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CARTA A CHRISTOPHE DE BEAUMONT E OUTROS ESCRITOS
SOBRE A RELIGIÃO E A MORAL Organização e
apresentação de José Oscar de Almeida Marques. |
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A OBRA
Jean-Jacques Rousseau foi um dos
filósofos mais ativos e polêmicos do século XVIII. Ao lado de
Montesquieu, Voltaire, Diderot e d'Alembert, participou da grande empreitada do
Esclarecimento, combatendo as trevas, a ignorância e o preconceito que
ainda tolhiam os homens na segunda metade daquele século. Em
função das severas críticas disparadas contra a Igreja, e
também contra a nascente sociedade da época em que vivia
apesar dos princípios racionais e liberais das novas forças que se
organizavam, Rousseau acreditava que estas haviam falhado em promover o
incremento das condições morais e materiais dos homens rumo à
liberdade, felicidade e dignidade de cada um acabou sofrendo
perseguições ao longo da vida, tanto por parte de conservadores como
de ateus.
Com o objetivo de levar o público brasileiro a experimentar o impacto das
idéias revolucionárias deste filósofo de Genebra, cujo
pensamento continua tão atual, a Estação Liberdade traz, pela
primeira vez reunidos em língua portuguesa, uma série de textos do
autor sobre a religião e suas implicações nos campos da
educação, da política e da moral.
A coletânea de escritos, em sua maioria originalmente concebidos como
cartas de Rousseau a amigos mas também a inimigos, demonstra a
evolução do pensamento do autor de Emílio, ou Da
educação e do Contrato social , assim como a
inquestionável qualidade poética e literária de seus textos.
Neste volume, reacendemos a chama da polêmica envolvendo a obra de
Rousseau, ao apresentar a famosa carta escrita por ele em resposta à Carta
Pastoral a qual reproduzimos na íntegra na qual o Arcebispo
de Paris condenava a leitura e a posse de Emílio , sob a
alegação de destruição dos fundamentos da doutrina
cristã.
Além destes dois importantes documentos, trazemos as cartas ao Sr. de
Malesherbes , ambígua figura que foi protetor de Rousseau, de Diderot
e dos enciclopedistas mas ao mesmo tempo Diretor da Censura, tendo participado
tanto do processo de elaboração de Emílio quanto de
sua proibição; as polêmicas cartas sobre a Providência, nas
quais Rousseau antagoniza com Voltaire sobre a benevolência divina; as
missivas nunca enviadas para sua destinatária, a amada Condessa
Élisabeth-Sophie-Françoise d' Houdetot, um verdadeiro exercício
de catecismo moral; as reflexões sobre o agnosticismo
religioso nas cartas ao enigmático Senhor de Franquières; bem como
uma série de pequenas reflexões e exultações a Deus e
à religião.
TRECHOS
“Nasci com um amor natural pela solidão que só fez aumentar conforme conhecia melhor os homens. Sinto-me mais à vontade com os seres quiméricos que reúno à minha volta do que com aqueles os quais vejo no mundo, e a sociedade que a imaginação inventa em meu refúgio acaba por me desgostar de todas aquelas que deixei. Presumis que estou infeliz e consumido pela melancolia. Oh! Senhor, quanto vos enganais! Era em Paris que me sentia assim; era em Paris que uma bílis negra devorava-me o coração, e a amargura dessa bílis se faz demasiado sentir em todos os escritos que publiquei enquanto lá estive.” (p. 20, Cartas a Malesherbes)
“A maior parte dos novos cultos se estabelece pelo fanatismo e se mantém pela hipocrisia; daí segue que ofendam a razão e não conduzam à virtude. O entusiasmo e o delírio não raciocinam; enquanto duram, tudo se aceita e pouco se regateia sobre os dogmas. E, além disso, é tão cômodo! Custa tão pouco seguir uma doutrina, e custa tanto praticar a moral, que, aderindo ao lado mais fácil, a falta das boas obras é compensada pelo mérito de uma grande fé.” (p. 83, Carta a Beaumont)
“Sem deixar o assunto de Lisboa, convinde, por exemplo, que a natureza não reuniu ali vinte mil casas de seis a sete andares, e que se os habitantes dessa grande cidade tivessem sido distribuídos mais igualmente, e vivessem de maneira mais modesta, o dano teria sido muito menor, e talvez nulo. Todos teriam fugido ao primeiro abalo, e poderiam ser vistos no dia seguinte a vinte léguas de lá, tão alegres como se nada houvesse acontecido; mas é preciso permanecer, obstinar-se ao redor das habitações, expor-se a novos tremores, porque o que se abandona vale mais do que o que se pode levar. Quantos infelizes pereceram nesse desastre por querer pegar, um suas roupas, outro seus papéis, outro seu dinheiro? Acaso não se sabe que a pessoa de cada homem tornou-se a menor parte dele mesmo, e que quase não vale a pena salvá-la quando se perde todo o resto?” (p. 123, Carta de J.-J. Rousseau ao Senhor de Voltaire)
“O objetivo da vida humana é a felicidade, mas quem de nós sabe como atingi-la? Sem um princípio, sem uma meta segura, vagamos de desejo em desejo, e os que conseguimos satisfazer deixam-nos tão longe da felicidade quanto estávamos antes de obter qualquer satisfação. Não temos uma regra invariável nem na razão, à qual faltam sustentáculo, apoio e consistência, nem nas paixões, que sem cessar se sucedem e se destroem mutuamente. Vítimas da cega inconstância de nossos corações, o gozo dos bens desejados só abre caminho para penas e privações; tudo o que possuímos só serve para nos mostrar o que nos falta, e, por não saber como se deve viver, morremos todos sem ter vivido.” (p. 146, Cartas morais).
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Rousseau,
religião e moral |