jean-Jacques Rousseau

Organização e apresentação de José Oscar de Almeida Marques.
Tradução de Adalberto Luis Vicente, Ana Luiza Silva Camarini, José Oscar de Almeida Marques e Maria Cecilia Queiroz de Moraes Pinto
240 p. | 14 x 21 cm
ISBN: 85-7448-110-6
R$ 40,00

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A OBRA

Jean-Jacques Rousseau foi um dos filósofos mais ativos e polêmicos do século XVIII. Ao lado de Montesquieu, Voltaire, Diderot e d'Alembert, participou da grande empreitada do Esclarecimento, combatendo as trevas, a ignorância e o preconceito que ainda tolhiam os homens na segunda metade daquele século. Em função das severas críticas disparadas contra a Igreja, e também contra a nascente sociedade da época em que vivia – apesar dos princípios racionais e liberais das novas forças que se organizavam, Rousseau acreditava que estas haviam falhado em promover o incremento das condições morais e materiais dos homens rumo à liberdade, felicidade e dignidade de cada um – acabou sofrendo perseguições ao longo da vida, tanto por parte de conservadores como de ateus.
Com o objetivo de levar o público brasileiro a experimentar o impacto das idéias revolucionárias deste filósofo de Genebra, cujo pensamento continua tão atual, a Estação Liberdade traz, pela primeira vez reunidos em língua portuguesa, uma série de textos do autor sobre a religião e suas implicações nos campos da educação, da política e da moral.
A coletânea de escritos, em sua maioria originalmente concebidos como cartas de Rousseau a amigos mas também a inimigos, demonstra a evolução do pensamento do autor de Emílio, ou Da educação e do Contrato social , assim como a inquestionável qualidade poética e literária de seus textos.
Neste volume, reacendemos a chama da polêmica envolvendo a obra de Rousseau, ao apresentar a famosa carta escrita por ele em resposta à Carta Pastoral – a qual reproduzimos na íntegra – na qual o Arcebispo de Paris condenava a leitura e a posse de Emílio , sob a alegação de destruição dos fundamentos da doutrina cristã.
Além destes dois importantes documentos, trazemos as cartas ao Sr. de Malesherbes , ambígua figura que foi protetor de Rousseau, de Diderot e dos enciclopedistas mas ao mesmo tempo Diretor da Censura, tendo participado tanto do processo de elaboração de Emílio quanto de sua proibição; as polêmicas cartas sobre a Providência, nas quais Rousseau antagoniza com Voltaire sobre a benevolência divina; as missivas nunca enviadas para sua destinatária, a amada Condessa Élisabeth-Sophie-Françoise d' Houdetot, um verdadeiro exercício de “catecismo moral”; as reflexões sobre o agnosticismo religioso nas cartas ao enigmático Senhor de Franquières; bem como uma série de pequenas reflexões e exultações a Deus e à religião.

TRECHOS

“Nasci com um amor natural pela solidão que só fez aumentar conforme conhecia melhor os homens. Sinto-me mais à vontade com os seres quiméricos que reúno à minha volta do que com aqueles os quais vejo no mundo, e a sociedade que a imaginação inventa em meu refúgio acaba por me desgostar de todas aquelas que deixei. Presumis que estou infeliz e consumido pela melancolia. Oh! Senhor, quanto vos enganais! Era em Paris que me sentia assim; era em Paris que uma bílis negra devorava-me o coração, e a amargura dessa bílis se faz demasiado sentir em todos os escritos que publiquei enquanto lá estive.” (p. 20, Cartas a Malesherbes)

“A maior parte dos novos cultos se estabelece pelo fanatismo e se mantém pela hipocrisia; daí segue que ofendam a razão e não conduzam à virtude. O entusiasmo e o delírio não raciocinam; enquanto duram, tudo se aceita e pouco se regateia sobre os dogmas. E, além disso, é tão cômodo! Custa tão pouco seguir uma doutrina, e custa tanto praticar a moral, que, aderindo ao lado mais fácil, a falta das boas obras é compensada pelo mérito de uma grande fé.” (p. 83, Carta a Beaumont)

“Sem deixar o assunto de Lisboa, convinde, por exemplo, que a natureza não reuniu ali vinte mil casas de seis a sete andares, e que se os habitantes dessa grande cidade tivessem sido distribuídos mais igualmente, e vivessem de maneira mais modesta, o dano teria sido muito menor, e talvez nulo. Todos teriam fugido ao primeiro abalo, e poderiam ser vistos no dia seguinte a vinte léguas de lá, tão alegres como se nada houvesse acontecido; mas é preciso permanecer, obstinar-se ao redor das habitações, expor-se a novos tremores, porque o que se abandona vale mais do que o que se pode levar. Quantos infelizes pereceram nesse desastre por querer pegar, um suas roupas, outro seus papéis, outro seu dinheiro? Acaso não se sabe que a pessoa de cada homem tornou-se a menor parte dele mesmo, e que quase não vale a pena salvá-la quando se perde todo o resto?” (p. 123, Carta de J.-J. Rousseau ao Senhor de Voltaire)

“O objetivo da vida humana é a felicidade, mas quem de nós sabe como atingi-la? Sem um princípio, sem uma meta segura, vagamos de desejo em desejo, e os que conseguimos satisfazer deixam-nos tão longe da felicidade quanto estávamos antes de obter qualquer satisfação. Não temos uma regra invariável nem na razão, à qual faltam sustentáculo, apoio e consistência, nem nas paixões, que sem cessar se sucedem e se destroem mutuamente. Vítimas da cega inconstância de nossos corações, o gozo dos bens desejados só abre caminho para penas e privações; tudo o que possuímos só serve para nos mostrar o que nos falta, e, por não saber como se deve viver, morremos todos sem ter vivido.” (p. 146, Cartas morais).




Rousseau, religião e moral
Revista Cult,dezembro de 2005