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CASSANDRA Tradução: Marijane Vieira Lisboa |
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Prisioneira de Agamenon frente aos portões de Micenas, Cassandra só tem algumas horas de vida antes que os guardas de Clitemnestra cheguem para levá-la. Começa, então, a repassar o que foi sua vida e seu destino. O monólogo criado pela escritora alemã Christa Wolf, em Cassandra, coloca em cena os conflitos interiores vividos por esta bela e trágica personagem, figura mitológica da Guerra de Tróia.
Cassandra, filha dos reis troianos Príamo e Hécuba, num discurso poético e exasperante, lembra sua infância no palácio de sua família, a dolorosa separação de seu pai, seu mergulho na loucura quando suas visões contradiziam as verdades palacianas, os sofrimentos durante a interminável guerra que assolava sua gente. Amada por Apolo, tinha o dom da profecia, porém, como não quis se entregar a ele, recebeu o castigo divino de que ninguém acreditaria em suas palavras.
As observações que ela vai tecendo, em diálogos imaginários, fluindo e refluindo no tempo, revelam as facetas da alma humana e –– por que não dizer, já que se trata de uma obra de uma autora contemporânea? –– do próprio homem acossado pela guerra. Cassandra enfrenta sua própria morte, prevista por ela mesma. Ela enfrenta com lucidez o medo que sente: “Mas quando foi que minha arrogância frente à dor se desfez? No começo da guerra, evidentemente. Desde que vi o medo dos homens: que era o medo diante da luta, senão medo da dor física? Seus truques extravagantes para negar o medo ou fugir da luta, diante da dor”.
Há um aprendizado do sofrimento diante do terror. “Parece-me que, no fundo, o que faço é traçar a história do meu medo. Ou melhor, da sua abertura, ou melhor ainda, da sua libertação. Sim, de fato o medo também pode ser libertado, e com isso vemos que ele pertence a todos e a tudo o que é oprimido.”
Neste livro, em nova edição lançada agora pela Estação Liberdade, após a narrativa, a autora apresenta quatro conferências, nas quais conta como a figura de Cassandra se apossou inteiramente de sua mente e do seu dia-a-dia. Ela também revela seu método de composição literária, articulando a vida e o tema tratado, e ainda debate questões “sobre a realidade da história da personagem Cassandra e sobre as condições da escritura feminina”. Estas conferências formam com a narrativa um só e mesmo enredo, apropriando-se de várias linguagens –– da ficção, da poesia, do ensaio e do diário –– para compor um livro considerado uma obra-prima da literatura alemã contemporânea.
Trechos
“Aqui chego ao fim, impotente. E nada, nada que fizesse ou deixasse de fazer, que quisesse ou pensasse, teria me conduzido a outro destino. Mais forte que qualquer outra emoção, mais forte mesmo que meu medo, me impregna, me corrói e me envenena a indiferença dos deuses a nosso respeito, os mortais. Fracassada a audácia em contrapor nosso pobre calor à sua frieza glacial. Em vão tentamos nos subtrair à sua força, sei disso há muito.” [p. 15]
“Eu, a vidente! A filha de Príamo. Cega por tanto tempo diante dessa evidência: que tivera que escolher entre a minha origem e essa função. Tanto tempo amedrontada diante do horror que deveria despertar em meu povo, caso eu estivesse certa. E esse horror antecipou-se, atravessando o mar antes de mim. O povo daqui, ingênuo se comparado aos troianos — pois ele não conheceu a guerra —, expressa seus sentimentos, toca nos carros, nos objetos estrangeiros, nas armas do butim; até nos cavalos. Mas não em mim. O auriga, que parece se envergonhar de seu povo, disse-lhes quem eu era. Aí vi aquilo a que já estava acostumada: os arrepios de medo. Os melhores, disse o auriga, não são sempre aqueles que permanecem em casa. As mulheres se reaproximam. Sem cerimônia, avaliam-me, espiam por baixo do manto com o qual cobri minha cabeça e ombros. Discutem se sou bela ou não. As mais velhas acham que sim, as mais novas o negam. Bela, eu, a assustadora? Eu, que quis que Tróia sucumbisse. O rumor que atravessou os mares também me precederá no tempo.[...]” [p. 22]
“O céu, que eu via da janela, me parecia de um negrume insondável, tanto à noite quanto de dia. Não queria comer. Partena, a ama, me fez beber leite de jumenta a goles pequenos. Eu não queria alimentar este meu corpo. Queria matar de fome e sede este corpo criminoso, onde a voz da morte se abrigava. A loucura, ao fim da tortura da dissimulação. Ah! Eu a fruí terrivelmente, envolvendo-me nela como num grande tecido espesso, deixando que ela me penetrasse, fibra após fibra. Ela era meu alimento e minha bebida. Leite escuro, água amarga, pão azedo. Voltei a mim. Mas eu não existia mais.” [p. 67]