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CINEMA DE NOVO 256 p. | 16 x 23 cm |
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O cinema nacional foi dado como morto no começo da década de 1990. Mas, como aconteceu outras vezes em sua história, ele renasceu e sobreviveu. Ao longo desses anos, a nova produção brasileira cresceu, afirmou-se e atingiu certa estabilidade. A esse processo laborioso — por vezes tenso e dolorido — deu-se o nome de “Retomada do cinema nacional”.
Cinema de Novo: um balanço crítico da Retomada busca apresentar uma primeira visão analítica de um processo que desaguou em obras tão marcantes quanto Terra estrangeira, Sábado, O invasor e Cidade de Deus, para citar apenas alguns.
No texto, o autor discute as tendências desta novíssima cinematografia que nasce da carência e das cinzas de um momento negro de nossa história recente, e se afirma com teimosia. Constata que, dentro da diversidade apontada como marca da produção contemporânea, algumas linhas de força comuns se esboçam. Tão diferentes entre si, esses filmes discutem a relação do país com a sua história e com a recorrente questão da identidade nacional. Como muito bem diz Ismail Xavier em seu prefácio, “a tônica do livro é articular o que de heterogêneo se intercepta na prática do cinema, e o autor assume de forma sistemática uma premissa dialógica, de comparação, definição recíproca dos termos, na condução da crítica”. Impossível não pôr em cena as dificuldades do presente, como o abismo entre as classes sociais e os crescentes desafios colocados pela violência urbana. Os cineastas da Retomada revisitam cenários preferenciais como o sertão e a favela, dialogam forçosamente com o Cinema Novo, debruçam-se sobre as difíceis relações amorosas num país de rápidas mutações urbanas.
É portanto um cinema que não fecha os olhos para os desconfortáveis impasses do país, nem para os seus próprios impasses. Aliás, uns se relacionam com os outros e o destaque dessa inter-relação compõe o eixo preferencial do livro. O autor prefere pensar o cinema não como arte etérea, confinada a uma hipotética torre de marfim, mas imerso na prática social, com todas suas contradições e impurezas.
Trechos
“[...] boa parte do cinema produzido no Brasil durante esses anos levou em conta as condições do país. Bem ou mal, debruçou-se sobre temas como o abismo de classes que compõe o perfil da sociedade brasileira, tentou compreender a história do país e examinou os impasses da modernidade na estrutura das grandes cidades. Foi ao sertão e às favelas e reinterpretou estes espaços privilegiados de reflexão do cinema nacional [...]. Como pôde, examinou o caráter das novas relações amorosas surgidas com a modernização, ensaiou volta ao regionalismo e ao metacinema e refletiu sobre temas difíceis (e tão enraizados no imaginário nacional) como o relacionamento do brasileiro com o Outro — o estrangeiro, aquele que não faz parte do ‘nós’”. (p. 24)
“A tônica do livro é articular o que de heterogêneo se intercepta na prática do cinema, e o autor assume de forma sistemática uma premissa dialógica, de comparação, definição recíproca dos termos, na condução da crítica.” (p. 13, no prefácio de Ismail Xavier)
“Preocupado com a continuidade e ressonância social do cinema brasileiro, Zanin faz o balanço da Retomada com especial atenção aos momentos em que se dá um salto no padrão de comunicação com o público, salto que ele relaciona com determinadas opções de tratamento dos assuntos, e que discute em diferentes casos: Carlota Joaquina (Carla Camurati), Cidade de Deus, O auto da compadecida e Central do Brasil.” (p. 12-13, no prefácio de Ismail Xavier)
“Este livro procura mostrar um retrato do cinema multifacetado que saiu do conjunto de situações esboçado acima. Por um lado, o desmanche da era Collor deu à década de 1990 um sentido de ‘grau zero’ para o cinema brasileiro. Um recomeço do nada, ou ao menos assim se apresentava. Por outro, não se pode ignorar que o cinema que renasce é tributário de uma determinada forma de produção, baseada em renúncia fiscal e controlada, ao menos em parte, pelos departamentos de marketing das empresas investidoras.” (p. 29)
“Alguns filmes estão aí para demonstrar que parte do cinema mais vital da Retomada tira seu vigor justamente da utilização criativa dessas novas linguagens, seja da publicidade, da tevê ou do videoclipe, e de sua incorporação na linguagem cinematográfica. No caso, para entendermos o que está se passando, devemos fazer uma cuidadosa distinção entre o que é utilização oportunista de uma linguagem de aceitação popular e sua incorporação criativa à gramática do cinema.” (p. 228)
“Alguns realizadores como Beto Brant, Tata Amaral, Fernando Meirelles, Jorge Furtado, Murilo Salles, são expoentes deste novíssimo cinema que se faz no Brasil. Fazem um cinema que se quer social, mas não recusam o diálogo com as linguagens contemporâneas, venham de onde vierem. Da publicidade e da televisão, por certo, mas também de um cinema tido por colonizador, o norte-americano, que, segundo o mandamento anterior, deveria ser evitado a todo custo. Proponho chamar essa atitude mais aberta, onívora, disposta a dialogar com tudo o que estiver disponível, de ‘cinema impuro’.” (p. 229)
“É nesse sentido que se deve entender o cinema mais vigoroso que está sendo feito no Brasil. Tematicamente, ele se incorpora ao trabalho de meditação sobre o país e suas contradições. Estilisticamente, dialoga com as tendências do seu tempo, ou seja, com linguagens cinematográficas importadas — Tarantino, Scorsese, Coppola, Iñarritu, entre outros, mas também com as linguagens da televisão, do clipe e da publicidade. Essa hibridação cruzada (porque também o cinema faz o caminho de volta e fertiliza as outras linguagens) é inevitável e acontecerá com freqüência cada vez maior num mundo de trocas culturais mais fáceis e rápidas.” (p. 233)