BOUVARD E PÉCUCHET
Gustave Flaubert

Tradução: Marina Apenzeller
400 p., 14 x 21 cm
ISBN: 978-85-7448-130-2
R$ 48,00

Compre aqui com nossos parceiros
Livraria Cultura
 


Com suas frases lapidadas exaustivamente, suas palavras precisas, o romance Bouvard e Pécuchet, do francês Gustave Flaubert, atravessou o tempo sem perder seu impacto e sua força expressiva. Publicado originalmente em 1881, permanece sendo “literalmente uma obra de vanguarda”, como dizia Roland Barthes.
Após anos sem edição brasileira no mercado, a nova tradução, publicada agora pela Editora Estação Liberdade, mantendo-se fiel às edições críticas francesas, traz notas explicativas e os roteiros manuscritos que o escritor deixou para o final da primeira parte do romance, bem como para a segunda parte, como o famoso “Dicionário das idéias feitas”. Conta também com um ensaio de Guy de Maupassant, escrito por ocasião do lançamento da obra, e com uma apresentação, assinada pela especialista Stéphanie Dord-Crouslé, sobre a construção do livro e sua revolucionária estrutura narrativa.
Nesse romance inacabado, Flaubert coloca em cena dois personagens crédulos, os escreventes Bouvard e Pécuchet, que, caminhando na rua, na hora do almoço, sentam num mesmo banco de praça e acabam se tornando grandes amigos. O sonho desses dois “homenzinhos”, como o escritor a eles se referia, era conseguir largar o trabalho insano de copistas para se dedicarem aos estudos, aos altos conhecimentos, científicos ou não, do mundo.
Um dia, um deles recebe uma bela herança, suficiente para passar o resto da vida sem trabalhar em escritório. Combinam, então, trocar a vida parisiense pela vida no campo, onde poderiam se dedicar aos estudos e às experiências, procurando pôr em prática, nesse laboratório da natureza, tudo que aprenderiam nas grandes obras de referência.
O resultado se torna uma série de trapalhadas, narradas com humor refinado e carregado de crítica. Vários são os assuntos que passam pelos olhos dos dois personagens, que compram livros e mais livros, de manuais de agricultura a obras de grandes e importantes cientistas. O que mais os atordoa é a impossibilidade de determinar uma verdade.
Cada capítulo é recheado de citações, de referências bibliográficas, de sistemas, enfim, de discursos que se cruzam sem que o leitor possa se fiar no que está sendo dito. Flaubert percebe que nenhuma linguagem é inocente, e também não garante nenhuma certeza. A estrutura circular da narrativa, que faz com que os capítulos sigam um esquema muito parecido, mostra a própria obsessão da procura da verdade como uma roda que gira em falso, envolvendo de forma divertida e patética seus dois protagonistas e todo o saber enciclopédico do século XIX.
Em outro registro, os dois quixotescos pesquisadores se vêem às voltas com uma França sacudida pelas jornadas de 1848 e o ideário revolucionário de 1789 que perdura.

Trechos

“Pécuchet temia os alimentos condimentados, capazes de lhe atearem fogo às entranhas. Isto foi motivo para uma discussão médica. Em seguida, louvaram as vantagens da ciência: tantas coisas a conhecer! Quantas pesquisas! Ah, se tivessem tempo! Que lástima, o ganha-pão os absorvia! E ergueram os braços, estupefatos. Por pouco não se abraçaram por cima da mesa com a revelação de que ambos eram escreventes. Bouvard, em uma casa comercial, Pécuchet, no Ministério da Marinha, o que não o impedia de consagrar, todas as noites, alguns momentos ao estudo.” (p. 40)

“De tanto conversar sobre o assunto, apaixonaram-se pelo tema. Bouvard, espírito liberal e coração sensível, foi constitucional, girondino, termidoriano. Pécuchet, bilioso e com tendências autoritárias, declarou-se sans-culotte e até mesmo adepto de Robespierre. Aprovava a condenação do rei, os decretos mais violentos, o culto ao Ser Supremo. Bouvard preferia a Natureza. Saudaria com prazer a imagem de uma mulher gorda, esguichando de seus seios, a seus adoradores, não água, mas vinho de Chambertin.” (p. 152)

“Usavam-se calças de todas as cores, boldriés imundos, peças velhas de uniforme, curtas demais, que revelavam as camisas nos flancos: e todos pretendiam ‘não ter recursos para estar de outro jeito’. Foi aberta uma subscrição para vestir os mais pobres. Foureau regateou, enquanto as mulheres foram generosas. A senhora Bordin ofereceu cinco francos, apesar de seu ódio à República. O senhor de Faverges equipou doze homens e não faltava às manobras. Em seguida instalava-se na mercearia e pagava bebidas a todos os que passavam.
Os poderosos bajulavam a classe baixa, priorizando os operários. Brigava-se pela vantagem de pertencer à sua categoria. Eles tornavam-se os nobres.” (p. 191)

“‘O que sonho, no momento, é uma coisa mais considerável. E que terá a pretensão de ser cômica. ’ Bouvard será então uma enciclopédia com uma ‘pretensão cômica’, ‘em forma de farsa’. [...] O riso é um revelador ao qual o autor vai aplicar as virtudes à sua enciclopédia dos saberes.”
(Flaubert, em carta de 25 de novembro de 1872 a George Sand, Apresentação, p. 16)

“Este livro mexe em tudo que há de mais forte, de mais curioso, de mais sutil, de mais interessante no homem: é a história da idéia sob todas as suas formas, em todas as suas manifestações, com todas as suas transformações, na sua fraqueza e na sua potência.”
(Do posfácio de Guy de Maupassant, p. 388)




Imprensa Livro clássico de Flaubert faz rir com nó na garganta
Adriano Schwartz, Folha de São Paulo, 12/01/08