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CARLOS MAGNO Tradução de Luciano Machado
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A obra
Nessa monumental e bem-documentada biografia, o historiador medievalista e ex-presidente da Biblioteca Nacional da França, Jean Favier, escreve sobre fatos e lendas que envolvem o personagem Carlos Magno, o rei franco que foi coroado imperador romano no dia 25 de dezembro do ano 800 pelo papa Leão III. Doze anos mais tarde Carlos Magno seria reconhecido como tal pelo império bizantino, que até então reivindicara o direito à sucessão do império romano, marcando, assim, o início da história ocidental cristã. A partir de sua coroação, o papado e o império tornaram-se os principais centros de poder espiritual e temporal da Idade Média. Quando morreu, em 814, Carlos Magno reinava sobre um território que se estendia do Mar do Norte à região dos Abruzos (Itália), do Rio Elba até o Ebro, do Lago Balaton (Hungria) até a Bretanha.
Tratando das intermináveis campanhas guerreiras de Carlos Magno e de seu legado político, religioso e cultural, o autor destaca que as lendas criadas em torno do personagem são tão importantes quanto os documentos existentes sobre ele e que doze séculos depois da coroação de 800 ainda estamos longe de certezas no que tange à história de Carlos Magno.
Existe o Carlos Magno da história e o da lenda. O primeiro desenhou uma nova Europa, o outro fez sonhar. Os dois, o homem que foi e o personagem que construiu o tempo, forneceram durante doze séculos a mais surpreendente das referências, tanto intelectual quanto política. Este livro dedicado ao Carlos Magno da história também cede espaço ao Carlos Magno das canções de gesta, àquele do Sacro Império ou do reino capetiano, àquele de Napoleão ou o da França e da Europa modernos.
O homem e sua obra são de uma diversidade que coteja o paradoxo. A preocupação que conduz e domina sua ação é aquela da unidade política e religiosa do Ocidente cristão. Homem de Estado de rude autoridade mas sensível aos conselhos dos que escolheu como conselheiros, autodidata imbuído de poesia latina e leitor de grego, e iniciou um renascimento intelectual benéfico tanto para os laicos quanto para os clérigos, mas também uma nova construção política e um sistema monetário que durará mil anos. Chefe de guerra impiedoso e defensor da fé tanto nos campos de batalha quanto nos debates teológicos, organizador de um verdadeiro Estado que federalizou povos, atento tanto ao ensino ministrado nas escolas quanto na manutenção dos domínios e na arrumação dos jardins, eis o surpreendente rei de francos e lombardos que se viu coroado imperador no Natal de 800.
Carlos Magno é profundamente o homem deste país do Reno, da Mosa e da Mosela, terra de seus antepassados. É em direção ao Elba e ao Danúbio que ele dirige com mais ardor suas conquistas. Mas impõe também sua lei à Itália, tenta tomar a Espanha, mantém relações difíceis com Bizâncio e não esquece o califado de Bagdá. O fulgurante chefe de guerra, para governar, se dá ao luxo da reflexão. E o incansável cavaleiro das campanhas de verão se paramenta de uma capital pois o tempo não está mais para um governo itinerante num império que não cessa de se expandir.
Trecho
“Carlos Magno continuou presente
na história. Não podemos considerar seu destino como encerrado
quando, em janeiro de 814, o velho imperador falece. Personagem lendário,
herói quase sempre imaginário da gesta, ele é também
um dos objetos que entre si partilham ou disputam os governantes, os clérigos,
as estirpes. Ele se apresenta como fonte de legitimidade, como exemplo de visão
política, como modelo de comportamento moral. E, assim sendo, o tempo
modela o imperador e seus companheiros reais ou inventados à semelhança
das sociedades que invocam seu testemunho. Há o Carlos Magno da sociedade
baseada na vassalagem e no feudalismo, o Carlos Magno da Cruzada e da Reconquista,
o Carlos Magno inventor da coroa da França ou da coroa imperial, o Carlos
Magno objeto de uma canonização duvidosa, mas tido como verdadeiro
santo da Igreja [..]
[...] O historiador que aborda a história de Carlos Magno precisa ser
modesto. Eu não quis apagar as interrogações. As lacunas
de nosso conhecimento são por demais evidentes para que eu precise salientá-las
aqui. Mas temos que desistir por causa disso? Não podemos esperar o aparecimento
de novos textos essenciais. A arqueologia reserva ainda, sem dúvida,
algumas descobertas, mas trariam elas alguma surpresa? A história de
Carlos Magno pertence agora à interpretação. Do que sabemos,
que podemos concluir?”
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O senhor da guerra Uelinton Faria Alves, Jornal do Brasil, Idéias, 2/10/2004 Carlos Magno, um imperador que queria
a paz |