A BELA SENHORA SEIDENMAN
Andrzej Szczypiorski

Tradução: Henryk Siewierski
140 p., 14 x 21 cm
ISBN: 978-85-7448-128-9
R$ 39,00

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Poucos autores conseguem controlar, com tanto conhecimento e clareza, uma rica galeria de personagens como faz o escritor polonês Andrzej Szczypiorski (1924-2000) neste romance. É no cotidiano abalado pela Segunda Guerra Mundial que o escritor busca o retrato complexo do destino da humanidade no século XX.
Com um narrador livre de todas as amarras, que se desloca para frente e para trás na linha do tempo, mergulhando no passado e se voltando para o futuro, Szczypiorski construiu um romance notável. Ele aborda política, vida social, religião e história, num estilo às vezes irônico, mas sempre reflexivo, e principalmente poético, que cativa rapidamente o leitor.
O ponto de partida é a ocupação de Varsóvia pelos alemães em 1943. A Polônia mais uma vez subjugada. O gueto judeu resiste, com seus personagens marcantes, como o rebelde Pawełek Kryński, alter-ego do autor, que surge como um produto do país onde convivem poloneses, judeus, alemães e outros; seu amigo Henio Fichtelbaum, que toma a difícil resolução de sair do gueto para enfrentar o seu destino; o fora-da-lei Suchowiak, que cobra para contrabandear judeus para fora do gueto; o velho ferroviário socialista Filipek, que se engaja numa aliança peculiar com o alemão Müller — e toda uma rede de vizinhança — para salvar dos porões da Gestapo a bela senhora Seidenman, que com documentos falsos se passa por viúva de um oficial polonês, e enfrenta, determinada e desafiadora, seu verdugo nazista.
Publicado em 1986, em Paris, mas em polonês, o livro circulou semi-clandestinamente na Polônia, pois fazia duras críticas a toda e qualquer forma de totalitarismo de Estado. O interesse crescente pela narrativa, que tratava a guerra de forma complexa, deixando de lado as visões maniqueístas, fez com ela fosse traduzida para mais de vinte idiomas, tornando-se um best-seller na Europa, e projetando internacionalmente a carreira de Szczypiorski, também autor de Uma missa para a cidade de Arras, editado no Brasil, em 2001, pela Estação Liberdade.

O tradutor

Henryk Siewierski nasceu em Wroclaw (Polônia). É professor, tradutor e escritor. Formou-se em Literatura Polonesa na Universidade Jaguelloniana de Cracóvia, onde também fez doutorado em Ciências Humanas na área de Literatura. No Brasil desde 1986, é professor do Departamento de Teoria Literária e Literatura da Universidade de Brasília (UnB). Atua nos cursos de Graduação e Pós-Graduação em Literatura.

Trechos

A senhora Irma foi o primeiro amor de Pawełek. Nos tempos de antes da guerra ela morava no mesmo andar do prédio, no apartamento ao lado. Pawełek tinha treze anos quando se apaixonou por ela. Ela era esposa de um médico, o doutor Ignacy Seidenman, um cientista e radiologista. O médico gostava de Pawełek. Ao encontrá-lo na escada, perguntava-lhe sobre a escola, oferecia bombons e uma vez até tinha convidado o menino para o seu gabinete, onde estava o aparelho de raios X. A senhora Irma era uma bela mulher, esbelta, de cabelos dourados e olhos azuis. Já antes da guerra Pawełek sonhava com ela. Quando no meio da noite acordava assustado, não reconhecia o seu corpo, de tão quente, tenso e dolorido que estava. A senhora Irma parecia uma doença, só o fazia sofrer. Quando lhe oferecia balas ou chocolate, ele se sentia humilhado. Queria conquistar terras exóticas, saquear fortalezas, subjugar as hordas inimigas, tudo para ela. Mas não podiam se entender nem se encontrar. Ele ia em sua direção navegando numa embarcação, num galeão de cem canhões, numa canoa indígena, e ela o esperava com um bombom na mão.” [pp. 18-19]

“Pensou, de repente, que a vida é apenas o que passou. Não há outra vida a não ser a recordação. O futuro não existe, não só aqui, atrás das grades, mas em qualquer lugar, também na rua, na floresta, no mar, nos braços do homem amado. A vida é o que foi cumprido, o que lembramos que aconteceu e passou para deixar uma recordação. A vida não pode ser o futuro, pensava Irma Seidenman, porque no futuro eu não existo, não sinto fome, nem sede, nem frio, nem o calor. O que acontecerá em algum tempo e em algum lugar ainda está fora de mim, escondido por detrás de um muro e de uma grade, fora do meu espaço e fora da minha compreensão, ainda nas estrelas longínquas, nos desígnios cósmicos. A minha vida é aqui, porque eu estou aqui, meu corpo e, acima de tudo, a minha memória. A minha vida é apenas o que já aconteceu — mais nada! Então pensar na vida é pensar no passado gravado na memória, e cada instante é passado, porque o fechar das grades é passado, o inclinar da cabeça e o segurá-la nos braços é passado. Foi isso o que já vivi, meu Deus! Não vivi mais nada do que me lembro ter vivido. Além da memória, nada existe.” [p. 28]

“Sabia que a sua vida não ia durar muito, porque era um jovem inteligente e não tinha ilusões. Sabia que ia morrer pela mão do outro, porque seria assassinado. Mas o rosto do outro homem, a sua voz, o olhar não o assustavam. O mais difícil é morrer sozinho, na escuridão e no silêncio. A morte entre os outros, no meio da gritaria, dos olhares e gestos apertados, parece menos cruel. Henryk Fichtelbaum pensava que a morte de um soldado durante um ataque com baionetas deve ser menos terrível do que a agonia solitária de um condenado, mesmo se fosse condenado a uma morte na cama.
Mas por que eu tenho de morrer, pensou de repente, se ainda nem tenho dezenove anos? Será justo? Será minha culpa ter nascido judeu, ter antepassados judeus, sair de ventre judeu? Com que direito me fizeram judeu para em seguida ser condenado à morte por ser judeu?” [p. 45]

“Wiktor Suchowiak costumava servir-se de uma alavanca, mas nos tempos em que a sorte lhe sorria usava um cassetete. Só empregava a violência em circunstâncias excepcionais, quando a resistência ou a recusa ultrapassavam os limites da sua paciência e colocavam em risco a empresa. Ele não podia concorrer com divisões de tanques e batalhões de soldados armados com metralhadoras, nem — tempos depois — com tais instrumentos de violência como geradores de alta tensão, frio polar, napalm, chantagem de grupos sociais inteiros, trabalhos forçados, apartheid, telefones grampeados, e até os cassetetes comuns nas mãos dos policiais furiosos nas ruas, ou misteriosos seqüestros das pessoas incômodas cujos cadáveres foram afundados em barreiros ou rios, ou seqüestro de aviões cujos passageiros foram mortos um após outro para obter resgate em dinheiro ou concessões políticas dos indivíduos, das comunidades ou dos Estados.
No fundo, o primeiro totalitarismo que Wiktor Suchowiak tinha conhecido quando Hitler desencadeou uma guerra era o mais cruel, o mais sangrento e rapinante de todos, mas também o mais estúpido e bastante primitivo, porque lhe faltava o requinte do totalitarismo que veio depois. Mas é assim que acontece com tudo que é obra dos homens. O começo é sempre rude, e a sofisticação, a perfeição só vem mais tarde.” [p. 94]