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A BELA SENHORA SEIDENMAN Tradução:
Henryk Siewierski |
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Poucos
autores conseguem
controlar, com tanto conhecimento e clareza, uma rica galeria de
personagens
como faz o escritor polonês Andrzej Szczypiorski (1924-2000) neste
romance. É no cotidiano abalado pela Segunda Guerra Mundial que o
escritor
busca o retrato complexo do destino da humanidade no século XX.
Com um narrador livre de todas as amarras, que se desloca para frente e
para
trás na linha do tempo, mergulhando no passado e se voltando para o
futuro, Szczypiorski construiu um romance notável. Ele aborda
política, vida social, religião e história, num estilo às
vezes irônico, mas sempre reflexivo, e principalmente poético, que
cativa rapidamente o leitor.
O ponto de partida é a ocupação de Varsóvia pelos
alemães em 1943. A Polônia mais uma vez subjugada. O gueto judeu
resiste, com seus personagens marcantes, como o rebelde Pawełek
Kryński, alter-ego do autor, que surge como um produto do país onde
convivem poloneses, judeus, alemães e outros; seu amigo Henio
Fichtelbaum,
que toma a difícil resolução de sair do gueto para enfrentar o
seu destino; o fora-da-lei Suchowiak, que cobra para contrabandear
judeus para
fora do gueto; o velho ferroviário socialista Filipek, que se engaja
numa
aliança peculiar com o alemão Müller — e toda uma rede de
vizinhança — para salvar dos porões da Gestapo a bela senhora
Seidenman, que com documentos falsos se passa por viúva de um oficial
polonês, e enfrenta, determinada e desafiadora, seu verdugo nazista.
Publicado em 1986, em Paris,
mas em polonês, o
livro circulou semi-clandestinamente na Polônia, pois fazia duras
críticas a toda e qualquer forma de totalitarismo de Estado. O
interesse
crescente pela narrativa, que tratava a guerra de forma complexa,
deixando de
lado as visões maniqueístas, fez com ela fosse traduzida para mais de
vinte idiomas, tornando-se um best-seller na
Europa, e projetando
internacionalmente a carreira de Szczypiorski, também autor de Uma
missa para a cidade de Arras, editado no Brasil, em 2001,
pela
Estação Liberdade.
O tradutor
Henryk Siewierski nasceu em Wroclaw (Polônia). É professor, tradutor e escritor. Formou-se em Literatura Polonesa na Universidade Jaguelloniana de Cracóvia, onde também fez doutorado em Ciências Humanas na área de Literatura. No Brasil desde 1986, é professor do Departamento de Teoria Literária e Literatura da Universidade de Brasília (UnB). Atua nos cursos de Graduação e Pós-Graduação em Literatura.
Trechos
A senhora Irma foi o primeiro amor de Pawełek. Nos tempos de antes da guerra ela morava no mesmo andar do prédio, no apartamento ao lado. Pawełek tinha treze anos quando se apaixonou por ela. Ela era esposa de um médico, o doutor Ignacy Seidenman, um cientista e radiologista. O médico gostava de Pawełek. Ao encontrá-lo na escada, perguntava-lhe sobre a escola, oferecia bombons e uma vez até tinha convidado o menino para o seu gabinete, onde estava o aparelho de raios X. A senhora Irma era uma bela mulher, esbelta, de cabelos dourados e olhos azuis. Já antes da guerra Pawełek sonhava com ela. Quando no meio da noite acordava assustado, não reconhecia o seu corpo, de tão quente, tenso e dolorido que estava. A senhora Irma parecia uma doença, só o fazia sofrer. Quando lhe oferecia balas ou chocolate, ele se sentia humilhado. Queria conquistar terras exóticas, saquear fortalezas, subjugar as hordas inimigas, tudo para ela. Mas não podiam se entender nem se encontrar. Ele ia em sua direção navegando numa embarcação, num galeão de cem canhões, numa canoa indígena, e ela o esperava com um bombom na mão.” [pp. 18-19]
“Pensou, de repente, que a vida é apenas o que passou. Não há outra vida a não ser a recordação. O futuro não existe, não só aqui, atrás das grades, mas em qualquer lugar, também na rua, na floresta, no mar, nos braços do homem amado. A vida é o que foi cumprido, o que lembramos que aconteceu e passou para deixar uma recordação. A vida não pode ser o futuro, pensava Irma Seidenman, porque no futuro eu não existo, não sinto fome, nem sede, nem frio, nem o calor. O que acontecerá em algum tempo e em algum lugar ainda está fora de mim, escondido por detrás de um muro e de uma grade, fora do meu espaço e fora da minha compreensão, ainda nas estrelas longínquas, nos desígnios cósmicos. A minha vida é aqui, porque eu estou aqui, meu corpo e, acima de tudo, a minha memória. A minha vida é apenas o que já aconteceu — mais nada! Então pensar na vida é pensar no passado gravado na memória, e cada instante é passado, porque o fechar das grades é passado, o inclinar da cabeça e o segurá-la nos braços é passado. Foi isso o que já vivi, meu Deus! Não vivi mais nada do que me lembro ter vivido. Além da memória, nada existe.” [p. 28]
“Sabia
que a sua vida
não ia durar muito, porque era um jovem inteligente e não tinha
ilusões. Sabia que ia morrer pela mão do outro, porque seria
assassinado. Mas o rosto do outro homem, a sua voz, o olhar não o
assustavam. O mais difícil é morrer sozinho, na escuridão e no
silêncio. A morte entre os outros, no meio da gritaria, dos olhares e
gestos apertados, parece menos cruel. Henryk Fichtelbaum pensava que a
morte de
um soldado durante um ataque com baionetas deve ser menos terrível do
que
a agonia solitária de um condenado, mesmo se fosse condenado a uma
morte
na cama.
Mas por que eu tenho de morrer, pensou de repente, se ainda nem tenho
dezenove
anos? Será justo? Será minha culpa ter nascido judeu, ter
antepassados judeus, sair de ventre judeu? Com que direito me fizeram
judeu
para em seguida ser condenado à morte por ser judeu?” [p.
45]
“Wiktor
Suchowiak costumava
servir-se de uma alavanca, mas nos tempos em que a sorte lhe sorria
usava um
cassetete. Só empregava a violência em circunstâncias
excepcionais, quando a resistência ou a recusa ultrapassavam os limites
da
sua paciência e colocavam em risco a empresa. Ele não podia concorrer
com divisões de tanques e batalhões de soldados armados com
metralhadoras, nem — tempos depois — com tais instrumentos de
violência como geradores de alta tensão, frio polar, napalm,
chantagem de grupos sociais inteiros, trabalhos forçados,
apartheid, telefones grampeados, e até os
cassetetes comuns nas
mãos dos policiais furiosos nas ruas, ou misteriosos seqüestros das
pessoas incômodas cujos cadáveres foram afundados em barreiros ou
rios, ou seqüestro de aviões cujos passageiros foram mortos um
após outro para obter resgate em dinheiro ou concessões
políticas dos indivíduos, das comunidades ou dos Estados.
No fundo, o primeiro totalitarismo que Wiktor Suchowiak tinha conhecido
quando
Hitler desencadeou uma guerra era o mais cruel, o mais sangrento e
rapinante de
todos, mas também o mais estúpido e bastante primitivo, porque lhe
faltava o requinte do totalitarismo que veio depois. Mas é assim que
acontece com tudo que é obra dos homens. O começo é sempre rude,
e a sofisticação, a perfeição só vem mais
tarde.” [p. 94]